Entrevistas

Niña Errante: sensibilidade e dor nas telas do FAM 2019

Rubén Mendoza, diretor do premiado Niña Errante
Rubén Mendoza, diretor do premiado Niña Errante

Rubén Mendoza, diretor do longa-metragem Niña Errante, deveria ter participado desta edição do Florianópolis Audiovisual Mercosul – FAM como ministrante da palestra sobre montagem do 3º Rally Universitário Floripa, porém, devido ao falecimento de um dos nomes mais importantes do cinema independente colombiano, Luis Ospina, foi preciso cancelar a viagem. Apesar de estar passando por um momento de profunda tristeza, Mendoza concedeu um tempo para conversar com a equipe do FAM sobre sua mais recente obra, que está presente na Mostra Longa Ficção e vem sendo premiada em diversos festivais. Niña Errante recebeu prêmio de melhor filme ficção no Festival de Cinema da Colômbia, conquistou a Bisnaga de Prata de Melhor Atriz de Elenco no Festival de Málaga (Carolina Ramírez), ganhou dois Lobos de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Tallinn (Estônia) e conquistou um prêmio no 40º Festival Internacional do Novo Cinema Latino Americano de Havana (Cuba).

Rubén Mendoza já realizou sete filmes longa-metragem, sendo dois documentários e cinco obras de ficção.

Niña Errante, uma coprodução entre Colômbia e França, conta a história da adolescente Angela que, ao perder o pai, conhece suas três meio-irmãs. Juntas, elas partem em uma viagem de carro rumo à casa de uma tia que passará a cuidar de Angela. Ao atravessar o país, vão sendo reveladas as intimidades e relações das quatro irmãs, especialmente no que tange à relação com o pai, e suas formas de lidar com a dor e com o luto. O filme traz à tona também os problemas sociais da sociedade contemporânea colombiana e as dificuldades sofridas pelas personagens ao longo do percurso apenas por serem mulheres. Niña Errante é uma obra que explora temas de dor e abandono por meio de um olhar comovente, íntimo e sensível.

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.

FAM - Niña Errante fala sobre os relacionamentos familiares, mas principalmente sobre gênero. Como foi que nasceu a historia do filme?

Rubén Mendoza - Eu acho que é principalmente sobre o duelo. E como eles são criados. Quase nunca penso em gênero, embora tenha a conciência de que, neste mundo machista, a viagem seria bem diferente se fossem quatro irmãos ao invés de quatro irmãs. É muito triste ver a como a diferença entre ter ou não um pênis faz a diferença no seu destino.

FAM - O filme demorou em torno a cinco anos para ser finalizado. Quais os seus principais desafios?

RM - Os de todo filme. Os materiais de cinema são muito particulares. Todas as vezes que eu fiz, primeiro sozinho algumas vezes, depois com amigos, amores, colaboradores, a equipe...a distancia do percurso que queria e que cobria não só na estrada, mas também suas almas, que eram os personagens antes de encontrar as atrizes, e nesses seres que eram as atrizes, suas dúvidas e sentidos.

FAM - O filme é uma co-produção com a França, pode destacar alguns aspectos dessa parceria?

RM - Ganhei alguns prêmios lá. Desde sempre, com um homem muito belo, um velho anarquista, que é Thierry Lenovuele, que está comigo desde o meu primeiro filme... com sorte variada, quase nunca com vantagens para ele... mas com o meu primeiro filme ele  começou a fazer muito outros filmes colombianos, que aí sim lhe trouxeram êxito.

FAM - As protagonistas do filme participaram ativamente na reescrita do roteiro. Como é que foi isso?

RM - Eu acho que o cinema é só uma escrita onde se trocam as ferramentas. O roteiro é apenas uma etapa da matéria cinematográfica que, às vezes, principalmente após as gravações, é melhor ser infiel e esquecê-lo. A vida se atravessa nas letras e compõe algo muito mais vital e complexo. Quando achamos os rostos, há reescrita, por que então o que você lia sem uma figura, agora tem. Os rostos, os gestos, a energia reescreve aquilo que você suspeitava e pensava. Também passamos pela literalidade de ensaiar juntos e esses ensaios eram feitos com o computador aberto: como se fosse o piano de um grupo musical...colocávamos objetivos e perguntas que com o rigoroso treinamento que faziam junto ao preparador, o grande Fagua Medina, nos permitia usar a situação inteira como massinha, como matéria prima.

FAM - Como foi trabalhar com o universo feminino durante a produção do filme?

RM - Não era o objetivo, porém foi muito bonito. Desde criança a minha vida tem sido muito matriarcal e muito ligada ao destino de quem amei: de alguma mulher. Desde criança. Aliás, como gênero oprimido por milênios, na hora da criar elas são liberdade pura. A equipe deste filme por trás das câmeras era em sua maioria, quase 80%, mulheres. E não por cota de gênero ou por sensibilidade, mas por que conheço a sua qualidade artística. Desde a diretora de fotografia, artista que admiro muito e amiga que amo, até a última assistente de produção foram escolhidas por seu talento e pela luz e força que trariam ao projeto, como trouxeram.

FAM - Como foi o desempenho de Niña Errante nos festivais do mundo?

RM - Tem sido bom. Começou no ano passado no Case A. No El Black Nights, na Estônia, venceu como melhor filme desse imenso festival e melhor música (feita por duas mulheres, irmãs)... logo veio uma dezena de eventos e uns cinco prêmios. Está bom. Mas não faço muitas contas disso. Houve um diálogo relevante com o público, isto sim.

FAM - Qual a importância de ter o filme Niña Errante selecionado para a mostra Longas Ficção, que pela primeira vez é competitiva?

RM - É uma honra. São muitos filmes feitos a cada ano, então esta seleção é uma honra.

 O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.




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