Entrevistas

Pegue carona no doc Nas Curvas da Estrada e descubra sobre a vida de mulheres motoristas

Mostra Curtas Catarinense e Mercosul
Mostra Curtas Catarinense e Mercosul

Viviane Mayumi, formada em cinema pela UFSC, é diretora e roteirista da obra Nas Curvas da Estrada, documentário que relata a vida de mulheres motoristas, abordando assuntos de extrema relevância, como o feminismo. O filme foi exibido no Cine Show do Beiramar Shopping nas sessões das 18h30min e 19h no primeiro dia do Florianópolis Audiovisual Mercosul (26/09).


FAM - Por que a escolha desse tema para fazer o documentário?


Viviane Mayumi – Esse assunto me interessa desde a faculdade, o meu trabalho de conclusão de curso foi um roteiro sobre filme de estrada, que no final até virou um projeto de artes visuais contemplado pelo edital Elisabete Anderle, o “Siga em Frente”, e era um assunto com o qual eu queria continuar trabalhando.


Um dia peguei uma corrida com a taxista Soraia, que inclusive faz parte do elenco. Foi a primeira vez que eu peguei uma corrida com uma mulher em Florianópolis. Normalmente eu converso muito com os motoristas, sobre a vida, sobre eles... Mas com a Soraia eu não consegui falar nada, eu só pensei “nossa, eu tenho que fazer um documentário sobre mulheres motoristas”. A partir disso comecei a entender alguns recortes e o que eu queria era fazer um filme com mulheres motoristas com mais de 30 anos, pensando sobre como essas mulheres se enxergam.


Isso aconteceu na época da retomada da primavera feminista, quando eu via muita mulher jovem falando sobre feminismo e me perguntava: “E as mulheres mais velhas? Onde elas estão? Elas se sentem dentro desse “removimento” também?”. Foi a partir disso que comecei a pensar em um projeto que a princípio seria uma série sobre mulheres motoristas, abordando uma profissão em cada episódio: taxista, motorista de caminhão, motorista de ônibus escolar, motorista de ônibus interestadual. Então, surgiu a oportunidade de escrever um projeto para o Prêmio Catarinense de Cinema, mas como eu não tinha empresa, precisei me inscrever como pessoa física e dessa forma só poderia ser curta-metragem, foi então que surgiu o Nas Curvas da Estrada.
 

FAM - Por ser uma diretora mulher, como você se sentiu fazendo esse projeto?
 

Viviane Mayumi – Quando escrevi o projeto, já tinha ideia de que a equipe seria majoritariamente composta por mulheres e quando inscrevi para o edital propus que pelo menos 75% da equipe fosse de mulheres. Então quando a gente ganhou o prêmio eu pensei “e aí, o que vai acontecer?”. Eu percebi que pelo menos a equipe do set deveria ser só de mulheres, porque as mulheres ficariam muito mais à vontade falando com outras mulheres.
 

FAM – Como foi trabalhar em um ambiente com mais mulheres do que homens? Quais as dificuldades e os desafios enfrentados durante a construção do documentário?
 

Viviane Mayumi – Foi uma experiência muito bacana, havia eu e outras quatro mulheres na equipe de gravação. Decidimos pegar um carro e gravamos em Guarujá do Sul, Curitiba e Florianópolis.


Todos que participam de um set com mais mulheres do que homens dizem que se sentem mais à vontade para fazer o trabalho. Nós mulheres, quando vamos trabalhar em um espaço com muitos homens, acabamos vestindo uma armadura e uma máscara, pois precisamos estar sempre alertas para saber se vamos sofrer algum tipo de assédio, uma piadinha sem graça e estar prontas para responder.


Em um ambiente em que você se sente segura, não precisa vestir essa armadura, é assim que me sinto e algumas mulheres com quem eu conversei, que também tiveram essa experiência em um set só de mulheres, também falam isso.
 

FAM - Como surgiu a ideia e a vontade de se inscrever para o FAM?
 

Viviane Mayumi – É um festival com uma boa trajetória no país e no Mercosul, eu já acompanhava desde que vir morar em Florianópolis, em 2009. Festivais de cinema são uma janela muito importante tanto para o realizador quanto para o espectador. Eu trabalho na Mostra de Cinema Infantil já há algum tempo e para mim é muito legal juntar as duas pontas do processo, o realizador e o espectador. O realizador consegue sentir na pele a reação do espectador, se o filme dele está funcionando e se está cumprindo os objetivos que foram propostos para o projeto.

FAM - Como foi o sentimento ao ter seu documentário escolhido?
 

Viviane Mayumi – Eu fiquei muito emocionada, tanto por eu ser fã e também porque foi estreia nacional de Nas Curvas da Estrada, então é a primeira exibição pública aberta do filme.
 

FAM - É a primeira vez que você inscreve uma obra no FAM?
 

Viviane Mayumi – Sim, é a primeira vez que eu me inscrevo para o FAM e pretendo fazer isso outras vezes. Foi um processo diferente porque eu sempre trabalhei na produção, eu nunca tinha me colocado como diretora. Quando ganhamos o prêmio, me perguntei bastante se era eu quem iria dirigir o projeto, eu pensava em fazer a produção, mas todos que me conheciam diziam que eu tinha que dirigir esse filme porque ele é meu.

Então foi também uma viagem para eu me encontrar como diretora, na universidade até um tempo atrás isso não era colocado em pauta, não estamos formando mulheres diretoras no cinema.
 

FAM - Agora que está finalizado o documentário, tem algo que você mudaria?
 

Viviane Mayumi – Hoje eu vejo algumas coisas que eu mudaria, mas ao mesmo tempo não mudo porque faz parte do processo de aprendizagem, de crescimento. Isso significa que eu cresci e aprendi coisas novas.
 

FAM - Tem alguma parte do documentário que é mais especial?
 

Viviane Mayumi – Eu ainda sou bem apegada a todas as partes do filme e também aquelas partes que não entraram no filme. É muita história o que essas três mulheres contam, algumas vezes eu até me questionei se deveria ou não colocar no filme, porque elas se sentiram tão à vontade de contar a vida delas que tem coisas que eu me questionei, “será que elas estão contando apenas para nós ou para as outras pessoas?”.

O FAM 2019 tem o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul -BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.
 




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