Entrevistas

As mulheres podem e devem estar na direção de fotografia, por Kike Krueger

Kike Kreuger tem quatro filmes em mostras do FAM 2019
Kike Kreuger tem quatro filmes em mostras do FAM 2019

Cristina Kreuger, ou Kike, como gosta de ser chamada, é diretora de fotografia e fez sua primeira participação no Florianópolis Audiovisual Mercosul – FAM como palestrante nesta edição, trazendo para os alunos do 3º Rally Universitário Floripa alguns inghts sobre direção de fotografia e compartilhando um pouco sobre suas experiências em produções de baixo orçamento.

Nesta edição de 2019, além da palestra, Kike Kreuger assina a direção de fotografia de três curtas-metragens selecionados para mostras competitivas e a co-direção de fotografia do longa-metragem convidado A Maravilha do Século, de Marcia Paraíso. Na mostra Curtas Catarinense estão duas produções: Selma Depois da Chuva e Nas Curvas da Estrada, ambas com equipes compostas majoritariamente por mulheres, como nos conta nesta entrevista. Na mostra Infantojuvenil está o documentário As Quatro Estações.

Idealizadora de uma oficina de direção de fotografia voltada exclusivamente para mulheres, Kike fala ao FAM sobre a importância de se ter mais mulheres atuando em equipes de fotografia no mercado catarinense e que é só uma questão de acreditar que é possível.
Os filmes do 23º FAM estão sendo exibidos nas salas de cinema do complexo Cine Show, do Beiramar Shopping, e os ingressos podem ser adquiridos no site www.ingresso.com ou na bilheteria do cinema.

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.

FAM – Esta é sua primeira vez no Festival como palestrante? Como está sua expectativa?

Kike Kreuger – Sim, é a primeira. Estou um pouco nervosa, pois a gente nunca sabe se vai conseguir se expressar de uma maneira clara, se vai ser válido para os alunos e se o que eu tenho pra compartilhar vai fazer a diferença pro conhecimento deles. Mas é natural, depois a gente vai se soltando e a coisa vai rolando.

FAM – O que você espera que eles levem desse momento?

KK – Como o assunto é bem amplo, eu tive que fazer um exercício pensando sobre o que eu poderia falar nesse tempo sem que ficasse pela metade, mas que, ao mesmo tempo, pudesse ser útil. Eu não sei o nível de conhecimento fotográfico dos alunos, então eu optei por fazer uma aula que falasse sobre a direção de fotografia e a criação estética, de como podemos pensar a imagem, quais são os recursos que a fotografia oferece pra criarmos uma linguagem, como a gente pode analisar isso em outros filmes e quais são as possibilidades as possibilidades de criação. Também vou trazer sugestões (e aí vou colocar um pouco da minha prática) de coisas que eu aprendi em produções de baixo orçamento: como que eu solucionei alguns problemas e algumas dificuldades com ter pouco equipamento.

FAM – Em novembro você irá ministrar uma oficina de direção de fotografia voltada para mulheres. Qual a importância desse direcionamento?

KK – Essa é a segunda vez que vou fazer essa oficina. A primeira foi muito legal, as meninas gostaram muito. Ela surgiu como um estímulo de pessoas conhecidas e acabei gostando da ideia, pois realmente existem realidades distintas. Em São Paulo e no Rio de Janeiro a gente já vê uma participação muito maior de mulheres no departamento de fotografia, na assistência de câmera. Aqui em Santa Catarina o mercado é menor, então eu sinto que tem uma carência um pouco maior. E, na verdade, essa participação da mulher é simplesmente uma questão de coragem, pois não há nada que impeça uma mulher de ser assistente de câmera. É simplesmente uma questão de ela não acreditar que ela seja capaz. Por isso a gente resolveu fazer essa oficina: para que as mulheres se sintam mais à vontade e mais soltas pra botar a mão no equipamento, pra ver que não tem mistério, que não tem nada que as impeça de seguir essa carreira. É simplesmente uma questão de acreditar que é possível.

FAM – Nesta edição do Festival você tem quatro filmes sendo exibidos, três curtas-metragens em mostras competitivas e um longa-metragem convidado. O que isso representa pra você?

KK – Na verdade tenho três filmes em que fiz a direção de fotografia e um em que fiz a co-direção de fotografia. E é muito legal. Uma tia me ligou perguntando qual filme eu indicava pra ela assistir e é muito difícil dizer qual que eu gosto mais. Cada um tem o seu estilo, o seu conflito. Mas eu estou muito feliz de poder participar do FAM dessa forma e ver que as coisas estão acontecendo e de ter uma janela pro meu trabalho. A gente tem que pensar que tudo o que a gente faz, no fundo, é pra ser visto. Se não for visto, não tem propósito. E pra mim isso é bem difícil, pois tenho bastante dificuldade de expor o meu trabalho, de ver como o público vai receber. É algo que eu preciso trabalhar ao longo da vida, pois a gente se esforça, pensa, planeja e, às vezes, as coisas podem não dar certo. Será que o público vai realmente sentir aquilo que eu queria que sentisse? Será que eu consegui transmitir o que eu queria?

Eu fico feliz também pelo fato de o FAM estar acontecendo nesse espaço em que tem uma boa qualidade de projeção, pra que o público possa ter uma experiência mais impactante.

FAM – Um dos filmes que você fez a direção de fotografia e que está no Festival é o Selma Depois da Chuva. Esse filme está tendo uma repercussão muito bacana em festivais, principalmente os internacionais. Nesse caso, você acha que conseguiu transmitir para o público o que você queria?

KK – Eu fiquei muito feliz com o Selma, pois a minha maior experiência ao longo desses anos tem sido com documentário, então a ficção ainda é um terreno em desenvolvimento. Eu tinha muita insegurança se o que eu tinha pensado ia dar certo, mas eu percebi uma coisa no curta-metragem: por ele ser um projeto menor, eu tive a oportunidade de planejar cada cena. Tivemos mais tempo pra executar e eu pude realmente me preparar pra fazer. Por mais que a gente tivesse sempre a questão orçamentária (de ter que trabalhar com pouco equipamento, com uma luz que não era a ideal, com a câmera que não era a ideal), eu acho que o fato de a gente ter realmente sentado e desenhado cena a cena, e construído uma estética, fez com que o filme tivesse corpo e que o espectador realmente sentisse o que eu queria que ele sentisse. Porque tudo foi muito planejado. Eu acho que o sucesso dele vem disso. Pelo menos na parte fotográfica.

FAM – O Selma também traz essa característica de valorização do trabalho da mulher, pois a equipe do filme foi propositalmente composta em sua maioria por mulheres...

KK –
O Nas Curvas da Estrada também teve uma equipe majoritariamente feminina. É um filme que trata de conflitos femininos, então a diretora também teve essa iniciativa. Ela disse: se eu vou fazer um filme sobre a coragem da mulher, que seja um filme feito por mulheres. E foi incrível. Foi a primeira experiência que eu tive somente com mulheres e foi perfeito. Não faltou nada. Foi realmente muito bom.

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.




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