Entrevistas

Força e fragilidade em Yo Niña

Natural Arpajou. Foto Daniel Guillamet
Natural Arpajou. Foto Daniel Guillamet

Aurora Arpajou, ou Natural Arpajou, é a diretora e roteirista do longa argentino Yo Niña, que será exibido na Mostra Longas Ficção do FAM 2019 nesta sexta, com sessões às 20h50 e 21h10 no Cine Show do Beiramar Shopping. Primeiro longa desta premiada diretora de curtas-metragens, foi filmado no isolamento da Patagônia, é sobre uma menina que cresce em uma família não tradicional. Natural também participa do Rally Universitário, como palestrante sobre roteiro e direção.

FAM - Seu filme Yo Niña é um tanto autobiográfico. Como foi desenvolver o roteiro e encontrar a forma de narrar essa história?

Natural Arpajou - O roteiro é claramente autobiográfico, não literalmente, ficcionei um pouco a realidade. Foi um processo longo e difícil, de pensar que coisas queria mostrar ou não e com que sentido, e como contar a história dessa menina, um misto de inocência e força, e imersa numa família não tradicional, que também às vezes não a cuidava muito.

É meu primeiro longa, fiz muitos curtas antes. Foi um desafio enorme por ser autobiográfico, sinto que estar tão perto da história foi o que me ajudou, às vezes foi muito intenso. Me interessa por um lado contar o que é diferente, me interessam as pessoas distintas, e entender o processo de porque são assim, sempre me senti estranha e diferente do entorno. Fala da infância, de como as coisas vão se modificando e fazendo as pessoas mais fortes. Nunca foi minha ideia julgar os personagens, sobretudo os pais, e sim mostrar um pouco da contradição humana, dessas pessoas muito em paz, muito calmas, e que no entanto não conseguem chegar ao que querem por suas próprias fragilidades.

FAM - Quanto à protagonista, pode comentar como foi o processo para encontrá-la?

NA - Sobre a protagonista Huenu Paz Paredes, que encarna a menina Armonía, sou diretora de casting, trabalho para outros filmes. Decidi fazer meu próprio casting e vimos em torno de 600 meninas. Vimos em Buenos Aires, que é uma cidade grande, e nenhuma tinha o que necessitávamos. Depois fomos à Patagônia durante 20 dias, fomos a escolas, a lugares muito remotos, foi um processo difícil, das 600 selecionei duas. Uma, por sua essência, traria algo muto nostálgico ao filme, e Huenu, com sua personalidade, seu cabelo ruivo, tinha força, fragilidade e essa coisa um pouco selvagem que eu necessitava. E por sua maneira de ser vi que podia levar adiante esse o trabalho tão complicado. Ela foi escolhida, falamos com os pais, ela e os pais leram o roteiro e decidiram que estava preparada. Ela leu três vezes o roteiro antes do nosso primeiro encontro e entendeu por completo, então começaram os ensaios.

FAM - Que aspectos você destaca da produção? Como foi filmar na Patagônia? Como o filme foi financiado?

NA - Na Argentina os filmes são financiados pelo INCAA, um produtor se aproximou depois de ver vários curtas meus, apresentamos o projeto ao Instituto, o recurso sempre é pouco para um filme, ainda mais para um filme tão difícil, que teria que levar muita gente da equipe e Buenos Aires até a Patagônia. Para mim não foi problema filmar na Patagônia, a equipe tinha frio, ficava sem sinal de celular ou ficava paralisada com a beleza da paisagem. O vento e o clima eram difíceis, mas foi maravilhoso. Minha família ajudou a construir a segunda cabana, onde os protagonistas vivem, muito parecida com a que vivemos. O desafio maior foi que pela falta de dinheiro não podíamos ir a outras cidades, era um povoado de montanha muito pequeno, em que não há edifícios, tivemos que recriar uma cidade nesse mesmo lugar, foi o mais complicado.

FAM - No que você vai focar na sua palestra sobre direção e roteiro no Rally Universitário? O que os participantes precisam para conseguir se sair bem na tarefa de fazer um filme em pouco tempo?

NA - Sobre minha aula no Rally, espero que os participantes entendam rapidamente a estrutura clássica do roteiro, que tem muito a ver com os ciclos da natureza do princípio até o desenvolvimento final, um personagem que cresce, necessita de algo e acaba por conseguir. É importante ter um roteiro simples e concreto, com personagens que sabem o que buscam. Quanto à realização, é preciso confiar muito nos elementos narrativos mais básicos, ou fazer algo estranho e diferente. Quando há pouco tempo existem ferramentas e recursos cinematográficos que sempre funcionam, quando há mais tempo se pode fazer planos mais complexos e ver se vai funcionar. O mais importante é fazer o cinema com paixão e coração.

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.




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