Entrevistas

Um universo tóxico masculino no boliviano El Río

Juan Pablo Richter estará na sessão nesta quinta
Juan Pablo Richter estará na sessão nesta quinta

El Río, escrito, produzido e dirigido por Juan Pablo Richter, uma coprodução Bolívia e Equador que abre a Mostra Longas Ficção do FAM 2019 na noite desta quinta, 26, aborda um universo masculino de competitividade e violência, no qual as principais vítimas são as mulheres. Na história, Sebastián vai para a cidade onde seu pai vive com uma jovem amante, Julieta, à beira do Rio Mamoré, fronteira com o Brasil. Ele precisa se integrar a esse contexto, mas acaba por se apaixonar por ela. As sessões serão às 20h50 e 21h10 no Cine Show do Beiramar Shopping, com a presença do diretor.

FAM - Como começou a desenvolver a história do filme? Como um filme que aborda temas como machismo e violência contra as mulheres repercutiu na Bolívia?

Juan Pablo Richter -
Em 2012 eu era produtor de um programa de notícias para adolescentes e crianças e fiz a cobertura sobre o desaparecimento de uma adolescente de 14 anos em La Paz. A partir disso se descobriu uma enorme rede de tráfico de crianças. Desde esse momento comecei a pensar em fazer um filme que observasse o comportamento tóxico masculino; o passo seguinte foi trazer a história até um contexto muito pessoal. Era importante entender que eu também sou parte deste problema, assim, foi imprescindível olhar para a minha família, para minha herança de comportamento e meu comportamento aprendido. Assim começou o processo de escrever El Río, que se estendeu de novembro de 2012 até dezembro de 2015.

A Bolívia, como a maioria dos países latino-americanos, tem muito que trabalhar sobre tudo que diz respeito à equidade de gênero e direitos das mulheres, especialmente crianças e adolescentes, sobretudo na parte que resguarde e garanta sua segurança. O filme foi o único que busca focar em como o comportamento masculino tóxico segue afetando este tema, sem diferença de classe social.

FAM - O que representam e o Rio Mamoré e as questões ambientais no filme, especialmente agora, em que a floresta amazônica, também na Bolívia, passou por queimadas e devastação?

Richter -
O filme é uma homenagem pessoal para o lugar de onde venho e também uma observação sobre a natureza das coisas; na história os personagens se veem envoltos todo o tempo numa força que não podem controlar e que, ao final, é quem decidirá o curso de suas vidas, seja permitindo escapar ou abraçando a profundidade das águas.

O Río Mamoré é o maior e mais importante da Bolívia, conhecido por sua agressividade e profundidade e, sem dúvida, o personagem mais importante desta história. A relação dos acontecimentos atuais e as ameaças que nossos espaços naturais sofrem, espero que o filme simplesmente permita lembrar que a natureza é muito mais forte que nós; ela não necessita de nós, nós que necessitamos dela e será ela quem decidirá finalmente o destino de nossa espécie. O Amazonas é o espaço natural mais importante do planeta e somos afortunados de viver tão perto dele; devemos respeito e agradecimento eterno e profundo, que devemos expressar através de uma relação consciente, respeitosa e de entrega a ela.

FAM - Quais aspectos destaca da coprodução Bolívia e Equador neste filme?

Richter -
Foi um processo muito bom, trabalhamos com Isabella Parra, da Caleidoscopio Cine, uma produtora muito importante do Equador, nos conhecemos no Fórum de Coprodução de San Sebastián e começamos a trabalhar ali. Em 2015, recebemos recursos para coprodução minoritária do Fundo de Cinema do Equador.

Na equipe, contamos com Juan José Luzuriaga como diretor e pós-produtor de som; Tamara Navas, reconhecida atriz em seu país, fez o papel da avó de Julieta e as bandas ELIA e Polvo colaboraram na música. A verdade é que tem sido um prazer e uma alegria enorme coproduzir com o Equador porque seu aporte foi imprescindível para fortalecer o projeto e o filme.

FAM - Como está o cenário para produções audiovisuais na Bolívia?

Richter -
A produção de filmes vem crescendo de um tempo para cá; entre 2017 e 2020 serão exibidos uns 30 filmes aproximadamente, que é muito considerando os anos anteriores.
Agora mesmo contamos com uma nova lei de cinema que contempla a existência de um fundo de fomento para a produção e essa é uma notícia muito boa para a cinematografia que virá no futuro. Também o Programa de Intervenções Urbanas do Ministério de Planificação da Bolivia está colaborando com o fomento para o desenvolvimento, produção, pós-produção e distribuição de uns 50 filmes. Esperamos que este programa siga trabalhando por muito tempo.

FAM - O que pensa de um festival como o FAM, com essas características de integração de cinematografias dos países vizinhos?

Richter -
É a primeira vez que vou ao festival! Estou muito feliz e agradecido pelo convite e por conhecer Florianópolis. Certamente o FAM é um excelente espaço de integração e interação entre cineastas que ajudará muito no fortalecimento dos projetos e das redes de trabalho.

O 23º Florianópolis Audiovisual Mercosul teve o investimento do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual - FSA, Agência Nacional do Cinema - Ancine, com realização da Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Pátria Amada Brasil, Governo Federal.

 




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