Entrevistas

“Eduardo Galeano Vagamundo” foi uma curadoria feita por lágrimas, por Felipe Nepomuceno

Nepomuceno espera que a obra inspire as pessoas a conhecer Galeano
Nepomuceno espera que a obra inspire as pessoas a conhecer Galeano

Felipe Nepomuceno é diretor do documentário Eduardo Galeano Vagamundo, filme que abre a 23ª edição do Florianópolis Audiovisual Mercosul – FAM, no dia 26 de setembro. O documentário, que é uma coprodução entre Brasil, Argentina, México, Portugal e Uruguai, será exibido em duas sessões, às 16 horas e às 19h15, no complexo Cine Show do Beiramar Shopping.

Eduardo Galeano Vagamundo surgiu a partir de uma entrevista com o grande escritor e jornalista uruguaio, autor de clássicos políticos e históricos como As veias abertas da América Latina e O livro dos abraços. Como uma homenagem a Galeano, falecido em 2015, o filme em preto e branco mescla trechos dessa entrevista com a leitura de alguns de seus contos e crônicas por personalidades como o ator argentino Ricardo Darín, o escritor moçambicano Mia Couto e o ator brasileiro Paulo José.

Nesta entrevista concedida ao FAM, Nepomuceno fala sobre como a emoção serviu de guia para a construção do documentário e do desejo de que o filme inspire as pessoas a conhecer as obras de Galeano e de outros escritores e escritoras importantes de todo o mundo.

O FAM 2019 teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência nacional do Cinema - Ancine com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.

FAM – Como nasceu a oportunidade de dirigir o filme Eduardo Galeano Vagamundo?

Felipe Nepomuceno – O filme nasceu quando a minha mãe e o meu pai se conheceram, em 1970. Conheci o Galeano antes de nascer, através da amizade dele com meus pais, quando a minha mãe ainda estava grávida. Depois, em 1975, fui apresentado ao Galeano pessoalmente. E de lá para cá o filme continua sendo feito. Em cada sessão é um novo filme que nasce, dirigido por pessoas, através de outros encontros, conversas e recordações.

FAM – Como foi pensada a narrativa do filme?

FN – Não foi pensada. Talvez senti-pensada, como Galeano nos contou que os índios do Caribe fazem: uma mistura de pensar com sentir, embora insistam em nos dizer que são coisas diferentes. A narrativa é uma tentativa de aproximação com a obra do Galeano, através de seu pensamento e as histórias que estão vivas nos seus livros.

FAM – Este é o seu primeiro longa-metragem. Quais foram os principais desafios da produção?

FN – O filme é uma consequência da serie "Sangue Latino", que fazemos para o Canal Brasil. Esta parceria com o Canal foi fundamental, para dar os suportes necessários.

FAM – Porque o título do filme traz a palavra “vagamundo”?

FN – O titulo vem do primeiro livro de ficção publicado pelo Galeano "Vagamundo e outros relatos", em 1973. De alguma forma, também tem a ver com as cidades e países que percorremos, filmando os livros do Galeano e seus leitores.

FAM – Como foi feita a curadoria do filme, diante de um legado tão vasto deixado por Galeano?

FN – Foi uma curadoria feita por lágrimas, tendo a emoção como guia. Sem objetivo algum de ser um resumo ou uma eleição de melhores momentos de sua obra e sim de ser o que as suas histórias iam deixando em mim, conforme as páginas iam passando. Hoje, possivelmente seriam outras histórias, mas isso também é outra história.

FAM – Como foi feita a seleção das personalidades que participam do documentário?

FN – Nenhuma personalidade participa do documentário. São pessoas, leitores e leitoras. Pessoas da família como Helena, sua companheira de décadas e autora de sonhos fundamentais na sua literatura, incluindo amigos e pessoas que imagino que seriam seus amigos se tivessem se encontrado.

FAM – Há muito material produzido que ficou de fora, certo? Existe a intenção de utilizar esse material em outro projeto?

FN – Sim, temos mais de 40 leituras que ficaram de fora do filme. E, sim, estas leituras – e todas as 14 do filme – serão exibidas pelo Canal Brasil em sua programação, na forma de pílulas.

FAM – O que você espera que o filme desperte nos espectadores?

FN – Espero que as pessoas saiam do cinema com vontade de ler livros de escritores e escritoras de todo o mundo e de conhecer, através da literatura, lugares que não conhecem. E fico curioso de saber como foi a reação em países onde não pude estar presente, como Alemanha, Equador, Grécia e Irã. Aqui no Brasil as projeções têm sido mágicas e acho que no FAM será assim também.

FAM – Qual a importância de trazer esse tipo de projeto para festivais de cinema como o FAM?

FN – Acho que o Galeano, assim como muitos outros artistas, homens e mulheres de todo o mundo, têm a importância de nos iluminar no breu, nos mostrar que não estamos sozinhos e que a vida, apesar de tudo, vale à pena.

FAM – Qual sua expectativa para a mostra competitiva Doc-FAM?

FN – Quero muito ver os outros filmes da mostra Doc-FAM e continuar aprendendo.

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.




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