Entrevistas

O som como potência narrativa

João Godoy. Foto Daniel Guillamet
João Godoy. Foto Daniel Guillamet

João Godoy é professor da graduação da ECA-USP. Tem uma carreira de mais de 30 anos como técnico de som direto e editor de som, em filmes como Um Céu de Estrelas, de Tata Amaral, Chega de Saudade, de Lais Bodanski e Cabra Cega, de Toni Venturi. Curiosamente, começou a carreira em Florianópolis, o primeiro curta em que fez som direto e edição foi Desterro, de Eduardo Paredes, em 1989. Neste sábado, falou no FAM 2019 sobre trilha sonora e o papel do som na construção de narrativas audiovisuais.

FAM - O som por vezes ainda é um aspecto um tanto negligenciado no cinema? Como a evolução das tecnologias colaborou para o som direto e a edição sonora?

João Godoy - Essa é uma questão complexa, hoje temos tecnologia com preço mais acessível, e recursos para se fazer uma boa captação e edição, há 20 anos os custos eram muito maiores. Teoricamente essas novas tecnologias poderiam viablizar trabalhos com mais qualidade. Mas certos procedimentos que se tinha no passado não se tem mais. Antes se pensava no tratamento acústico da locação, ou havia uma precisão maior no monitoramento, pois se usava película, havia uma pista só de som, aquele cuidado na preparação e criação de condições mais controladas hoje se perdeu. E não é só em uma produção estudantil de baixo orçamento, é no geral, filmes de grande orçamento, com estrutura. Existe a ideia de que o som se resolve de qualquer jeito, com microfone de lapela e com o trablho da pós-produção. Falo disso no meu doutorado, com o advento da tecnnologia, que é incrivelmente maravilhosa, ao invés da gente resguardar aqueles procedimentos que já tivemos, perdeu-se o rigor.

FAM - Que dicas você dá pra quem está começando, ou em geral, pra quem quer utilizar melhor o som e a música como elementos narrativos?

JG -
É preciso pensar o som já no roteiro e na captação de som, pra tornar nossos filmes mais interessantes. O que sobra pra edição de som é escolher ruídos, o resultado pode ficar bom, mas é pouco pensando na potência que som e imagem juntos podem ter. É um contrassenso, e a imagem predomina. Hoje, muitos filmes estão sendo feitos de maneira muito rápida, isso resulta numa qualidade um pouco inferior, é algo que dá pra contornar na pós, mas é um pouco chato fazer isso.

Gosto de citar um curta, Little Things, de Daniel Greaves, tem uma sequência que se passa no escuro, isso é incrível para o som, foi muito bem construído. Outro é Barton Fink, dos Irmãos Coen, tem uma cena já discutida por alguns autores, em que o personagem não consegue se concentrar no trabalho porque é incomodado por um riso, são alguns exemplos de uso mais criativo e articulado do som e imagem, que dá pra fazer quando se pensa desde o início da história.

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul tem o investimento do BRDE, FSA, Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.




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