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Silvio Da-Rin: revolvendo o terrorismo de Estado

Foto Daniel Guillamet
Foto Daniel Guillamet

Ex- Secretário Nacional do Audiovisual do Ministério da Cultura e com uma extensa carreira em mais de 150 filmes e direção em 14, o cineasta Silvio Da-Rin veio ao FAM com Missão 115, que retoma e atualiza o atentado terrorista frustrado que militares executariam durante um show no Riocentro no Rio de Janeiro, em 1981. O ato era parte de uma série de 36 atentados para provocar pânico na população, culpar comunistas e conseguir apoio para a continuação da ditadura militar no país. Com documentação da Comissão Nacional da Verdade, arquivos oficiais, entrevistas com agentes do grupo secreto que levava a cabo as ações e ampla pesquisa, ele traça os caminhos do terrorismo de Estado. Seu filme participou da Mostra Doc-FAM e ele também deu uma concorrida palestra sobre documentário.

FAM – Como começa seu longo envolvimento com o tema de Missão 115?

Silvio Da-Rin -
Foi um projeto acalentado por muitos anos, no final de abril de 1981 vi a notícia de um atentado a bomba, que explodiu no colo de um sargento do DOI-CODI num show no dia 1º de maio, em que haviam 18 mil pessoas. A segurança foi dispensada, as saídas trancadas, as bombas explodiriam no palco, era para ser uma tragédia. Fiquei impressionado com a ousadia de quem tinha cometido aquilo, acompanhei o desdobramento do inquérito policial-mlitar farsejo conduzido pelo Exército, convencido de que era um tema para um documentário, que ninguém fazia. Por fim ganhamos um edital do BNDES, de R$ B500 mil, e realizamos o filme.

FAM – Como vê e aborda o trabalho da Comissão da Verdade?

Da-Rin -
A Comissão Nacional da Verdade foi uma iniciativa um pouco tardia mas importantíssima no Brasil. Vimos a presidente Dilma Roussef recebendo o relatório, prometendo que o governo ia se debruçar sobre ele, foi um documento oficial que mostra números, 434 mortes ou desaparecimentos, 1,8 mil pessoas torturadas, 20 mil sessões de tortura, prisões. Um trabalho formidável de produzir um registro oficial. O Brasil estava muito atrasado em relação ao Chile, Argentina, Uruguai, todos os países do Cone Sul já tinham feito suas Comissões da Verdade, em alguns casos houve punições. Rafael Videla, general golpista da Argentina, ficou preso até o final da vida. No Brasil foi um pouco diferente, pactuou-se uma anistia para não haver punições, uma solução bem brasileira, bem conciliatória, para o bem e o para mal.

FAM – E sua posição quanto à revisão da Anistia? O que torna o filme contemporâneo?

Da-Rin -
Temos opinões diferentes de participantes do filme sobre revogar ou rever a Lei da Anistia, sobre o que fazer para que aqueles que cometeram crimes contra a humanidade possam responder por seus atos. Este é um momento muito complicado, o jornalista Luiz Maklouf lançou recentemente o livro “Do cadete ao capitão”, onde fica demonstrado que o atual presidente da República foi desligado das Forças Armadas num contexto em que era acusado de um ato terrorista, numa operação que pretendia explodir a represa do Ribeirão das Lajes, que alimenta o Grande Rio. Então não é um momento oportuno para rever a Anista, a própria comissão está com seus trabalhos paralisados, mas a história continua acontecendo, o que estamos vendo no país é bastante grave, mas continuamos confiando na vocação democrática do povo brasileiro, certos de dias melhores.

O documentário é dividido em três partes, a primeira explora o grupo secreto, sujeito do filme, aqueles que cometeram os atos terroristas, a segunda é o acidente, a explosão acidental da bomba e a terceira é a impunidade. O filme ficaria incompleto, pouco atual se não avançasse para uma discussão da Lei da Anistia, a instalação da Comissão da Verdade, que se multiplicou nos estados, nos municípios, nas universidades, estava revolvendo a terra, na discussão do processo que levou ao impeachment da presidente Dilma, um episódio presidido por Eduardo Cunha, preso um pouco depois. Senão ficaria histórico, somente voltado ao passado, é preciso dar conta da contemporaneidade política do Brasil. Recomendo que vão ver Bacurau, um filme que trata de maneira alegórica sobre o que está acontecendo no país, todo brasileiro deveria assistir.

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.

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