Entrevistas

Produtor Leonardo Mecchi discute sobre os desafios da produção audiovisual em palestra no FAM 2019

Foto: Sabrina Nicolazzi
Foto: Sabrina Nicolazzi

Sócio-fundador da Enquadramento Produções, Leonardo Mecchi é o produtor executivo do filme Los Silencios, obra que relata uma história sobre perdão, reconciliação e a dificuldade de construir diálogos nos dias de hoje. Leonardo também irá ministrar a palestra Festivais e Mercados, debatendo questões cruciais para o cinema brasileiro.

FAM - Você já atuou na produção de muitos filmes que foram para festivais importantes. Quando surgiu a vontade de trabalhar nesse meio?

Leonardo Mecchi - Quando eu fui escolher minha faculdade e prestar vestibular, a retomada ainda era muito recente, então trabalhar com cinema, embora sempre tenha sido uma grande paixão, naquele momento não parecia uma opção viável em termos de profissão, isso porque o Brasil ainda tinha uma produção muito pequena, então não havia um mercado para o qual eu poderia entrar. Por conta disso, eu acabei fazendo faculdade em uma área completamente distinta, escolhi exatas.

Depois de formado, quando a produção estava um pouco mais estabelecida, eu percebi que era possível transformar a minha paixão por cinema em uma profissão. A partir de então comecei buscar oportunidades na área do cinema, apesar de não ter feito um curso, eu tinha as ferramentas necessárias para trabalhar na área de produção, que sempre foi a área que me interessou.

FAM - E como foi participar da produção de Los Silencios?

Leonardo Mecchi - Foi uma experiência incrível e traumatizante de certa forma, porém muito enriquecedora, sem dúvida nenhuma o filme mais complexo que eu produzi. Primeiro por seu desenho de financiamento, que era uma coprodução do Brasil, França e Colômbia. Tivemos cerca de seis fontes diferentes de financiamento, o filme tinha uma complexidade no seu desenho de produção, talvez pelo fato de ser uma coprodução entre os países citados anteriormente.

Conciliamos os modos e pensamentos de produção, muitos distintos entre si, embora muito agregadores, cada parte trouxe a sua experiência, o que enriqueceu muito o filme. Além disso, metade da equipe era colombiana e outra metade brasileira, então trabalhar a união dessa equipe que tinham modos diferentes de produzir era muito importante.

Também havia exigências da própria dramaturgia, Los Silencios foi filmado em uma ilha localizada no meio do Rio Amazonas, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Era importante para o filme que houvesse diversas filmagens em diferentes etapas de nível do Rio Amazonas no decorrer das gravações, porque a ilha fica submersa em uma parte do ano e por conta disso voltamos para essa região algumas vezes durante a produção do filme.

FAM - Quais os melhores momentos de produzir um filme? E as dificuldades?

Leonardo Mecchi - No meu ponto de vista, uma das melhores coisas de produzir um filme é poder trocar experiências, conhecer novas pessoas, novos métodos de trabalhar, novas visões de mundo e tornar possível uma ideia que está no papel, fazer com que se torne um filme e com isso ele consiga alcançar muitas pessoas. Uma ideia original do produtor e do diretor que quer dialogar, que quer mostrar algo para o público e através do nosso trabalho a gente concretiza isso. É muito rico o encontro das mais diversas pessoas, aprender com cada projeto, é isso o que me interessa muito no “fazer cinema”.

Em termos de dificuldades, elas surgem um tanto ligadas às questões positivas, a dificuldade de você ter uma equipe de 50, 60, 70 pessoas trabalhando em sintonia, porque é um ambiente muito intenso. Durante um período você convive mais com pessoas que nunca tinha visto antes do que com sua própria família. É um ambiente que pode haver conflitos, então essa é uma grande dificuldade. Você conseguir montar uma equipe que tenha a mesma sintonia e fazer com que ela trabalhe com o mesmo objetivo de uma maneira suave, que não haja atrito, isso é um papel muito importante do produtor, é ali que ele se diferencia, para mim, ele tem o dever de cuidar da equipe e fazer com que ela trabalhe em conjunto.

Outra dificuldade é conseguir financiar suas produções, o cinema é mais “industrial”, ou seja, precisa de uma estrutura maior, diferente da escrita que você pode trabalhar sozinho, ou da música que você também muitas vezes pode se envolver sozinho, o teatro que é uma arte coletiva, porém mais barata. Já o cinema é muito caro para montar toda estrutura, então financiar é muito difícil e cada vez mais complicado nesse momento em que a gente está vivendo.

Hoje é muito discutida a importância do cinema comercial como se ele fosse o único cinema que importa, pois é um cinema que traz retorno financeiro, traz retorno de bilheteria. Um cinema autoral traz benefícios algumas vezes muito mais ricos do que o próprio retorno financeiro de um filme comercial. Os dois tipos de cinema devem coexistir, mas é importante entender o papel do cinema autoral como um cinema que discute as questões do país, que promove reflexão, que traz para a tela um retrato dessa população, do momento que estamos vivendo e que exporte isso para o mundo. O cinema comercial não viaja o mundo, o cinema autoral viaja, em festivais e em diversos países.

FAM - O filme relata uma história sobrenatural, a mãe fugindo para uma ilha na Amazônia, seu marido que estava desaparecido ressurge do nada, segredos sombrios... Quais os motivos para a escolha desse tema?

Leonardo Mecchi - Tem uma questão muito importante principalmente nesse momento em que a gente está vivendo, que é a dificuldade em se travar um diálogo entre partes. Você vê no filme, na verdade eles são refugiados das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), e o filme fala muito sobre o perdão, conciliação entre duas formas de se atuar, que buscam por vezes o mesmo objetivo, mas por meios diferentes e que são ambas as vítimas desse conflito. O filme trata um pouco disso, dessa dificuldade em construir um diálogo verdadeiro hoje em dia, e de se perdoar, de como é difícil o perdão em uma situação de conflito como essa que a Colômbia viveu, como estamos vivendo agora e muitos outros países também vivem.

Além disso, temos essa construção em torno do luto, em como se trabalha esse luto, de ressignificar aquela vida que se perdeu e utilizar aquele momento para uma reconstrução, para um seguir adiante. O filme retrata muito esse assunto, o luto que a mãe está vivendo com os filhos pela perda do pai e essa necessidade de uma reconstrução, ela está fugindo da Colômbia e buscando entrar no Brasil para reconstruir sua vida. São os dois principais pontos que tentamos trabalhar com esse filme.

FAM - Sobre a palestra “Festivais e Mercados”, sua abordagem vai ser a experiência no mercado? Explica um pouco o que vai ser debatido.

Leonardo Mecchi - Minha abordagem vai falar tanto sobre festivais quanto de mercados. Especificamente na questão do mercado, acredito que é muito importante para um filme que ainda está na sua etapa de desenvolvimento se tornar visível, conhecido no meio e ser colocado para um debate. Quando você vai com um projeto para o mercado e o apresenta para diversos players, para potenciais coprodutores, fundos de financiamento, distribuidores, curadores de festivais ou agentes de vendas, cada um vai poder dar um feedback através de seu olhar, por sua expertise, então você pode apresentar o filme para essa série de agentes e ter um retorno.

Ouvir o que eles têm a dizer sobre seu projeto pode te ajudar muito a desenvolvê-lo melhor, e é interessante que ao apresentá-lo você mesmo entende melhor o que está buscando, você percebe onde estão às fragilidades do seu filme, os pontos onde tem mais dificuldades. Se você frequenta vários mercados ao longo do ano, esses agentes vão acompanhando o desenvolvimento desse projeto enquanto ele ainda é só uma ideia, no segundo momento quando já tem roteiro, depois quando começa a ser financiado, quando você roda esse filme, quando está finalizando e por último, quando você está pronto para entrar em um festival, essas pessoas vão acompanhando a vida do projeto e isso torna muito mais fácil e interessante para seu envolvimento. Quando eu fecho uma coprodução nunca é no primeiro mercado que apresento o filme, é por etapas, depois eu reencontro os agentes e falo de como o projeto avançou. Então são vários encontros que você precisa ter para ser uma relação real com essas partes, e essa presença nos mercados é muito importante para isso.

O Brasil vinha fazendo o movimento de internacionalização do seu cinema e que era fundamental, o que estamos vendo hoje são filmes brasileiros competindo em Cannes, Berlim, em Veneza. Ganhando prêmios, ganhando uma visibilidade muito grande, isso é resultado de anos, não é uma coisa que surge espontaneamente, é um apoio da ANCINE, uma visão dela de buscar a internacionalização do cinema brasileiro, de buscar coproduções, de permitir que realizadores e produtores frequentem o circuito internacional, de apoiar a participação em mercados e festivais. Agora é isso que está em jogo, porque essa construção demora anos, mas para se desmontar é muito rápido. Mas quando a ANCINE declara, assim como declarou no último mês, que vai cessar todos os apoios internacionais para realizadores e produtores de filmes brasileiros, isso é matar na origem tudo o que vem sendo construído.

Ser um cinema reconhecido internacionalmente como um cinema interessante, isso traz uma visibilidade, traz uma série de benefícios para o cinema brasileiro como um todo. Um realizador como Kleber Mendonça, que entra um ano em Cannes com o filme Aquarius, que entra outro ano com Bacurau e sai com um dos maiores prêmios do festival, isso beneficia não só o Kleber, mas todo cinema brasileiro, porque os filmes vão ser vistos sob outra ótica, e vão ser vistos com muito mais atenção e mais cuidado, como um cinema que tem realizadores muito fortes e capazes de fazer filmes, filmes relevantes que podem viajar e quando corta isso pela raiz se perde e então fica mais difícil de você reconquistar depois.

O FAM 2019 tem o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.
 




Parceiros