Entrevistas

Duelo de MCs, muito mais que uma batalha de improviso

Bruno Figueiredo, diretor do documentário O Som Que Vem das Ruas
Bruno Figueiredo, diretor do documentário O Som Que Vem das Ruas

O Som Que Vem das Ruas, primeiro longa-metragem do diretor Bruno Figueiredo, nasce como parte das ações de comemoração dos 10 anos do movimento Duelos de MCs, criado pelo coletivo Família de Rua na periferia de Belo Horizonte (MG). O documentário, produzido por Camilo Cavalcanti, ainda está em fase de pós-produção e integra o grupo de seis projetos selecionados para a estreante mostra Work In Progress, do Florianópolis Audiovisual Mercosul de 2019.

Amigos de infância e reunidos novamente pelo Hip Hop, Bruno e Camilo participam pela primeira vez do Festival e nesta entrevista contam sobre a alegria de poder exibir O Som Que Vem das Ruas pela primeira vez para o público e sobre a expectativa a respeito do impacto que o filme irá gerar.

O documentário será exibido na próxima segunda (01/10), às 18 horas, no complexo Cine Show do Beiramar Shopping. Os ingressos para a sala Gold podem ser adquiridos no site www.ingresso.com ou diretamente na bilheteria do cinema.


Sobre a WIP
A mostra WIP é a grande novidade do Encontro de Coprodução do Mercosul de 2019, que pela primeira vez trará para o público do Festival obras ainda em fase de pós-produção. Após a exibição de cada filme, o Instituto de Pesquisa Boca a Boca irá realizar um teste de audiência com o público presente. Os resultados serão apresentados posteriormente às produtoras e ajudarão a trazer o olhar do espectador sobre a obra, permitindo uma reflexão sobre possíveis mudanças, cortes e adaptações antes da finalização do projeto.

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.

O ECM 2019 é uma produção da Associação Cultural Panvision, Petrus Barretto Advogados Associados e Muringa Produções Audiovisuais, com apoio institucional BRAVI - Brasil Audiovisual Independente, Instituto de Pesquisa Boca a Boca e Latam Cinema.

FAM – Como surgiu a oportunidade de produzir O Som que vem das ruas?

Bruno Figueiredo – Sou frequentador do Duelo de MCs desde o seu início em 2008, época em que fiquei amigo dos integrantes da Família de Rua, coletivo que criou o Duelo. De lá pra cá, fui um colaborador frequente, principalmente na produção de conteúdos de foto e vídeo. Quando tiveram a ideia de produzir documentários sobre a história de cada um dos quatro pilares do Hip Hop em BH (MC, B-boy, DJ e Grafitti), fui convidado para dirigir o documentário sobre os DJs.

Camilo Cavalcanti – Nascido em BH, mas como saí de lá em 2005, não tinha tanta familiaridade com o que estava acontecendo na cidade. Ao mesmo tempo, minhas raízes continuavam lá, fortes. Meus amigos, minha família, tudo permanecia em BH. Quando o Bruno, amigo desde a infância, me apresentou o projeto, tive um impacto imediato. Foi uma viagem no tempo, uma reconexão, um sentimento de pertencimento e de reencontro com minha identidade. Não pensei duas vezes!

FAM – O documentário faz parte da série de comemorações dos 10 anos do Duelo de MCs. Como você vê a importância de documentar esse movimento?

BF – Por ser uma cultura de periferia, historicamente marginalizada, fica difícil perceber, para quem não acompanha de perto, que o Duelo de MCs é muito mais do que apenas uma batalha de improviso. Além de se tornar um ponto de encontro da juventude periférica de BH, eles trabalham ações que fomentam todos os pilares da cultura Hip Hop. São os responsáveis por resgatar os fundamentos dessa cultura e difundi-los para as novas gerações. E é nessa linha que entendo O Som Que Vem Das Ruas como uma valiosa contribuição pra cena, pois joga luz nas particularidades locais de uma história global.

CC – Como o Bruno colocou, e como também podemos ver no filme, o Hip Hop nasce na periferia de NY, mas é facilmente encaixado na periferia de BH, ou de qualquer outra grande cidade no mundo. Em BH ele cresce, se desenvolve e volta pro mundo por meio dos DJs que hoje se destacam nos grandes eventos internacionais. É um movimento que não para, que não começa e nem termina em si mesmo. Acontece debaixo de um viaduto, mas dialoga com o mundo.

FAM - Quais estão sendo os principais desafios dessa produção?

BF – Encontrar acervos e materiais históricos que ilustrem as falas dos personagens é nosso maior desafio atual.

CC – A documentação é toda muito escassa e na maior parte das vezes está em acervos particulares, nas casas das pessoas, no fundo dos armários, em fitas VHS ou recortes de jornal empoeirados. Sem dúvida, recriar essas histórias pelos arquivos é nosso maior desafio.

FAM – Qual a importância de ter o filme selecionado para a mostra competitiva Work In Progress do FAM 2019? Qual sua expectativa?

BF – Esse é meu primeiro filme, então, só de saber que ele foi selecionado para um festival como o FAM já tem uma importância tremenda pra mim. Mas no que se refere à mostra em questão, eu entendo como uma oportunidade ímpar para sentir o potencial do filme, entender equívocos nos processos e identificar o que pode ser melhorado. Minha expectativa é de que, a partir dessa exibição, a gente consiga finalizar esse projeto com o cuidado que ele merece. Mas independente do resultado, estou certo que de os feedbacks que receberemos vão dar um novo fôlego para a equipe.

CC – Essa seleção pra gente é de uma alegria enorme. Esse filme significa muito pra nós, pra Família de Rua e pra todas e todos que fizeram parte do início desse movimento em BH. É o primeiro longa-metragem do Bruno, que já vem com um olhar importante, sólido e relevante. Entendemos que as histórias periféricas merecem ser contadas e esperamos o melhor dos resultados no FAM.

FAM – Como você enxerga essa oportunidade de mostrar para o público um projeto que está em fase de pós-produção?

BF – É uma oportunidade muito valiosa, pois funciona como um termômetro de como o público vai receber o filme e também como uma bússola que nos aponta aspectos que ainda podem ser lapidados.

CC – Nesse momento é uma oportunidade excelente. O filme ainda tem possibilidades e os diálogos estão abertos.

FAM – É sua primeira vez no FAM? O que você acha desse festival que se propõe a olhar sobre as produções do Mercosul?

BF – É minha primeira vez no FAM. Qualquer iniciativa que busque promover diálogos entre os países latino-americanos eu já acho louvável. Eu entendo que o fortalecimento de produções no eixo do Mercosul é importante para criar novos mercados e abrir portas para as produções brasileiras, que passam por um momento crítico.

CC – É nossa primeira vez como produtora também. Acho fundamental que as produções do Mercosul dialoguem e que haja um espaço pra isso. Em geral, existe uma tendência do Brasil de se distanciar dos países de língua espanhola. Acabamos nos fechando no mercado interno ou buscando diálogo com o mercado europeu. Pertencemos a um continente muito rico e que deve ser cada vez mais exaltado. Tenho certeza que nosso filme, por exemplo, encontra ressonância em várias outras cidades e periferias da América Latina.

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.




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