Entrevistas

Velhos lutadores de volta ao ringue

Foto: Daniel Guilhamet
Foto: Daniel Guilhamet

A cineasta catarinense Cíntia Domit Bittar apresentou o seu filme Flecha Dourada na noite desta sexta-feira, na Mostra Curtas Catarinense do FAM 2018, um curta que trafega entre a ficção e o documentário para resgatar a história dos lutadores que fizeram fama no catch catarinense entre os anos 1960 e 1980.

Na entrevista abaixo, Cíntia conta como chegou nos personagens e como eles encararam, de fato, a volta ao ringue anos depois de aposentarem as suas fantasias:

Pergunta – Como você chegou nessa história do catch aqui em Santa Catarina, e como você conseguiu reunir esses personagens fantásticos?
Cíntia Domit Bittar –
A gente conheceu a história do catch catarinense por meio de uma reportagem que saiu no (jornal) Diário Catarinense que falava sobre o Flecha Dourada, o senhor Cairê Pirajibe, e uma amiga que trabalhava lá nos mandou a matéria dizendo eu a gente precisava vê-la. E aí fomos atrás para conhecer quem era o seu Cairê, que faz o Flecha, e fomos até a casa dele, em Forquilhinhas, em São José. O ringue deles ficava aqui em Florianópolis, na rua Angelo Laporta, no Morro da Cruz, mas eles performavam por toda a região metropolitana e aqui na Ilha. O filme inclusive mostra um ringue na Barra da Lagoa. Eles faziam muitas lutas beneficentes e campeonatos, nos anos 1970 e 1980. O ringue Golden Flecha, criado por Germinal Moreira, pai do seu Cairê, foi fundado nos anos 1960. E depois de conhecermos o seu Cairê, que infelizmente faleceu há cerca de um mês, de anotarmos as histórias que ele nos contou, resolvemos formatar um projeto para concorrer ao Edital da Cinemateca Catarinense e ganhamos o prêmio.

Pergunta – Em que ano vocês produziram o filme?
Cíntia –
A filmagem aconteceu em 2015. É que esse edital foi muito problemático, foi no edital 2013/2014, demorou para pagar a primeira parcela, depois demorou para pagar a segunda, e a gente só conseguiu finalizar o curta em janeiro de 2017. Mas felizmente conseguimos filmar eles em ação, pois se demorasse mais um pouco talvez não pegássemos eles vivos, porque outros dois personagens faleceram durante o processo de finalização, o Deiris Salaam (Jones João Bastos) e o Águia Veloz (Sérgio Gouvêia).

Pergunta – E como está sendo a divulgação do filme?
Cíntia –
O filme tem feito uma carreira bem interessante em festivais. Passou em festivais importantes de curtas do Brasil, o Festival Internacional de Curtas do Rio, conhecido como Curta é Cinema, no Festival Internacional de São Paulo, o Kinoforum. Passou também no Goiânia Mostra Curtas, na Mostra de Cinema de Tiradentes e agora é semifinalista no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

Pergunta – No filme, os velhos lutadores se emocionaram muito, e quem assiste também, principalmente naquela parte final em que o Flecha Dourada lê para o filho a carta do pai dele. Como foi para eles sentir esse filme, porque, na época, eles eram figuras muito populares, e hoje o catch é uma prática esquecida em Santa Catarina?
Cíntia –
O filme faz esse resgate não só da história, mas do emocional desse grupo, pois, como eles contam no filme, eles eram praticamente uma família. Há muitos anos que não se encontravam todos eles, especialmente para lutar. A gente resolveu montar um ringue, e eles lutaram a sério, e fazia anos que isso não acontecia. Para eles tenho certeza que foi muito emocionante, não foi só uma questão de fazer uma filmagem, um documentário. E o filme brinca muito com a própria linguagem do catch, porque ele tem alguns enquadramentos que remetem ao cinema de ficção, eles dão entrevistas com as fantasias de lutadores que usavam na época, então o curta fica nesse limite entre o que é ficção e o que é realidade, o que é ensaiado e o que é luta mesmo. E o filme deixa o espectador com essa dúvida, com grandes cargas de emoção também, como na cena final da carta, a ponto de as pessoas pensarem se isso foi combinado ou não, como é, na essência, a luta de catch.

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