Entrevistas

O olhar do menino no peixinho dourado

Foto: Daniel Guilhamet
Foto: Daniel Guilhamet

Norte-americano radicado em Florianópolis há 16 anos, o cineasta e roteirista Andrew Kastenmeier apresentou o seu filme moT na Mostra Curtas Catarinense. No curta, um menino que não fala, um homem bondoso que sofre uma doença, um peixe dourado e um gato interagem numa narrativa carregada de sensibilidade.

Na entrevista abaixo, Kastenmeier fala sobre o roteiro, sobre o menino que conduz o filme só com o olhar e sobre como veio parar em Florianópolis.

FAM – Como foi o desenvolvimento do roteiro, de onde surgiu essa ideia?
Andrew Kastenmeier –
A ideia do curta veio de uma imagem de um filme do Nicolas Roeg, Track 29 (1988), que tem uma imagem do Gary Oldman olhando do lado de fora da janela do quarto de uma mulher (Theresa Russell). Era esquisito, ameaçador. Gostei dessa imagem me impactou, e pensei em colocar algo parecido, mas com uma pessoa que não fosse ameaçadora, um menino olhando lá de fora. O filme começou a se desenvolver a partir dessa imagem. Quando eu estava na faculdade de cinema, nos Estados Unidos, eu escrevi um curta sobre um peixe dourado que ficava olhando as pessoas em volta. Reuni essas ideias e escrevi esse roteiro há muitos anos. Quando entramos no Edital de Cinema (de Santa Catarina), eu reescrevi esse roteiro, primeiro em inglês e depois traduzi para o português, já pensando em encená-lo na Barra da Lagoa. Foi assim que o filme se construiu. Era para ser feito ali mesmo, um lugar muito bonito, com aspectos rústicos e ao mesmo tempo algo de modernidade, a ponte, uma casa bonita que nos foi emprestada.

FAM – Como você encontrou esse menino, o Luiz Eduardo de Souza, que dá um verdadeiro show de interpretação, apenas com o olhar?
Kastenmeier -
O Luiz fez um papel maravilhoso, ele foi central para que o filme fosse bom. Nós o encontramos em uma série de workshops que fizemos no CIC, de interpretação para crianças. Não foi um teste, a ideia era oferecer às crianças algo bacana, que fosse além da participação em um filme. Foi um wokshop no teatro, com uma série de improvisações. Participaram entre 40 e 60 crianças, e deu muito certo, todas ficaram muito felizes. E o Luiz, pedi para que ele imaginasse que havia um amigo na água, nadando, e de repente aparecia um tubarão e se aproximava desse amigo. Quando eu estava falando, eu vi no olhar e na expressão do Luiz essa imagem acontecendo, e aí eu percebi que o filme só podia ser feito com ele. Na época que gravamos o filme, ele tinha 9 anos. Hoje está com 18, e é uma pena que nunca mais tenha feito cinema, porque ele tem um potencial enorme.

FAM – Essa é a tua primeira participação no FAM com um filme, o que pensa do festival?
Kastenmeier –
Ter um festival em casa, como o FAM, é superimportante para a Ilha, para a cultura, ainda mais nesse momento em que a cultura está sofrendo agora com a situação financeira, em que alguns patrocinadores importantes, que sempre estiveram junto, não estão mais apoiando o audiovisual. Então, nós precisamos desses espaços e temos que nos ajudar.

FAM – Onde foi a tua formação no cinema? E como vieste parar em Santa Catarina?
Kastenmeier –
Eu me criei em Arlington, perto de Washington DC, e fiz faculdade de cinema lá, mas era um curso mais voltado para a crítica. Depois fui Los Angeles, fazer um estágio de seis meses na Warner Brothers, e mais tarde me mudei para Nova York para trabalhar com cinema, fazendo produção, assistente de câmera em seriados de tevê. Morei 13 anos lá e fiz o meu primeiro filme , um curta chamado The Boy Who Stole Sophia Manhattan's Box Lunch, em 1985. Em Nova York, conheci uma paulistana e vim para o Brasil. Hoje somos amigos, não estamos mais juntos, mas eu me apaixonei pelo Brasil e perguntei aos meus amigos brasileiro de São Paulo: se tivessem que escolher um lugar para morar no Brasil, qual seria? Todos falaram Florianópolis. Estou aqui desde 2002. Hoje estou casado com uma paraibana há 11 anos e moramos na Lagoa. Agora aqui é o meu lar.

O 22º Florianópolis Audiovisual Mercosul tem o patrocínio do Funcultural, Fundação Catarinense de Cultura, Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esportes, Governo do Estado de Santa Catarina, do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE - , Fundo Setorial do Audiovisual - FSA -, Agência Nacional de Cinema - Ancine - , com apoio da Secretaria de Cultura e Arte da Universidade Federal de Santa Catarina e realização Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Ministério da Cultura e Governo Federal.
 

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