Entrevistas

Peri Azar e a incrível história do filme

Peri Azar também será tutora da Maratona Cinematográfica
Peri Azar também será tutora da Maratona Cinematográfica

A 23ª edição do Florianópolis Audiovisual Mercosul – FAM terá a honra de receber a multifacetária cineasta argentina Peri Azar, que participa da mostra Doc-FAM com seu primeiro longa-metragem, Gran Orquesta. Ela também será tutora dos 25 estudantes que irão participar da Maratona Cinematográfica, atividade que faz parte do Rally Universitário Floripa 2019. Mestre em Conservação de Arte Digital, bacharel em Artes Audiovisuais e fotógrafa, Azar atualmente faz parte da área de educação do Museu do Cinema de Buenos Aires e do arquivo ARCA, com quem produz o Home Movie Day Argentina. É também sócia-fundadora da produtora 8A-110 e do coletivo artístico ConClub Media.

Gran Orquesta, seu primeiro filme longa-metragem, resgata a história da big band de jazz Héctor y su grand orquesta, que triunfou na Argentina entre as décadas de 1940 e 1960. Com cerca de 30 músicos e mais de 500 composições gravadas, a banda se diferenciava por duplicar os instrumentos, o que lhe garantia uma sonoridade espetacular. E a história desse documentário nasceu de forma muito curiosa, como nos conta Peri Azar nessa entrevista concedida ao FAM.

Gran Orquesta será exibido na mostra competitiva DOC-FAM, no domingo, dia 29.09 às 16h e às 19h15min. O FAM 2019 teve o investimento do BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.

FAM - A história do filme Gran Orquestra começou há 19 anos e de forma bastante curiosa. Você poderia contar um pouco pra gente sobre como isso aconteceu?


Peri Azar - Numa tarde de novembro do ano 2000, andando pelas ruas Alsina e Entre Ríos, de Buenos Aires, me deparei com um baú dentro de um contêiner com entulho de demolição. Era um baú antigo com detalhes em ferro. Gostei dele e decidi tirá-lo de lá. Ao abrí-lo, encontrei dentro pastas ornamentadas, perfeitamente organizadas por instrumentos, e dentro delas partituras manuscritas, milhares de partituras manuscritas. Imediatamente o fechei e levei para casa. Logo depois fui embora da Argentina e esse baú ficou fechado por cerca de 11 anos, em Buenos Aires, aguardando que eu retornasse.

FAM - O que a levou a finalmente produzir este filme após 19 anos?

PA - Em 2013 retornei para Buenos Aires por conta da minha pesquisa e tese sobre cinema doméstico e reutilização de arquivos de família.

O primeiro passo, claro, foi organizar novamente a minha casa e, entre outras coisas, voltei a me envolver com o baú de partituras. Gostaria de esclarecer que eu sou uma apaixonada colecionadora de arquivos privados (especialmente arquivos órfãos). Tenho uma enorme quantidade de material encontrado na rua, no lixo ou em mercadinhos, com valor histórico e artístico incalculavéis (a grande maioria são materiais fotográficos e fílmicos). O baú era (e ainda é), portanto, um dos meus tesouros, que cuido com dedicação e analiso com atenção.

Numa tarde, uma colega cineasta me pediu para lhe mostrar o baú: luvas colocadas, revisamos as partituras. Foi após 11 anos que senti a necessidade urgente de escutar aquela música, que até então era apenas código criptografado para mim.

A partir daquele momento tudo tornou-se uma viagem maluca de encontros, lágrimas, magia, música, amor e, claro, morte. Eu gosto de falar que o filme teve início sem a gente perceber. Eu só queria escutar a música e encontrar alguém da orquestra que estivesse vivo para devolver as partituras, mas o que aconteceu foi que esses documentos começaram a mapear um terreno onde cada um de nós acabou sendo convertido em um novo nó de informação.

Esses cruzamentos históricos, essa oportunidade do relato oral (sempre ignorado, sempre secundário) de se sujeitar totalmente a esses testas-de-ferro que tinham se tornado as partituras, colocavam em evidência uma parte do passado completamente esquecida.

FAM - Como foi construída a narrativa do filme, uma vez que os integrantes a orquestra já faleceram?

PA - Esse foi o maior problema na pesquisa e, claro, o maior desafio quanto às propostas de estrutura. Os músicos faleceram muitos anos antes do começo das filmagens, então fosse lá o que quiséssemos contar, teria que ser a partir de lembranças herdadas, de testemunhos secundários ou de informações irrevogáveis e absolutas fornecidas pelos arquivos (ironicamente sempre sensíveis a múltiplas leituras e interpretações).

Criamos um conjunto de vozes ou coro, que seguravam a primeira linha narrativa (embora não a principal). Esse coro construiu um colchão histórico, muito subjetivo, claro, que serviu de base para que o próprio espectador acabasse de construir a imagem invocada do passado, ao mesmo tempo em que se materializava a anedota originada do baú e, portanto, para mim mesma (muito a contragosto me transformei em personagem pelo vínculo que tinha criado com todos esses protagonistas).

FAM - Quais foram os principais desafios deste que é o seu primeiro longa-metragem?

PA - Os principais desafios foram principalmente o financiamento da pesquisa (que durou quase quatro anos) e, claro, a quase inexistência de arquivos públicos relacionados ao jazz na Argentina. A maior parte dos arquivos utilizados foram entregues por particulares (familiares, colecionadores, pesquisadores e músicos), portanto, foi necessário um investimento grande de energia e muita teimosia para continuar, acreditando que visibilizar a história era preciso.

Por outro lado (aqui farei uma observação muito pessoal, porém, determinante), no percurso desses seis anos em que durou a pesquisa e produção, lamentei o falecimento de muitos amigos, parceiros, colegas, companheiros... pessoas que me ajudaram em diferentes estágios do filme e que eram estreitamente ligadas ao Gran Orquesta. Meu pai, meu produtor executivo, meu melhor amigo, minha grande parceira, meu fiel companheiro... e em cada um desses duelos tive que me deter, chorar, demorei o dobro para finalizar o filme, mas foi exatamente o tempo que tinha que demorar, o tempo que manda a vida.

FAM - O documentário não tem a intenção de contar a história do jazz na Argentina, mas de resgatar uma parte importante de sua história, certo? Você pode falar um pouco sobre essa oportunidade e a importância desse filme para a história da Argentina?

PA - Isso mesmo. O Gran Orquesta não deseja estabelecer um retrato histórico do jazz na Argentina, mas mesmo assim ele o faz, de um jeito não tão radical, talvez, mais flexível, pois não há verdades no Gran Orquesta, mas sim desejos profundos de reviver a melhor fase da vida de alguém, resgatar o olhar de mulheres e homens comuns e lhes permitir entrar nos anais da história, atravessá-la de um extremo para ao outro com a lança da subjetividade.

Acredito que permitir que isto que chamamos de micro-história interfira na macro (essa versão irracional que aprendemos de cor) oferece a todos uma nova oportunidade de leitura sobre nossas próprias identidades. Acredito, ao mesmo tempo, que é muito necessário cuidar do destino dos arquivos privados como parte de nosso patrimônio.

Portanto, fazer este filme era um ato necessário. É o pouco ou o muito que eu posso trazer para as próximas gerações. Inacreditavelmente descobri, após a estreia, que esse descaso com os arquivos privados acontece muito também em outros países, porém, acima de tudo, descobri que as pessoas se comovem muito com essas histórias de resgate e amor, pois todos nos perdemos em algum momento e todos temos o desejo de ser resgatados.

FAM - Qual a importância de levar este filme para festivais como o FAM?

PA - Fundamental, por vários motivos. Não podemos esquecer que essas orquestras, entre as décadas de 1940 e 1950, construíam uma ideia for export latino-americana e, portanto, se retroalimentavam (muitas vezes tornando-se até ridículas em suas ânsias de entrar no mercado internacional, principalmente norte-americano). Portanto, o vínculo entre o Brasil e a Argentina nesta trama histórica foi relevante.

Por outro lado, como já falei, a questão do resgate, da visibilidade e da valorização de nosso patrimônio cultural ultrapassa um país, é um gesto universal que todos deveríamos abraçar. Se o Gran Orquesta serve para que pelo menos um ser humano pense nas fotografias de seus avós antes de jogá-las fora, terá valido a pena.

FAM - Durante o FAM, você também será tutora do Rally Universitário. Como você enxerga esta oportunidade?

PA - Por um lado é uma oportunidade de contribuir e apoiar o FAM. De outro, acredito que é assumir a enorme responsabilidade de servir de farol para os outros e conhecer profundamente quais são as expectativas dos jovens latino-americanos e quais são suas necessidades narrativas.

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.




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