Entrevistas

Un Portal: um pedido de socorro pela floresta Amazônica e seus povos

José Cardoso, diretor e roteirista do documentário Un Portal
José Cardoso, diretor e roteirista do documentário Un Portal

José Cardoso, diretor e roteirista do documentário Un Portal, um dos seis filmes selecionados para a estreante mostra competitiva Work In Progress (WIP) do Florianópolis Audiovisual Mercosul – FAM 2019, conta nesta entrevista sobre a importância pessoal, social, histórica e ambiental deste filme. Para ele, urge a necessidade de conhecermos e nos conectarmos com a Amazônia e seus povos para que possamos fazer parte de um movimento de preservação e valorização de toda sua riqueza natural e cultural. Cardoso aborda também a importância de festivais como o FAM e a oportunidade de apresentar para o público um projeto ainda passível de transformações.

O documentário Un Portal será exibido na sala VIP do complexo Cine Show do Beiramar Shopping no dia 29 de setembro, às 20h15, e os ingressos podem ser adquiridos pelo site www.ingresso.com ou na bilheteria do cinema.

Sobre a WIP
A mostra WIP é a grande novidade do Encontro de Coprodução do Mercosul de 2019, que pela primeira vez trará para o público do Festival obras ainda em fase de pós-produção. Após a exibição de cada filme, o Instituto de Pesquisa Boca a Boca irá realizar um teste de audiência com o público presente. Os resultados serão apresentados posteriormente às produtoras e ajudarão a trazer o olhar do espectador sobre a obra, permitindo uma reflexão sobre possíveis mudanças, cortes e adaptações antes da finalização do projeto.

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.

O ECM 2019 é uma produção da Associação Cultural Panvision, Petrus Barretto Advogados Associados e Muringa Produções Audiovisuais, com apoio institucional BRAVI - Brasil Audiovisual Independente, Instituto de Pesquisa Boca a Boca e Latam Cinema.

FAM – Como surgiu a oportunidade de fazer esse documentário?

José Cardoso – O filme nasce da minha proximidade com a floresta. Desde 2003 visitei anualmente, durante dez anos, a Amazônia equatoriana, as comunidades de Tiink, Pakintz e Chinkianents. Tenho amigos nas comunidades Shuar e Achuar que são como família. As profundezas da cultura amazônica me chamam a visitar e a retornar a essas comunidades, principalmente pelas histórias. Algo de muito especial havia nelas, além de sua extraordinária lucidez. No conjunto, dava para perceber uma filosofia, histórias que para eles não eram histórias, contos ou lendas, eram realidade, são realidade. Seres que existem, mas há os que temos que evitar e os que temos que invocar, procurar.

FAM – Como foi filmar na floresta amazônica?

JC – A materialização de sonhos. Para entender, é melhor assistir o filme. Acho que Un Portal fala disso. Talvez eu possa acrescentar algo sobre seu conteúdo: "O Diabo" existe desde sempre, chama-se Iwianch, e a história de sua existência tem sido contada de forma oral e escrita em crônicas escritas por espanhóis (achei uma crônica que relata o rapto de um espanhol pelas mãos do Iwianch), mas nunca foi documentado de forma audiovisual. É uma honra para mim que esta história tenha sido apresentada na frente da minha câmera e do meu gravador de som. Sinto a responsabilidade de apresentá-la para as telas do mundo.

Ao falar do que está se perdendo com a destruição da Amazônia, fala-se em recursos naturais e nas culturas que começam a perder as suas origens. Este filme põe em discussão o conhecimento ancestral profundo, sobre o qual quem não pertence a essas culturas pouco ou nada conhece. E mesmo seus integrantes deixaram de praticar por negação ou pela falta de herança. Ao entrar em contato com esse conhecimento, compreende-se que ele ultrapassa a humanidade.

Este é um filme necessário para tocar nesse mistério e plantar perguntais vitais nos espectadores e, claro, a experiência de filmá-lo também o foi.

FAM – Qual a importância de retratar as tradições indígenas e as belezas, riquezas e mistérios da selva amazônica em um momento em que estamos vivendo uma crescente nos índices de desmatamento e nos ataques aos povos indígenas?

JC – Fui testemunha da passagem do tempo e do pensamento de três gerações: o avô do meu amigo, que buscou Arutam (Deus, se assim podemos traduzir), continuando a tradição; o filho do meu amigo, que sabe o significado de Arutam, porém não da tradição e da busca; e meu amigo, que sabe a maneira de encontrá-lo, mas não o busca. Mas o esquecimento gerado pela sedução do ocidente não é a única ameaça. A terra onde se gravou o documentário foi colocada à venda pelo governo e está aguardando a melhor proposta para extrair o petróleo que se encontra no subterrâneo.

Un Portal retrata, em meio a uma narrativa de suspense, saberes ancestrais da cultura Achuar e, por meio de uma visão pessoal, é testemunha da profundidade dessa cultura. E isso, ao ser mostrado para o mundo, se converte em uma oportunidade de tornar essa cultura reconhecida, de dar visibilidade a ela dentro e fora do território equatoriano. O espectador, ao escutar a voz dos protagonistas Achuar, pode se identificar com essa cultura. No futuro, sentir suas características como próprias e, se for o caso, levantar a bandeira a favor dessa cultura.

Em todas as culturas indígenas deste planeta aos poucos está chegando a globalização, a aculturação, o extrativismo, entre muitos outros males que rondam também o território Achuar e que têm como resultado, entre outros fenômenos, a homogeneização, a perda de conhecimentos, a migração e até o desaparecimento das culturas.

Não estou querendo dizer com isso que essa cultura deva ficar isolada ou intacta. Que deva deixar de se transformar e de se beneficiar pelos avanços da tecnologia ocidental, mas apontar que o desconhecimento por parte da população nacional e internacional sobre um grupo humano marginalizado, torna esse grupo quase invisível perante a opinião pública, e essa invisibilidade tem sido usada como ferramenta para que governos e empresas multinacionais e extrativistas passem por cima delas ao longo da história.

Além disso, foi uma oportunidade também de contribuir para que se gerassem diálogos entre as próprias comunidades a respeito de seus saberes, pois consideramos as comunidades em todas as fases de elaboração do documentário. E é claro que o filme será lançado e distribuído no território Achuar.

FAM – Qual a importância de ter o filme selecionado para a mostra competitiva Work In Progress do FAM 2019? Qual sua expectativa?

JC – A Amazônia é uma só e hoje está em chamas. Chamas de extrativistas legais e ilegais, chamas de madeireiras, chamas evangelistas, chamas das mais variadas formas, todas sob a mesma bandeira: a do desrespeito ao direito alheio.

Ao conhecer a situação da Amazônia brasileira, que ficou queimando durante três semanas antes de virar manchete das mídias mais importantes do planeta e saber que um dos motivos, segundo a Amazon Watch, foi justamente a invisibilidade desses povos, compreendi (não a importância, pois há muito tempo que conhecemos a natureza transcendental da vida livre e sabemos que a boa saúde da Amazônia é vital para o mundo inteiro), porém a urgência que requer ações e resistências e, de nossa parte, a finalização do trabalho que levamos a cabo durante diversos anos. A partir disso, nossa classificação para a mostra WIP ganhou um novo significado.

FAM – Como você enxerga essa oportunidade de mostrar para o público um projeto que está em fase de pós-produção?

JC – Mostrar uma obra ainda não acabada é um evento muito significativo. Ao mostrar um trabalho em processo, há algo em jogo, existe um risco, uma emoção, uma excitação mental positiva e um nervosismo ao mesmo tempo, pois não é um trabalho acabado onde tenho certeza que todos os detalhes foram solucionados como gostaríamos e, ao mesmo tempo, é uma oportunidade. É muito especial, porque o filme respira em vários momentos: na ideia, na filmagem, na montagem... e volta a respirar no encontro com o público. E esse respirar, quando o filme está propenso a mudanças, transforma a crítica em uma ferramenta, nos dá novas perspectivas, pontos de vista, para digerir, usar ou descartar. A resposta do espectador não é para uma obra finalizada, mas para uma obra suscetível a mudanças. Suscetível... Ao responder essa pergunta, a palavra suscetível vem a mim em seus dois significados.

Quando mostramos o que fazemos para o público, podemos regredir à suscetibilidade de uma criança que deixou a sua vida em um desenho e agora está sendo julgada pelo seu professor de arte, e, em seu segundo significado, de estar suscetível a mudanças. A obra ainda não está acabada. Tem o formato que pensamos hoje ser o definitivo, porém a argila ainda está molhada e não foi para o forno. Permitir-nos escutar não significa ir contra o impulso da respiração inicial da obra, significa poder filtrar todas as ajudas que receberemos de cada generoso espectador para torná-lo um aliado a mais do documentário Un Portal.

FAM – É sua primeira vez no FAM? O que você acha desse festival que se propõe a trazer um olhar sobre as produções do Mercosul?

JC – É necessário. Sua qualidade, somada ao tamanho da sua visibilidade, torna o Festival uma importante oportunidade para o nosso documentário. E, como latino-americanos, temos algo em comum. Isso facilita o entendimento e inclusive forja, na velocidade de um raio, belas amizades. Essa foi a minha experiência no WIP do Bolívia Lab.

É minha primeira vez no FAM, porém não a minha primeira vez em Florianópolis. Morei há 20 anos na bela ilha de Florianópolis e agora visitarei amigos daquela época que são como família. Isso tudo torna essa viagem uma grande alegria pra mim.

FAM – Como é o cenário atual para o mercado do audiovisual no Equador?

JC – Estou respondendo essa pergunta junto com o meu amigo Francisco Álvarez, diretor do Festival Cámara Lúcida (Cuenca, Equador), com quem estava conversando sobre a exibição do nosso documentário Outspoken (filmado na África do Sul) no festival deste ano. E, ao discuti-la, concordamos que o mercado audiovisual no Equador está em redescobrimento. Não há algo específico para definir esse cenário, está no caminho para ser e nesse processo serão definidas suas características e suas formas de sustentação, que nesse momento são os recursos de apoio ao cinema, que se tornaram vitais. Há vários empreendimentos se desenvolvendo aqui e ali, mas esperamos que nos próximos anos eles se consolidem, juntamente com uma política cultural que beneficie a criação, como já existe nos países vizinhos.

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.




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