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Distribuição e mercado interno continuam sendo os gargalos do cinema brasileiro independente

Beto Rodrigues e Ana Luiza Beraba - Foto: Daniel Guilhamet
Beto Rodrigues e Ana Luiza Beraba - Foto: Daniel Guilhamet

Os gargalos da distribuição do cinema brasileiro e latino-americano foram o tema do Painel realizado na tarde desta sexta-feira no Fórum Audiovisual Mercosul, dentro da programação do FAM 2017, com a participação dos produtores e distribuidores Beto Rodrigues (Panda Filmes), Ana Luiza Berada (Esfera Filmes) e Ruan Canniza (Vitrine Filmes), com mediação do professor do curso de Cinema da UFSC, Alfredo Manevy, que abriu a discussão com números do relatório da Ancine sobre a performance dos filmes brasileiros lançados em 2016. Segundo o relatório, 30% dos filmes não atingiram mil espectadores, 55% não atingiram 5 mil espectadores, 66% não atingiram 10 mil espectadores e apenas 4% superaram 1 milhão de espectadores.

Beto Rodrigues lembrou que esse problema não é exclusivo do cinema brasileiro, e recordou de uma pesquisa do Hollywood Reporter, que apresentou aos seus alunos quando era professor de Economia de Produção do curso de Realização Audiovisual da Unisinos (RS), que apontava que apenas 15% dos filmes norte-americanos ultrapassavam o custo médio de produção. “Essa é uma realidade da cinematografia do mundo inteiro. Nos seus piores momentos, o cinema brasileiro tem 8% ou 9% de market share, chegando a 20% nos melhores períodos. Na Índia, o mercado interno responde por 95% das produções, o cinema francês, que tem uma tradição cultural, é 30% a 40% do mercado interno. Já na Coreia do Sul, dos 10 blockbusters em exibição no ano passado, sete eram coreanos e os outros três norte-americanos. Mas na maioria dos países, não chega a 10% do mercado interno, inclusive na Argentina, que tem um cinema potente, e que ouso dizer está dois degraus acima do brasileiro tanto em qualidade narrativa quanto em produção”, disse.

Para Rodrigues, o gargalo do cinema brasileiro está onde sempre esteve, na distribuição, tanto que a Panda Filmes deixou de ser distribuidora para se tornar apenas produtora. “Sem incentivos, não se desenvolve uma cinematografia nacional. O problema é que, no âmbito da OMC (Organização Mundial do Comércio), qualquer tipo de apoio ao cinema nacional é encarado como protecionismo e está sujeito a sanções”, afirmou.

Ana Luiza Beraba apresentou dados da pesquisa que fez para a revista Filme B, feita com dados recolhidos entre os anos 2011 e 2013, em um universo de quase 600 filmes. De acordo com a pesquisa, os chamados filmes de arte, que somaram 56% dos filmes exibidos no Brasil, tiveram no período apenas 4% do público, enquanto o cinema comercial, com 44% dos filmes, teve 96% da bilheteria. No Brasil, 77% das produções nacionais, consideradas filmes de arte, tiveram apenas 3% do público, enquanto que os demais 23% de produções comerciais, angariaram 97% do público. Quanto à exibição, daqueles 56% dos filmes de arte mencionados acima, tiveram exibição em apenas 4% das salas existentes no país.

“Quando montei a minha distribuidora, em 2012, optei por não trabalhar com filmes brasileiros e distribuir apenas filmes que representassem a diversidade cultural do mundo no Brasil. Foi uma opção consciente de passar filmes de nicho com o intuito de fomentar essa diversidade. No começo, bem no período da digitalização, houve o boom das pequenas distribuidoras. Mas, a partir da cobrança do VPF, da taxa que pagamos para a digitalização das salas, teve algumas situações em que eu tive que pagar para exibir os meus filmes”, disse Ana Luiza.

Ruan Canniza explicou que a Vitrine Filmes, responsável pela distribuição de filmes nacionais como O som ao redor e Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e Hoje eu quero voltar sozinho, de Daniel Ribeiro, foi criada para dar vazão às produções que não encontravam espaço fora do circuito dos festivais. “Lançamos de cinco a seis filmes por ano, com o perfil do cinema independente. Como este tipo de filme tem muita dificuldade de conseguir espaço, nós criamos a Sessão Vitrine, numa parceria com a Petrobras, para exibição em 26 salas de 20 cidades diferentes, num horário entre 19h e 20h, com ingressos subsidiados a R$ 12 (inteira) e R$ 6 (meia), para possibilitar um maior acesso público aos filmes brasileiros independentes. Foi assim que um filme como A cidade onde envelheço, de Marilia Rocha, conseguiu ter um público de 8 mil pessoas em duas semanas de exibição”, revelou Canniza.

O FAM 2017 tem o patrocínio Funcultural/ Fundação Catarinense de Cultura, Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esportes, Governo do Estado de Santa Catarina, da Petrobras e do Governo Federal, com apoio da Secretaria de Cultura e Arte da Universidade Federal de Santa Catarina e realização da Associação Cultural Panvision.

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