Entrevistas

Casa cheia de histórias esquecidas

Foto: Daniel Guilhamet
Foto: Daniel Guilhamet

O cineasta pernambucano Carlos Nigro apresentou o seu terceiro curta-metragem, Casa Cheia, na Mostra Curtas Mercosul do 22º Florianópolis Audiovisual Mercosul, uma história de terror em que uma garota, que sofre de asma, acorda repetidas vezes tendo dificuldades para respirar em uma casa repleta de estranhas sensações e presenças fantasmagóricas.

Na entrevista abaixo, Nigro fala de sua experiência com o gênero terror e as referências recorrentes na cinematografia contemporânea:

FAM – O escritor H.P. Lovecraft dizia que o medo é a sensação primordial do ser humano. Por quê essa história de terror e o que te atraiu para esse tipo de narrativa?
Carlos Nigro –
Escrevi essa história em uma noite quando eu senti a catarse dessa menina, porque eu era asmático e tive uma crise de asma sozinho em casa, e a ideia inicial desse filme é puxar as pessoas pela primeira lembrança de quando se sentem sós, sentem medo do escuro, de canto de olho você pensar que tem alguém ao lado. Então, quis brincar com esse medo infantil, que todos têm, e levar isso ao continente do existencialismo, e aí pensar no que é o abandono, no que essas casas que estão abandonadas podem guardar histórias, e que os fantasmas que estão nelas representam na verdade essas histórias que estão esquecidas e abandonadas.

FAM – Naquela sensação mais angustiante de opressão, em que ela estava na casa com todas aquelas pessoas, lembrou o filme Mãe, do Darren Aronofsky. Foi uma referência intencional, ou nem passou por isso?
Nigro –
Esse curta eu escrevi em 2009, ganhei incentivo para apresenta-lo em 2012, gravei em 2014 e finalizei em setembro do ano passado. Então foi bem antes. E você vai ver filmes de terror feitos depois dele que têm cenas como as dele. Por exemplo, o Invocação do Mal 2, do James Wan, tem uma cena exatamente igual à do chicote que eu uso, do menino aparecendo na televisão e depois ao lado dela no sofá, que foi uma cena que eu gravei em março de 2014, e ele só filmou em 2015 o segundo capítulo do Invocação do Mal, lançado em 2016. Então, só para me garantir, eu fiz antes, não me inspirei nesses filmes. Mas acho que as referências estão aí o tempo inteiro e a gente acaba absorvendo. Acho que as pessoas que pensam o gênero terror têm essas mesmas referências e acaba, muitas vezes, escolhendo as mesmas alternativas. No filme eu pretendi fazer várias pequenas homenagens, não a um realizador específico, mas ao gênero e como isso povoou muito as mentes das crianças nos anos 1980 e 1990.

FAM – Quanto tempo tu trabalhas com curtas, qual é a tua formação?
Nigro –
Eu sou publicitário, embora nunca tenha trabalhado em agência. Comecei a fazer teatro aos 12 anos, e com 19 eu protagonizei um seriado para tevê no Nordeste, Cruzamentos Urbanos, e foi aí que eu me encantei pelo audiovisual e por estar atrás das câmeras. Terminei o curso de Publicidade, nunca entrei numa agência e comecei a fazer cursos voltados para o cinema nos últimos 10 anos. Estudei na Argentina sete meses, alguns cursos lá no Recife, depois fiz um curso de roteiro no Lugar de Cinema em Belo Horizonte. Este Casa Cheia é o meu terceiro curta. Fiz um chamado A Felicidade, em 2009, e outro chamado Carne, em 2013, que participou de 40 festivais em 12 países. E agora o Casa Cheia, que estreou em outubro e já participou de sete festivais com o FAM.

O 22º Florianópolis Audiovisual Mercosul tem o patrocínio do Funcultural, Fundação Catarinense de Cultura, Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esportes, Governo do Estado de Santa Catarina, do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE - , Fundo Setorial do Audiovisual - FSA -, Agência Nacional de Cinema - Ancine - , com apoio da Secretaria de Cultura e Arte da Universidade Federal de Santa Catarina e realização Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Ministério da Cultura e Governo Federal.

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