Entrevistas

Da geologia à locadora para diretor dos seus próprios filmes

foto: Daniel Guilhamet
foto: Daniel Guilhamet

 Sander Hahn, geólogo que trocou de profissão por amor ao cinema, exibiu o seu filme Domingos Bugreiro na Mostra Curtas Catarinense do FAM 2018, na sexta-feira. Os bugreiros eram assassinos contratados por autoridades locais e latifundiários, em Santa Catarina, para eliminar índios, principalmente, e pequenos proprietários de terra entre o final do século 19 e início do século 20.

 Na entrevista abaixo, Hahn, que mora em Criciúma, fala sobre essa história que, pela primeira vez, é contada no cinema, no Estado, e sobre como a paixão pelos filmes o fez virar diretor, produtor e ator de suas próprias produções.

FAM – Essa é uma história do Sul de Santa Catarina que nunca havia sido contada em filme. Como chegaste nela?
Sander Hahn –
Acho que é o primeiro filme que trata desse assunto. É baseado no conto do meu amigo e sócio Leandro de Bona Dias, mas dele eu preservei apenas o trecho final, o restante eu inventei toda a história. É uma ficção, mas baseada em fatos que aconteceram na região Sul. E os bugreiros eram respeitados na região, eles matavam mesmo e por isso eram temidos. E eram bandidos, matavam índios e matavam colonos a mando dos poderosos por causa de terras. E eles diziam que índio era bicho, que não tinha alma. E, por se tratar de um filme de época, teve muito trabalho de produção. O diretor de arte se virou para recriar as roupas, achar os locais, recriar a linguagem dos índios da época. Houve muita pesquisa.

Pergunta – Onde ele foi filmado?
Hahn –
Foi filmado em Criciúma, na Mina do Mato, perto da casa do meu filho, onde existe uma reserva, onde gravamos a cena da aldeia dos índios. Aquela casa dos colonos, em que aconteceu aquela matança, ela fica na estrada que vai para Nova Veneza. E a outra casa, a do bugreiro, fica em Siderópolis. Basicamente, filmamos nessas três cidades. Filmamos em quatro dias. Deu tudo certo. Estava programado para acontecer numa semana, no inverno de 2016, mas daí choveu, marcamos para a semana seguinte e tivemos quatro dias de sol, perfeitos.

FAM – Desde quando começaste a se interessar em fazer cinema?
Hahn –
Gosto de cinema desde pequeno. Eu sou de Araranguá, e fui estudar em Porto Alegre e lá eu não saía do cinema. Fiz Geologia e, quando me formei, fui trabalhar em Criciúma, no setor de mineração. Daí vieram os filhos, eu vivia fora de casa, viajava muito, era complicado. Daí resolvi, como adorava cinema, largar a Geologia e abrir uma locadora de vídeo, assim eu poderia assistir aos filmes que quisesse e trabalhar com isso. E quando o tempo das locadoras chegou ao fim, com a internet, eu fechei e resolvi que agora eu faria os meus próprios filmes. Aí me juntei com os sócios Marcelo Zapelini da Rosa e Leandro de Bona Dias e montamos a produtora chamada O Bom, o Mau e o Feio, do filme do Sergio Leone. Esse Domingos Bugreiro é o nosso quinto filme. Fizemos outros quatro que estão no youtube, no canal da Vídeo Beta, que era o nome da locadora. O primeiro filme foi Era uma vez fitas, dvds e blu rays, que fala sobre a decadência das locadoras. O segundo é Cenas de um casamento, uma homenagem ao Ingmar Bergman. O terceiro foi Ela, baseado numa história do Marcelo sobre uma mulher misteriosa, e depois fizemos O empresário do ano, em 2016, em que eu faço um empresário inescrupuloso, que demite todo mundo que ganha bem, coloca gente para trabalhar com salário menor e acaba sequestrado por ex-funcionários.

FAM – E como tu te descobriste como ator?
Hahn –
Pois então, eu, o Marcelo e o Leandro fazemos de tudo, roteiro e produção, atuamos nos filmes e eu ficava com a direção. Mas nesse Domingos Bugreiro, como ganhamos o edital do governo do Estado e tínhamos mais dinheiro, contratamos bastante gente, direção de fotografia, direção de arte, e o resultado ficou muito bom. Mas para o papel do bugreiro eu disse que era comigo mesmo. E ninguém acredita que eu estava no papel, a maquiagem ficou muito boa. Até mostrei o filme para um outro amigo e ele não me reconheceu.

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