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Último dia de debate do FAM 2020

foto: Daniel Guilhamet
foto: Daniel Guilhamet

Um mundo em que diversos corpos possam se expressar, a arte como resistência e a contracultura como questionamento

Os representantes dos filmes no último dia de debate do 24º Florianópolis Audiovisual Mercosul tinham um assunto em comum: a luta por um mundo melhor, por mudar alguma coisa que faça a diferença na vida das pessoas. Um tema bastante pertinente para o FAM, afinal, o próprio evento representa essa luta. Como disse o diretor geral e idealizador do evento, Celso dos Santos, em um ano pandêmico e com tantos acontecimentos políticos como 2020, o FAM não poderia deixar de acontecer. Ele reforça que é preciso marcar este momento com resistência e resiliência, para levar todo esse conteúdo produzido pelos realizadores do audiovisual para vários países da América do Sul. Citando um dos filmes, Celso deu início ao debate: “Existem sonhos e desejos. Não se pode abandonar os sonhos”.

E assim a conversa começou com o documentário Cogumelo Atômico, dirigido por Maria Zucco e roteirizado por Ricardo Weschenfelder. O filme resgata a história do jornal no estilo fanzine Cogumelo Atômico, que ficou adormecida por 40 anos. Produzido em Brusque, Maria conta que o resgate da publicação é também muito importante para a cidade, porque é um local no interior de Santa Catarina muito conhecido pelo seu conservadorismo. “Resgatar a história deste movimento da contracultura, é dar luz à pessoas que não achavam que suas histórias seriam contadas”, disse. De acordo com Ricardo, foi um movimento muito forte para a cidade também na época. “Em 1974 os ideais conservadores da família, por exemplo, eram muito latentes na cidade e a forma como eles conseguiram divulgar a publicação, enviando-a pelos Correios, foi tão intensa, que o Pasquim começou a notá-los”, observou.

O movimento da contracultura sugere o desejo de mudança, exatamente o que move o diretor Luiz Eduardo Ozório, de Doidos de Pedra, o Paraíso Ameaçado, quando denuncia um crime ecológico na Pedra da Guaratiba, uma colônia de pescadores no litoral do Rio de Janeiro, onde há quase cinco décadas despeja-se esgoto sanitário. Luiz traça um paralelo sobre o que acontece com o ambiente do local e a dificuldade da população de viver da pesca, como antigamente, ao mesmo tempo em que mostra a beleza do lugar que, desde a década de 1960 - durante a ditadura - é o endereço de vários artistas incríveis. Ao longo do filme, os personagens discutem sobre a degradação do meio ambiente, lixo industrial, falta de tratamento de esgotos e questionam a falta de políticas públicas.

A vibe artística da conversa acabou por levar o debate a falar sobre o curta experimental/poético, Projeção Queer, de Gabriel Turbiani que, utilizando da videoarte, mostra a possibilidade de diversos corpos e como eles podem se manifestar. Além disso, ainda questiona como pessoas queers já adultas enxergam todo o movimento que aconteceu em suas vidas e como elas têm a força para sustentar quem realmente são. Fluxo de conversa que chamou para o bate-papo a diretora Camila Loie e a cantora Negah Ysa do videoclipe Minha Cor Contra o Sistema que pela primeira vez participaram de um festival e contaram que o filme faz parte de um projeto, do Pará, voltado para o rap feminino das manas que cantam.

Camila contou que todo o processo foi feito de uma forma experimental e que além de toda a produção do videoclipe, também foi realizada uma performance para o filme. A letra da música, de acordo com Negah Ysa, fala sobre como é ser uma mulher preta e mãe solo no Brasil, mostrando o preconceito que ela sofre por ser essa pessoa. “O sistema não está preparado para ver pessoas pretas no poder. O sistema quer ver pessoas pretas servindo, não sendo servidas”, afirmou. “Eu conto o que eu vivo, o que eu sou”, concluiu Negah.

A música, o videoclipe e a autoafirmação estão muito relacionados com o longa-metragem La Pesca Del Atún Blanco, de Maritza Blanco Ruano, que marcou a estreia da diretora em longas e foi lançado mundialmente no FAM. A personagem principal, Mariana, uma adolescente afro-colombiana, luta para conquistar seus sonhos, mostrando que eles são importantes para ela e poderão ser para sua comunidade na cidade de Buenaventura, na Colômbia.

Ao longo da história, além das dificuldades da personagem, percebe-se um resgate da cultura ancestral daquele povo, buscando a tradição musical da Colômbia afrodescendente e uma tradição de comportamentos que afeta os grandes saberes da região. Uma curiosidade sobre o filme é que, à exceção de um ator, todos os outros são moradores da região, uma das ilhas próximas à Buenaventura. “Eu viajei muito para fazer as pesquisas do local, conversei com muitas pessoas, então todos já me conheciam. Era natural que essas pessoas fossem os atores”, contou Maritza.

Mariana tem uma relação com a música desde criança. Ela toca marimba, um instrumento tradicional da região, que não é tocado por mulheres. Além desse detalhe, outra cena muito forte relacionada à música é o coro que, conforme comentou Celso, lembra um coro Grego. Maritza confirmou a intenção de ser um coro como em uma tragédia grega, para mostrar outra tradição local que é falar com a alma de seus antecessores. A diretora respondeu a uma pergunta do público e contou que na Colômbia existe uma qualidade muito boa para finalização de filmes, principalmente para musicais, então que ficou muito satisfeita com a qualidade, principalmente sonora, do longa.

Encerrando o debate, o diretor Otto Guerra, de A Cidade dos Piratas - uma de suas obras mais polêmicas - faz uma mistura underground e caótica entre ficção e realidade sobre as vidas particulares de Laerte Coutinho e Otto Guerra. O filme é construído por meio de uma série de referências dos quadrinhos da Laerte, e do cinema do próprio diretor. Como disse Otto, “o cartunista faz comédia com as misérias”. Para ele, a vivência que teve do governo dos anos 1960 o faz traçar um paralelo com o governo atual e perceber que quanto mais difícil é a situação, mais a arte, a música e a cultura ficam potentes e isso é muito bom. “O filme retrata o que a sociedade vive, como aceitar diferentes corpos, fazer cultura e, a partir da arte, resistir e se expressar”, afirmou.

Marilha Naccari, diretora de programação do FAM, concluiu o último debate do festival falando que esta edição termina, mas todos continuam trabalhando, fazendo cinema e resistindo. Ela explicou que ter colocado o evento - totalmente on-line - no ar foi um grande desafio, mas a possibilidade de resgatar o debate com os realizadores e poder se reconectar com as histórias inspiradoras afirma o quanto o cinema faz diferença na vida dela. “Que o cinema inspire as pessoas a se envolver com histórias e culturas diferentes da América Latina”, disse. Celso dos Santos encerrou o debate agradecendo e parabenizando a todos os realizadores.

O 24ª Florianópolis Audiovisual Mercosul é produzido com a Lei de Incentivo à Cultura, apoio Celesc e Engie, com patrocínio do Prêmio Catarinense de Cinema, Fundação Catarinense de Cultura, Governo do Estado de Santa Catarina, BRDE, FSA, Ancine, e realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério do Turismo, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.

 

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