Entrevistas

Assunção Hernandes: resiliência e criatividade do cinema brasileiro

Grande dama da produção. Foto Daniel Guillamet
Grande dama da produção. Foto Daniel Guillamet

Assunção Hernandes é uma das produtoras mais prolíficas do cinema brasileiro, com mais de 40 filmes, alguns reconhecidos nos mais importantes festivais, como o prêmio de Melhor Atriz para Marcélia Cartaxo no Festival de Berlim em 1986, por A Hora da Estrela, de Suzana Amaral, e o Grande Prêmio Técnico em Cannes 1992 para El Viaje, de Fernando Solanas. Assunção, que é sócia da Raiz Distribuidora Audiovisual, está novamente no FAM, como jurada da Mostra Doc-FAM, participante da reunião de criação da Setorial Audiovisual Catarinense e do 3º Encontro de Coprodução do Mercosul.

FAM - Você já viveu muitas fases do cinema brasileiro, como é sua leitura da situação atual.

Assunção Hernandes -
Acho que nós estamos em uma situação muito difícil, mas sempre saímos dessas fases, por mais difícil que sejam. Já passamos por quase tudo, sempre tem um tom diferente, mas no fundo é a mesma coisa, a incompreensão do que é cultura, a negação da importância do registro, da vivência. Temos criatividade, criamos temas em qualquer cada lugar, toda cidade tem algo de novo para mostrar e a gente já provou que nosso cinema faz sucesso no mundo. Nós temos filmes premiados internacionalmente concorrendo com grandes produções.

Segunda vai ser exibido de novo aqui no FAM A Hora da Estrela, fizemos esse filme praticamente sem dinheiro, porque as altas autoridades acharam que não ficaria bom, então deram muito pouco. Muita gente apoiou, os técnicos, a atriz veio de ônibus de Cajazeiras, na Paraíba, porque não tinha dinheiro para o avião. Foi o primeiro prêmio de uma atriz brasileira em um grande festival internacional, Marcélia Cartaxo ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim.

Os consultores olharam para o roteiro e disseram que estava ruim, Suzana Amaral ficou preocupada, então eu disse que íamos corrigir o roteiro, mudamos tudo o que eles criticaram, após isso ele foi aprovado. Quando chegou o roteiro aprovado eu falei pra gente filmar o nosso roteiro, porque eu sabia que era bom. Ainda hoje, todo dia tem que mandar o filme para os lugares mais diversos possíveis, então é por isso que a gente faz cinema, com muita vontade e garra.

FAM - Sempre tivemos períodos com uma situação desfavorável, mas agora também há uma questão religiosa, um ataque à cultura.

AH - Acho que o pior agora é que o problema não é só da arte e da cultura, é o Brasil, é o ódio geral, mas não tem sustentação, isso vai cair em pouco tempo.

FAM - No que você está envolvida agora?

AH - Neste momento estou participando dos debates sobre produção na SPCine. Na prefeitura temos apoio, a nível estadual é um pouco mais complicado, mas com o tempo vamos virar essa mesa também. Temos tradição, organização, somos corretos, precisamos ter um pouco de paciência mas vamos conseguir. É uma luta agora, a nível federal é mais complicado, vamos passar por maus momentos, já passamos com o Collor, e antes, na ditadura, embora sempre conseguíssemos ter um interlocutor, mesmo com os militares. Por incrível que pareça nós tivemos diálogo com eles, não foi fácil, tivemos períodos sem poder produzir nada, totalmente parados. Eu acho que não vai ser um paraíso sempre, não sei se teremos paraíso um dia, mas vamos sobreviver, as novas gerações estão aí. Vamos ter que sofrer, lutar e vencer de novo.

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do BRDE, FSA, Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.
 




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