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Debates sensíveis e reflexivos no FAM 2020

Celso dos Santos e Marilha Naccari durante debate com Martín Weber
Celso dos Santos e Marilha Naccari durante debate com Martín Weber

Da descoberta sobre a vida, aos 10 anos, à busca de um filho escravizado no Brasil atual. As histórias que os realizadores contam rendem conversas profundas

“Arte é tudo aquilo que o ser humano faz à procura do belo”. Esta uma das frases marcantes do filme Da Cor do Céu Sem Nuvens, de Helena Guerra, que esteve presente no quinto dia de debate do FAM 2020, nesta terça-feira (29), penúltimo dia do evento. A frase traz uma ideia de um dos pilares que o Festival de Cinema de Florianópolis - um dos maiores da América do Sul - busca reforçar há 24 anos, a beleza da sétima arte para refletir, identificar diferentes culturas, valorizar a cultura dessa parte do mundo e ampliar horizontes. Não à toa, os dias de debates sobre os filmes são sensíveis e repletos de conteúdo.

Hoje, não foi diferente. Além de Helena, os realizadores Martín Weber diretor d Mapa de Sueños Latino Americanos, Daphine Xavier e Zara Dobura, respectivamente diretora e atriz de Zara, Renato Barbieri, diretor de Pureza, e Cíntia Domit Bittar, diretora de Baile, conversaram com Marilha Naccari, diretora de programação do FAM, e Celso dos Santos, diretor geral e idealizador do evento, mediados pela equipe de comunicação. O público também pode participar com perguntas e, ao que tudo indica, a vontade é de que o debate dure mais que uma hora.

A conversa se deu com um tema pertinente aos debates, o ser mulher. Em Da Cor do Céu Sem Nuvens, a reflexão fica por conta da manequim que trabalha em uma loja de roupas no centro de São Paulo e, enquanto se prepara para um grande discurso, observa as mulheres que passam pela vitrine ao longo do dia. Neste (não) movimento, ela reflete sobre o comportamento humano e o que é ser mulher atualmente. Helena contou que, por conta do tema do filme, em alguns momentos sentiu dificuldades em trabalhar com homens, entre eles seu irmão, durante a produção do filme.

Uma dificuldade parecida com esta, mas talvez ainda mais profunda, encontraram Daphine e Zara ao filmar o curta de mesmo nome da atriz. Daphine contou que desde a ideia até a finalização, o curta-metragem foi se moldando à história que estava sendo construída em conjunto com a personagem principal. O grande objetivo era mostrar a rotina de uma profissional, artista trans enquanto ela passava pela transformação. De acordo com Zara, a expectativa de vida de uma pessoa trans é de 36 anos e, por essa realidade, é muito importante a representatividade de uma artista trans estar em um filme em que o espectador pode acompanhar a transformação do rosto da pessoa. “Eu precisei me expor bastante, mas sou exposta todos os dias. Se isso servir para humanizar a imagem que as pessoas têm de corpos trans, já é um grande avanço”, afirmou Zara.

Quem também começa a perceber algumas inquietações acerca do feminino é a personagem principal de Baile, Andréa, de 10 anos, que mora com a mãe e a avó. e, em um passeio de escola, ela aprende, também, sobre a vida. A partir de uma pergunta do público, Cíntia explicou sobre a escolha de filmar o curta-metragem em 3x4, uma ideia sugerida durante uma reunião, que devido às locações acabou sendo o melhor formato mesmo. A diretora explica que apenas uma cena foi filmada em 16x9, a que Andréa está na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, porque traz um significado conceitual além da estética. Ela a reflexão sobre o sistema de governo que Andréa e sua família vivem, além de como (e por quem) a vida delas é regida.
Uma curiosidade do trabalho com a atriz Emily de Jesus, quem faz a Andréa, foi que no primeiro teste de elenco ela falou muito baixinho, mas Cintia sentiu que o olhar dela mostrava mais do que ela tava entregando. Então, no segundo teste, Emily disse que antes estava “só conhecendo Cíntia”. Após o segundo teste, Emily passou e participou de um curso rápido de cinema para crianças, com a própria Cíntia, com o objetivo de facilitar a comunicação no set, garantindo que toda a equipe saiba como é o trabalho por trás das câmeras. “No final, a Emily já queria bater a claquete, porque realmente entendeu como é trabalhar com cinema”, disse Cíntia.

Interpessoal
A relação possível de ser traçada entre as pessoas é o tema que permeia o documentário dirigido por Martín Weber, diretor de Mapa de Sueños Latino Americanos. Martín falou que começou a fazer fotos de pessoas que não tinham destaque nos veículos de comunicação da Argentina, durante o governo militar do país, ainda durante o ensino médio. Anos depois, já fotógrafo profissional, quando retomou essas fotografias, começou a imaginar qual teria sido o futuro dessas pessoas e, por isso, começou a querer dar às pessoas das fotos o poder de contar suas histórias. Assim, entre os anos 1992 e 2013, ele viajou da Patagônia até Tijuana em busca das histórias desses personagens, pedindo para as pessoas escreverem seus sonhos e esperanças em um quadro e transformou essa aventura em um filme.

Martín ainda questiona: “o lugar em que estamos é o lugar em que queríamos estar? Alguns sonhos são realizados, outros não, mas o importante é sonhar”, concluiu o diretor que está escrevendo o próximo filme, um longa que também terá histórias que aconteceram durante estes anos de viagens.

Aliás, história é o que não falta nos 12 anos que Renato Barbieri dedicou à realização de Pureza que, conforme resumiu Marilha, “é um filme que mexe com todos os seus sentimentos, todos os pontinhos de você”. Não seria para menos, o longa é um trabalho híbrido entre documentário e ficção que conta a história real de Pureza, uma mulher muito simples do interior do Brasil, que se lança no mundo em uma perigosa jornada para tentar encontrar seu filho, vítima do trabalho escravo contemporâneo em uma fazenda nas profundezas da Amazônia.

A atriz Dira Paes foi quem fez a personagem principal do filme. De acordo com Renato, a intenção era trabalhar com uma atriz que realmente fosse engajada com questões humanistas. “A escolha foi muito certeira, porque além de uma ótima atriz, Dira é cabocla e presidente do Movimento Humanos Direitos que, entre outras ações, combate o trabalho escravo no Brasil”, observou o diretor. Ele contou que as gravações de Pureza aconteceram nos lugares em que se passaram as histórias e essa energia de estar no mesmo local é muito forte para o trabalho do artista que encarna ainda mais o personagem.

“A maioria da sociedade brasileira acredita que a escravidão acabou em 1908, mas nesse momento, milhares de pessoas são escravizadas no País, tendo todos os seus direitos arrancados de si mesmas. É preciso que as pessoas se dêem conta de que este é um problema sério e atual”, concluiu Renato.

Os debates aconteceram todos os dias, sempre às 16h e, amanhã (30), será o último dia de debate que pode ser acompanhado pelo público pela plataforma Innsaei.tv ou no YouTube FAM de Todos.

O 24ª Florianópolis Audiovisual Mercosul é produzido com a Lei de Incentivo à Cultura, apoio Celesc e Engie, com patrocínio do Prêmio Catarinense de Cinema, Fundação Catarinense de Cultura, Governo do Estado de Santa Catarina, BRDE, FSA, Ancine, e realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério do Turismo, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.

 

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