Entrevistas

Ranz Ranzenberger: um entusiasta de novas tecnologias

Razenberger irá ministrar uma oficina de três dias sobre Cinematic-VR
Razenberger irá ministrar uma oficina de três dias sobre Cinematic-VR

Ranz Ranzenberger é um entusiasta de novas tecnologias, com mais de 25 anos de experiência em computação gráfica e efeitos visuais. Foi responsável por consultorias e treinamentos para os principais profissionais, TVs e produtoras do país como instrutor e especialista em 3D e pós-produção. Atua profissionalmente na direção e produção de filmes imersivos 360, é diretor da AZIMUT Escola de Animação e Computação Gráfica e pesquisador na Escola de Comunicação (ECO/UFRJ).

Durante a 23ª edição do Florianópolis Audiovisual Mercosul – FAM, Razenberger irá ministrar uma oficina de três dias sobre Cinematic-VR e será o curador da Mostra Realidade Virtual, a ser realizada no hall do complexo de cinemas Cine Show, do Beiramar Shopping. Nesta entrevista concedida ao FAM, Ranzenberger conta um pouco sobre o que esperar desses dois momentos e sobre os principais desafios e tendências da produção de filmes imersivos.

O FAM 2019 teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência nacional do Cinema - Ancine com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.

FAM – Como irá funcionar a Mostra Realidade Virtual?

Ranz Ranzenberger – Quando trabalhamos com esse tipo de new media, que temos chamado de Cinematic-VR, é bastante diferente do convencional, que é quando se tem apenas um plano de visualização (televisão, computador, tablet). Com os óculos de realidade virtual, há a possibilidade de uma observação espacial, imersa, para todos os lados, todos os sentidos.

A pessoa se sente dentro do ambiente que está sendo observado. Antigamente isso era feito utilizando o computador, mas hoje existem câmeras específicas que capturam o espaço.
Nessa mostra, teremos cinco óculos de led virtual disponíveis e as pessoas vão ficar sentadas, de preferência em uma cadeira giratória, para que possam ter a percepção de todo o ambiente espacial mostrado nos filmes.

FAM – Quais filmes serão exibidos?

RR – Fizemos uma seleção dos seis melhores filmes brasileiros produzimos em Cinematic-VR. O primeiro deles é Contos no Jardim: O Imperador, a Princesa e as lembranças do jardim, assinado por mim em conjunto com outros colegas. Outro que eu também assino junto com parceiros é o HIVR. Teremos também o filme Quando nasce uma heroína, do Filipe Gontijo e do Henrique Siqueira, que a meu ver é o melhor filme produzido até então. Traremos também o Children do not play war, do Fabiano Mixo, que é uma história de guerra contada por meio da visão de uma menina. Tem também o Seven Miracles, do Rodrigo Cerqueira, que é a maior produção entre eles, com um investimento realmente bem grande. Traremos um pedaço desse filme, que traz uma pegada mais histórica e de cunho religioso. Além desses, a gente vai trazer o Step to the line, que é um dos mais antigos, produzido pelo Ricardo Laganaro, um grande cineasta que recentemente ganhou o Festival de Veneza como melhor filme por sua última produção.

FAM – Durante o FAM você irá ministrar uma oficina de três dias sobre Cinematic-VR. O que os interessados podem esperar?

RR – Falaremos sobre as principais questões que envolvem esse novo tipo de tecnologia. A ideia é mostrar de que forma é possível interagir, contar histórias. Falaremos um pouco sobre narrativas e as formas de lidar com esse desafio. Quais são os equipamentos utilizados, quais as técnicas de gravação, posicionamento de câmera, entre outros detalhes da pré-produção e da pós-produção, que são muito diferentes dos processos convencionais. Aqui trabalhamos com câmeras com múltiplas lentes, então existe um grande desafio na hora de juntar esse material e de como editar isso de forma que fique imersivo.

FAM - Para quem a oficina é destinada?

RR – É um público bem amplo, mas em geral é para aqueles que querem saber um pouco sobre esse tipo de produção. É também para quem vem do cinema convencional ou para quem já trabalha de alguma forma com o audiovisual e que quer ter uma ideia de como essa mídia será integrada em nossa vida, no futuro das produções. É também aberta a outros interessados, como o pessoal da área de entretenimento e games.

FAM – Quais as principais diferenças entre a produção tradicional e a 360?

RR – Em geral, a melhor forma de se pensar é que nesse tipo de produção 360 você é a visão do espectador. A câmera fica em um posicionamento chamado de “ponto de vista”, como se fosse a primeira pessoa. É uma forma muito mais empática de trabalhar, pois o espectador está dentro do ambiente, dentro da locação. E é preciso pensar em uma história com múltiplos pontos de interesse, por isso as mudanças de planos devem ser muito bem trabalhadas. Agora, o diretor não é mais o diretor do conjunto, pois existe a possibilidade de múltiplas leituras. Eu costumo dizer que agora quem decide como a história vai ser contada é o próprio espectador, que pode até ser chamado de “interator”, pois ele interage com o espaço. Agora, os melhores diretores são aqueles que conseguem influenciar, definindo pra onde o espectador será levado. É muito mais próximo de um teatro interativo de que realmente do cinema convencional, pois todas as vezes em que você assistir ao filme, ele será diferente, você verá coisas diferentes. Isso no filme convencional não ocorre, a não ser que ele seja remontado ou reeditado.

FAM – Quais os principais desafios da produção 360?

RR –
Um dos grandes desafios é a linguagem. Muitas pessoas ainda tentam usar a forma convencional de linguagem em filmes imersivos, mas isso não funciona, pois as câmeras têm múltiplas lentes para captar o ambiente espacial.

Em termos de equipamento, ainda temos muito a evoluir, pois as resoluções utilizadas hoje são um tanto altas, de 4, 8k ou até mais. Isso faz com que o material fique muito pesado e exija um equipamento de processamento muito expressivo na pós-produção. Para se ter ideia, quando juntamos as imagens captadas utilizando uma câmera de 8k, 360, estéreo, depois de costurar temos cerca de um giga para cada segundo de imagem. E estamos falando de material bruto. Ou seja, é preciso grande capacidade de processamento pra lidar com essa situação.

Outro desafio é a questão da interpretação, pois os atores não são acostumados a lidar diretamente com a câmera, que nesse caso acaba sendo um personagem da cena. Isso muda a maneira de interpretar. A forma de posicionar câmera também é muito diferente do convencional, pois você tem que pensar em múltiplas leituras. Diferente de um set de gravação convencional, em que você está por trás da cena, quando você filma em 360, ou a equipe faz parte da cena ou é preciso pensar onde ela vai ficar escondida. O áudio também é captado com equipamento específico ou coloca-se lapela nos atores, pois ao utilizar outro tipo de microfone, como você vai fazer para esconder? A iluminação também se torna um desafio: fazer uma boa fotografia sem utilizar as luzes convencionais, que não podem aparecer na cena.

Outro desafio é saber lidar com a profundidade entre as lentes – o que está mais na frente, o que está mais atrás. Muitas vezes o tripé precisa ser removido em um processo chamado de cleanup. A produção 360 exige mais de composições e efeitos invisíveis para que objetos saiam de cena sem que fique algo “falsificado”.

FAM – Você acredita que a Realidade Virtual seja um recurso a mais para o cinema ou uma tendência que estará em todas as produções no futuro?

RR – Eu não diria que é uma evolução ou uma substituição. Vai deixar o filme convencional pra trás? Não, são coisas paralelas. Como tem o teatro, que é outra forma de mídia, como temos a fotografia, o rádio, a TV, o cinema.

É uma nova mídia, uma nova forma de se ter imersão, interatividade. No flat screen você tem um plano único, uma só visualização. Na produção 360, você tem o que a gente chama de três graus de liberdade: ao invés de simplesmente só olhar pra frente, você pode olhar pra um lado, pro outro, pra cima, pra baixo, girar...

FAM – O que esperar do futuro? Quais as evoluções e tendências mais recentes?

RR – Existe outra forma de trabalhar, que vai um pouco mais além, que chamamos de seis graus de liberdade. Nesse caso, além de simplesmente olhar e ter a percepção espacial do que se tem em volta, você pode andar dentro do cenário, olhar o que está embaixo, o que está por trás, olhar na frente dos atores, atrás, do lado, interagir com o ambiente em si. Mas isso ainda é algo que será desenvolvido mais pra frente. Essa seria uma nova tendência, embora muito mais difícil de produzir e completamente diferente do convencional.
Se você tem um material muito bem feito, uma narrativa muito bem tratada em inúmeros aspectos, você pode até chegar nesse nível que chamamos de presença, em que você começa a acreditar efetivamente que está naquele espaço, sentindo seu corpo físico dentro daquela obra. Quando se chega nesse nível, se chega mais perto dos seis graus de liberdade, mais perto do mundo real. Há estudos que dizem que, ao chegar nesse nível, a maneira como o espectador se lembra de determinada experiência acaba às vezes trazendo dúvida se ele vivenciou aquilo de verdade ou não. E isso pode ser algo bom ou ruim, vai depender da ética de quem está produzindo o material, de quem está com esse poder.

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.




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