Entrevistas

Bia Mais Um: uma obra sobre solidão e encontros

Anderson Simão e Wellington Sari, produtor e diretor de Bia Mais Um
Anderson Simão e Wellington Sari, produtor e diretor de Bia Mais Um

Durante a 23ª edição do Florianópolis Audiovisual Mercosul – FAM, o longa-metragem Bia Mais Um passará pela primeira vez pelo crivo do público e de grandes players de mercado. O projeto foi um dos seis selecionados para participar da estreante mostra competitiva Work In Progress (WIP), atividade que integra a programação da terceira edição do Encontro de Coprodução do Mercosul (ECM).

A WIP tem como principal objetivo abrir portas para possíveis acordos de coprodução, mas também garante aos produtores a oportunidade de rever alguns pontos dos projetos, que ainda estão em fase de pós-produção, a partir do retorno do público e também de players do mercado. Após a exibição de cada filme, o Instituto de Pesquisa Boca a Boca irá realizar um teste de audiência com o público presente. Os resultados serão apresentados posteriormente às produtoras e ajudarão a trazer o olhar do espectador sobre a obra, permitindo essa reflexão sobre possíveis mudanças, cortes e adaptações antes da finalização do projeto.

O filme vencedor da mostra Work In Progress levará para casa R$ 20 mil em serviços de pós-produção de imagem (marcação de luz, efeitos especiais, conformação do material e delivery) para a finalização do projeto. O prêmio da mostra WIP é oferecido pela pós-produtora paulista Mistika.

As obras serão exibidas na sala VIP do complexo Cineshow do Shopping Beiramar e os ingressos limitados podem ser adquiridos no site www.ingresso.com ou na bilheteria do cinema.

Nesta entrevista ao FAM, o produtor executivo Anderson Simão e o diretor Wellington Sari falam sobre a enorme expectativa de ver Bia Mais Um ser apresentado pela primeira vez para o público e também sobre as solitudes e encontros provocados pela obra.

O FAM 2019 teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.

A terceira edição do ECM é uma produção da Associação Cultural Panvision, Petrus Barretto Advogados Associados e Muringa Produções Audiovisuais, com apoio institucional BRAVI - Brasil Audiovisual Independente, Instituto de Pesquisa Boca a Boca e Latam Cinema.

FAM – Bia Mais Um trata de uma jovem que, na ausência dos pais, descobre uma gravidez. Como nasceu a história do filme?

Wellington Sari – Em vários dos roteiros que escrevi, longas e curtas, que saíram ou não do papel, me dediquei a pensar personagens femininas que se encontram, de alguma maneira, sozinhas. É uma condição que me interessa, pois o que me atrai mais ainda é o encontro. A solitude, nos melhores casos, vai invariavelmente desaguar em algum tipo de encontro, que, na onda meio Heráclito, vai provocar mudanças. Não se entra duas vezes no mesmo rio. O encontro pode ser materializado em um romance, em uma amizade, em uma epifania diante do mundo, qualquer coisa. As possibilidades são infinitas. A história de Bia Mais Um surge a partir do interesse de filmar um encontro muito íntimo, muito especial, que só às mulheres é permitido sentir, que é a maternidade. A temporalidade da gestação é outro aspecto fascinante: o encontro tem data marcada para acontecer, mas durante os meses que antecedem o parto, o filho ou a filha são uma imagem (um ultrassom) e uma presença física, que pode ser sentida, não tocada, a não ser por meio da própria pele. A ideia da gravidez como um grande paradoxo da conexão é outro aspecto que impulsionou o surgimento da ideia para a criação do roteiro.

FAM - Qual a importância de trazer essa temática para os dias atuais?

WS – A temática da gravidez na adolescência permite uma série de discussões interessantes, seja pelo viés da saúde (a questão da legalização ou não do aborto é um tópico bastante importante), seja pelo viés conceitual ou mesmo existencial. Uma mulher grávida na adolescência se encontra duplamente em mudança. A complexidade dessa situação é inegável. O que é complexo deve ser filmado, deve ser contado. Não necessariamente na tentativa de resolver essa complexidade, mas de poder possibilitar algum tipo de encontro entre a personagem e o espectador. Quem é que pode prever o que daí pode resultar?

A temática da gravidez na adolescência, da maneira como é abordada em Bia Mais Um, passa por outro aspecto, muito contemporâneo: para onde levam as conexões deste mundo atual em que tudo é conectado por telas? Tudo é imagem, mas quando é que essas imagens se concretizam? Bia está em uma fase de difícil conexão com os pais, com os amigos e até mesmo com o espaço. Videogame, pintura, videoclipes: ela consome imagens muito próximas dos olhos (literalmente: a personagem gosta de aproximar do rosto as telas), como se tentasse encontrar alguma materialidade nessas imagens. A gravidez, num estágio tão inicial quanto o mostrado na narrativa, é apenas uma imagem de ultrassom. Como Bia pode se conectar com essa imagem, que está se materializando pouco a pouco dentro dela? O filme abre essa possibilidade extra de leitura, da analogia entre a gravidez na adolescência como uma passagem por um mundo de imagens e conexões impossíveis até a concretude do encontro.

FAM – Qual a importância de ter o filme selecionado para a mostra competitiva Work In Progress do FAM 2019? Qual a expectativa de vocês?

Anderson Simão – Vale mencionar que é o primeiro Work in Progress que o filme passa, então também é a primeira vez que o filme será exibido para um público que não seja o envolvido na produção. A grande importância está nessa primeira oportunidade do filme de se relacionar com espectadores e com o mercado. Além do que, faz parte do processo de pós-produção e comercialização do filme a busca de apoios para a finalização, o contato com agentes de vendas nacionais e internacionais e o feedback dos profissionais do mercado.
A nossa maior expectativa está no resultado desse encontro do filme com todos os agentes dessa cadeia, inclusive com o público.

FAM – Como vocês enxergam essa oportunidade de mostrar para o público um projeto que está em fase de pós-produção?

WS – A fase de pós-produção é um momento onde ainda há uma possibilidade do corte sofrer alterações. Embora limitado pelo estágio avançado em que se encontra, é o momento em que nós, que estamos com a cabeça tão afundada no processo e apaixonados pelo filme, podemos arejar um pouco a nossa visão da narrativa e enxergar melhor os caminhos certos e errados que o filme pode estar traçando, e tentar, assim, chegar a um melhor resultado. Tudo isso a partir do feedback do público.

Portanto, sejam negativas ou positivas, as opiniões sobre o Bia só poderão ser benéficas para a evolução do filme em processo.

FAM – É primeira vez de vocês no FAM? O que vocês acham desse festival que se propõe a trazer um olhar sobre as produções do Mercosul?

AS – Nós já estivemos muitas vezes no evento. Em diferentes anos com curtas no Festival e já participamos em diversos anos dos encontros de mercado.

É bacana pensar como um evento que ocorre no sul do Brasil se expande mais ainda nessa direção, abarcando também os países vizinhos. É nessa “quebra” de fronteiras que percebemos o quanto temos em comum com essas nações e o quão positivas são as possibilidades de desenvolvermos projetos juntos.

Nossa produtora é de Curitiba, logo também vale ressaltar que é ótimo ter um evento de tamanha importância ocorrendo tão perto de nós, facilitando o nosso acesso.

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.




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