Entrevistas

A alma da animação catarinense

Aline Belli. Foto Nathan Azenha
Aline Belli. Foto Nathan Azenha

A Alma do Negócio, de Rubens Belli, curta a partir da série Boris e Rufus, uma produção da Belli Studio, de Blumenau, estão sendo exibido nas mostras Curtas Catarinense e Infantojuvenil. A animação foi finalista do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Bóris é um cachorro e Rufus um furão, os dois vivem com um garoto e outros animais. A produtora Belli Studio também animou a série Peixonauta. Na entrevista, a produtora Aline Belli fala sobre como é realizar animação infantil localmente, diante do mercado dominado por grandes produtoras internacionais.

FAM - Como foi chegar a finalista do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, vocês que já tinham reconhecimento pela série Peixonauta?

Aline Belli - Foi uma alegria ser finalista do Grande Prêmio já na primeira temporada. Boris e Rufus estreou na DisneyXD em janeiro de 2018 e estamos trabalhando bastante para tornar a série conhecida pelas crianças no Brasil e América Latina. Irmão do Jorel, por exemplo, já tem três temporadas, mais de 78 episódios e está no ar faz anos.

Nós já tivemos a oportunidade de trabalhar animando séries bacanas como Peixonauta, Meu Amigãozão, Patati, Patatá, mas essa foi a primeira vez que trabalhamos em um material do concept inicial até a finalização do arquivo. E depois de entregue, o trabalho continua muito forte para movimentar vendas em outros canais no Brasil e também no licenciamento de produtos. São desafios grandes para produtores brasileiros que lidam com verbas bem apertadas para todas as etapas e precisam ainda investir em marketing e comunicação.

FAM - No que se inspiraram para compor os personagens e a história? Como é o feedback do público infantil?

AB - A série Boris e Rufus é composta por diversos curtas independentes e temos também um especial de Natal de 22 minutos, uma minutagem diferente deste que está sendo exibido na mostra. Alma do Negócio tem o olhar para os excessos da propaganda, da imagem que a gente vê projetada e uma provocação: o que será que tem por trás...? Esse, em especial, foi premiado no festival Chilemonos no Chile. Apresentamos como parte da série Boris e Rufus e as crianças votaram escolhendo, entre 12 outros trabalhos, Boris e Rufus como a melhor série latino-americana por júri popular em 2018.

FAM - O que temos e o que ainda falta para desenvolver ainda mais a animação em Santa Catarina e no Brasil?

AB - A Belli Studio tem 20 anos de caminhada. Começamos em 1999 ilustrando e colorindo livros infantis. Paralelamente, fazendo experiências em animação 2D como o Aventuras na Ilha da Magia, vencedor do Prêmio Cinemateca Catarinense. A partir de 2006 começamos a mergulhar em séries fazendo 21 EPs para o Betinho Carrero, buscando conhecer o mercado nacional e internacional, fazendo séries para serem vendidas com livros infantis em DVDs. Mas a grande virada para o mercado brasileiro aconteceu a partir de 2011, com a Lei 12.485 e a questão nas cotas para os canais a cabo - onde um pedacinho da programação de cada um deveria ser composto por produções brasileiras independentes. Isso fez com que executivos de canais internacionais começassem a receber os produtores brasileiros e abriu as portas para que nosso trabalho pudesse ganhar o mundo.

Antes desta data, a gente chegava em um evento internacional e um player de outro país não entendia como é que uma série tinha sido desenvolvida e produzida sem ter um canal de TV parceiro no Brasil, sem ter sido veiculada no Brasil, porque isso não é comum lá fora. Mas aqui não havia espaço. Era muito mais bacana para estes canais trazerem suas produções de fora, legendarem ou dublarem, exibirem e venderem os espaços comerciais, gerarem engajamento para seus produtos licenciados, recolherem um dinheiro bacana e mandarem para suas sedes fora do Brasil. Eles não precisavam do nosso mercado como produtores de conteúdo, somente como consumidores. Por isso perdemos tantos talentos para o mercado internacional, era praticamente impossível trabalhar com animação "em casa", produzindo conteúdo. Publicidade era ok, mas conteúdo, era muito difícil.

Hoje temos universidades, escolas de animação, diversas produtoras espalhadas pelo Brasil, não só de animação, mas de games também, que precisam de animação. E as coisas começaram a se movimentar diferente. Ainda não temos uma indústria consolidada de animação, de produção de conteúdo no Brasil. Não temos conseguido produzir, fazer propaganda, licenciar, vender, formar pessoas numa velocidade que permita o mercado ser autossustentável.

Estamos engatinhando ainda enquanto lutamos por espaço com grandes corporações e produções "multi-mega-tetra-milionárias" que vêm de fora do país. Precisamos muito de um conhecimento, apoio e ação conjunta do tripé academia, poder público e indústria (nesta parte não está só quem produz animação, é muito mais amplo, temos música, games, quem licencia brinquedos, roupas, sapatos etc) para um fortalecimento regional e nacional. Tem trabalhos incríveis saindo, mas ainda precisamos de mais conexão desta indústria criativa como um todo para sermos mais do que um polo, para sermos uma indústria com verdadeira força internacional!

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.




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