Entrevistas

Allan Deberton e Marcélia Cartaxo: amor e resistência pela arte em Pacarrete

Diretor e protagonista de Pacarrete. Foto Eduardo Lopes
Diretor e protagonista de Pacarrete. Foto Eduardo Lopes

Pacarrete, de Allan Deberton, será exibido pela primeira vez em Santa Catarina na Mostra Longas Ficção do FAM 2019 nesta terça, com a presença do diretor e da protagonista, a atriz paraibana Marcélia Cartaxo. Primeiro longa-metragem de Deberton, foi o grande vencedor da edição deste ano do Festival de Gramado, com oito prêmios. O filme discute sonhos, loucura e velhice a partir da história de uma bailarina clássica que retorna à sua cidade no interior, Russas, depois de uma carreira em Fortaleza. Marcélia Cartaxo (de A História da Eternidade, A Hora da Estrela) é Pacarrete (margarida, em francês), que passa a ser considerada a louca da cidade por persistir com sua arte. Deberton é também produtor e roteirista do filme. Dirigiu os curtas premiados Doce de Côco, O Melhor Amigo e Os Olhos de Arthur. As sessões serão no Cine Show do Beiramar Shopping, às 20h50 e 21h10. Segue entrevista com o diretor.

FAM - Como está o início da carreira do filme no Brasil, com a estreia em Gramado como o principal premiado, e sessões no festivais do Ceará, Vitória e agora no FAM?

Allan Deberton - Estamos chegando no FAM com friozinho na barriga, com o espírito de estreia. Muda o cinema, muda o público, muda a data, então a recepção é sempre única em cada festival. E isto é fantástico. É muito bom estar junto com a audiência e entender a forma como vê o filme. Por isto estamos ansiosos, para estarmos juntos nesta experiência que é sempre nova.

FAM - Como foi resgatar uma personagem e uma história real e local e transformá-la em ficção? De que temas/valores o filme trata?

Deberton - O desejo de fazer o filme é um sonho antigo. Falar de uma personagem baseada em fatos reais é sempre muito desafiador para evitarmos o erro, o estereótipo, e daí toda a nossa preocupação. O roteiro foi desenvolvido a várias mãos (Natália Maia, André Araújo, Samuel Brasileiro e eu) e ainda com a consultoria de Eleonora Loner. O filme fala sobre nunca desistir dos sonhos e sempre persistir com a arte. Fala sobre o tempo que não volta mais, sobre as lembranças, sobre a solidão. Fala sobre a vida comum, também fala de pessoas comuns, mas muito humanas. Imperam a resistência e o amor.

FAM - E o trabalho com Marcélia Cartaxo? Pode comentar o processo de preparação da atriz?

Deberton - O desafio para fazer o filme foi dar realismo à personagem, de forma que a Marcélia Cartaxo ressurgisse diferente de tudo que já fez. Para isso teve aulas de balé, canto e de piano. E também contamos com o apoio de preparação de Christian Duurvoort, do coreógrafo Fauller e da bailarina cearense Wilemara Barros. Tudo foi intenso e muito tocante. As pessoas da cidade quando viram Marcélia caracterizada como Pacarrete ficaram surpreendidas, pareciam ter visto um fantasma. Marcélia é muito amiga e também muito dedicada. Ela gosta de desafios e exige bastante de si própria para chegar aonde o diretor precisa. Foi uma honra tê-la fazendo parte do filme. O filme é ela.

FAM - Seu filme é resultado de um edital público de cinema. Como vê a situação atual da Ancine e o impacto no cinema brasileiro?

Deberton - Pacarrete foi feito através de um edital de Baixo Orçamento. Foi um desafio e tanto conseguir filmar com poucos recursos, driblamos muitas dificuldades. Hoje tudo piorou e esta piora foi proposital. Há quem queira o fim do cinema brasileiro, justamente agora que ele é muito respeitado, com público novo e ansioso por novas produções. Aqui e lá fora nosso cinema brilha de forma surpreendente. São centenas de milhares de empregos gerados numa indústria que cresce acima da média. E querem derrubar isso. É muito estranho, são decisões estranhas de pessoas estranhas.

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