Entrevistas

Crisálida: o triunfo de um projeto de inclusão

Alessandra Pinho e Serginho Melo, diretor do filme
Alessandra Pinho e Serginho Melo, diretor do filme

O projeto Crisálida, idealizado pela produtora executiva Alessandra da Rosa Pinho e pelo diretor Serginho Melo, começou com uma proposta pequena que, aos poucos, foi tomando grandes proporções. De um episódio piloto, virou uma série com quatro episódios de 30 minutos e depois um longa-metragem, que se tornou o primeiro filme bilíngue em Libras e português produzido no Brasil.

De forma sensível, Crisálida retrata exclusões, dificuldades e preconceitos, e se propõe a fazer uma reflexão sobre o universo de pessoas surdas que vivem em uma sociedade pensada para pessoas que ouvem.

Nesta entrevista, Alessandra fala sobre as conquistas do projeto e sobre os planos que os produtores têm para o futuro. Crisálida – O Filme foi exibido no 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul, abrindo a mostra de filmes convidados no dia 26 de setembro.

O FAM 2019 teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.

FAM - O filme Crisálida nasceu da série de mesmo nome. Como surgiu a ideia para realizar essa produção?

Alessandra Pinho – O projeto na realidade engloba três produtos: um curta, uma série e um longa. Essa ideia nasceu porque sou estudante de Letras Libras na UFSC e, ao conhecer as histórias de pessoas surdas, tive a inspiração para dar o start nesse projeto. Em 2014, participamos de um Edital Municipal - do Funcine, onde o projeto foi contemplado para piloto de série. Esse piloto transformou-se no curta Crisálida, que estreou no FAM 2016. Essa visibilidade do FAM abriu muitas portas para o projeto. Em 2016, participamos do Edital Prêmio Catarinense de Cinema e o projeto foi contemplado para a produção da primeira temporada da série, que estreou também no dia 26 de setembro, na TV Cultura. Já Crisálida – O Filme é um recorte da série, uma obra destinada a festivais de cinema e mostras.

FAM – Crisálida se propõe a trazer uma reflexão sobre as dificuldades e preconceitos enfrentados por pessoas surdas. Qual a importância de focar nessa temática?

AP – É extremamente importante, pois a vida dos surdos em sociedade não é fácil. São muitas barreiras de comunicação e preconceitos. Isto se deve à falta de conhecimento da sociedade em geral sobre a cultura surda, principalmente porque a maioria dos brasileiros ouvintes não sabe Libras. Isso é uma pena, porque temos 10 milhões de surdos no país. São 10 milhões de pessoas que não podem ser excluídas. Que merecem ter seu espaço, seu reconhecimento. Abordar esta temática numa obra audiovisual quebra paradigmas e mostra que a maioria dos jovens surdos são hoje sujeitos independentes, atuantes, consumidores, eleitores. Pessoas como todas as outras. A única diferença é que eles não ouvem.

FAM - Esta é a primeira ficção bilíngue produzida no Brasil. Quais foram as barreiras enfrentadas?

AP – É a primeira neste formato de narrativa seriada. Há outras produções que fazem uso do par linguístico Libras e português, mas da forma como estamos trabalhando no projeto Crisálida como um todo, realmente é a primeira. As barreiras são muitas. A produção em si já é difícil em qualquer obra, mas no caso de Crisálida, ainda tinham as barreiras de comunicação; a tradução dos textos dos roteiros de português para Libras; muitos atores surdos e uma equipe que pouco sabia de Libras. Mas todas essas barreiras foram superadas graças ao trabalho do consultor surdo que trabalhou conosco desde o início, o João Gabriel Ferreira, à presença constante dos intérpretes de Libras e aos esforços e à vontade de toda a equipe e elenco em realizar o projeto. Sem contar os preconceitos que, como realizadores, também enfrentamos. Já houve descaso de TVs que não pensam em oportunizar acesso a programação com legenda e libras, por exemplo. A maioria dos veículos, inclusive, não vê os surdos como consumidores e só enxerga os recursos de acessibilidade como assistencialismo. É engraçado dizer isso, mas em muitos momentos somos vistos apenas como contrapartida social, sabe? E não é nada disso. Crisálida tem uma pegada de expor uma realidade de minoria, sim, mas não faz dele uma obra assistencialista. É ficção, é entretenimento. Fico feliz que o FAM e a TV Cultura pensem fora da caixinha e dêem oportunidades para projetos como o Crisálida.

FAM – Como você enxerga a oportunidade de exibir este filme no FAM, um Festival que engloba todos os países do Mercosul?

AP – É excelente exibir Crisálida – O Filme no FAM. Independente de englobar tantos países e da enorme visibilidade do festival, da troca de ideias e dos aprendizados, pra nós é um grande prazer. A gente se sente em casa, acolhido, valorizado. O FAM faz parte da nossa história.

FAM - Quais os planos para a série Crisálida?

AP - Estamos trabalhando para viabilizar a segunda temporada da série com muita dedicação, fé e otimismo. Rumo à segunda temporada!

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.




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