Entrevistas

“Aprendam a dançar”, diz Cintia Bittar em palestra sobre montagem no FAM 2019

Cintia Bittar começou sua carreira como motadora em 2006
Cintia Bittar começou sua carreira como motadora em 2006

“O bom montador tem que ter ritmo. Tem que saber quando avançar e quando parar. Tem que aprender a dançar, literalmente”. Esse foi um dos ensinamentos trazidos pela diretora e montadora Cintia Bittar durante a palestra sobre montagem, oferecida aos estudantes que estão participando do 3º Rally Universitário Floripa. O evento faz parte da 23ª edição do Florianópolis Audiovisual Mercosul – FAM, que segue até o dia 2 de outubro.

Bittar falou também sobre a importância de ter os materiais filmados (vídeo e áudio) muito bem organizados para que sejam economizadas muitas horas na ilha de edição; sobre cuidar para que a equipe de filmagem respeite alguns processos vitais, como o uso da claquete e do som da câmera; e deu dicas de livros relevantes para os alunos. O momento foi também de muito compartilhamento de experiências.

Cintia Bittar é formada em Cinema pela Unisul e começou sua carreira profissional como montadora, em 2006. É uma das sócias da Novelo Filmes e, em 2010, produziu o curta-metragem Qual Queijo Você Quer?, filme exibido em mais de 100 festivais e que recebeu mais de 50 prêmios.

No FAM 2019, está em dois filmes selecionados para a mostra competitiva Curtas Catarinense: Selma Depois da Chuva (montagem/edição) e Apenas o Que Você Precisa Saber Sobre Mim (direção de arte, montagem/edição). A programação completa do FAM está disponível no site do Festival.

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.

FAM – O que você acha dessa oportunidade de dialogar com estudantes do Mercosul?

Cintia Bittar – O FAM é um encontro de vários saberes dentro do cinema e ter esse foco de Mercosul é muito importante. E esse pedaço do FAM é justamente o que mais me encanta, o da formação. Eu acho incrível estar aqui.

Pouca gente sabe, ou lembra, mas eu sou montadora. Eu comecei como montadora. E eu costumo dizer que escrevo pra montar e dirijo pra montar. Por que, no fim das contas, eu enxergo tudo como montadora. E acho muito legal passar essa visão pros alunos com o objetivo de desmistificar um pouco a questão da direção, pois quando as pessoas estão começando elas já sabem que querem ser diretores, acreditam que existe uma só forma de dirigir, então acho interessante passar essa perspectiva mais prática mesmo.

Eu dou um curso que se chama “A montagem e a construção da narrativa cinematográfica”, que eu começo falando desde o primeiro cinema até hoje, mostrando que muito do que se inventou no cinema foi até o final dos anos 1930, quando ainda tinha o cinema mudo. E isso é bacana, pois sempre causa um choque. As pessoas acham que muita coisa foi inventada agora, mas não, a maior parte já vem lá de trás.

Também quero passar a máxima pra eles, que é uma frase que eu acredito muito, dita pelo diretor italiano Dario Argento, que é: “só existe um jeito de se aprender a fazer cinema, que é vendo filmes e fazendo filmes”.

FAM – O que você espera que eles levem desse momento?

CB – Eu espero que a área da montagem saia valorizada. É uma área que eu entendo que tem certa resistência, por ter o operacional, o computador, a informática, os codecs e muito outros detalhes e isso afugenta um pouco as pessoas. E não tem aquela suposta adrenalina do set de filmagem, mas pra mim é a parte mais encantadora do cinema. É onde as coisas realmente acontecem. Então espero que eles saiam empolgados com a montagem e compreendendo que a montagem é algo que tem que se levar em consideração desde o começo de um projeto.

FAM – O primeiro curta produzido pela sua produtora, Qual Queijo Você Quer?, foi bastante premiado e agora vocês tiveram o curta Apenas o Que Você Precisa Saber Sobre Mim selecionado para o Festival de Gramado e também para o FAM. Como você enxerga essas repercussões?

CB – O Qual Queijo Você Quer? foi um curta que teve (e ainda tem) uma projeção muito bacana – está ainda em três canais de televisão e segue sendo chamado pra ser exibido. Ele realmente foi um marco: foi pra mais de 100 festivais, ganhou mais de 50 prêmios (muitos deles de melhor filme). Então foi bem importante ter esse primeiro curta. Foi o que me posicionou, me fez conhecer pessoas. Depois, todos os curtas produzidos pela Novelo Filmes, que é minha produtora, sempre tiveram uma carreira muito feliz. Diferentes entre si, mas sempre muito interessantes.

O Apenas o Que Você Precisa Saber Sobre Mim também vem fazendo uma carreira muito interessante. Ele, inclusive, passou em um dos festivais mais importantes do mundo, que é o Oberhausen. Em Gramado ele foi bem recebido também e foi para o Guarnicê, onde ganhou melhor roteiro.

FAM – O que você pode nos falar sobre seus projetos atuais?

CB – Agora eu estou com o meu mais recente, que é o Baile. Esse eu dirigi e montei. Ele acabou de estrear em São Paulo, durante o Festival Internacional de Curtas. Acabou de ficar pronto, mas a gente já correu pra inscrever ele em festivais, pois acho que é um filme que tem que ser visto agora, pelo momento que estamos vivendo.

FAM – Você tem uma relação bastante forte com curtas-metragens. Poderia nos falar um pouco sobre isso?

CB – Eu vou bastante pra festivais de outras formas: sou curadora, fui jurada agora em Gramado... então eu tenho bastante contato com o que está sendo feito em curta-metragem brasileiro. Tenho muitos amigos e amigas no cinema brasileiro, que é uma grande família. E eu defendo esse formato de curta-metragem como algo contínuo e não como um trampolim para o longa. Eu comparo o curta com o conto na literatura: são formatos diferentes. Então eu também gostaria de passar pra eles que o curta é um espaço muito bom pra se trabalhar a montagem. A gente pode inovar bastante. Não existe esse compromisso com o circuito exibidor. O curta tem um espaço mais acolhedor para ser trabalhado, como os festivais, as mostras. Então é um espaço muito interessante de criação de montagem.

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.




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