Entrevistas

Uma estrada para três recomeços


A experiência com os curtas-metragens, dentre os quais os premiados Mulheres Choradeiras (2000) e Ribeirinhos do Asfalto (2011), foi fundamental para que a cineasta paraense Jorane Castro soubesse lidar com as dificuldades de se fazer um filme de estrada na Amazônia. Na entrevista abaixo, concedida por meio de whats app enquanto ela entregava a sua tese de doutorado em Lisboa, Jorane fala sobre a origem do filme, a escolha das atrizes, os percalços de se lidar com um orçamento pequeno enquanto se filma em uma estrada da Amazônia e sobre o que as três personagens principais encontram ao final da jornada.

Para ter onde ir, primeiro longa de ficção da diretora, será apresentado no sábado, dia 23, às 21h, na Mostra Longas Mercosul do FAM 2018.

FAM - Qual foi o ponto de partida para o roteiro de Para ter onde ir? O que te motivou a fazer esse road movie feminino?
Jorane Castro –
Sempre trabalho com o universo feminino. Todas as ficções que fiz até hoje eram sobre personagens femininos, mulheres que são muito fortes e que estão presentes no meu universo. É difícil para mim trabalhar com um protagonista homem. Não é preconceito nem nada, mas eu tenho a sensação de entender melhor o universo feminino e poder aprofundá-lo mais. É algo que é recorrente em minha trajetória. Dois filmes meu já foram exibidos no FAM e, também, tratavam da temática feminina. E eu queria colocar essas mulheres conversando sobre o amor, sobre a vida, suas escolhas, todas essas questões que eram importantes para mim naquele momento. Então comecei a escrever um filme, um road movie que se passa numa estrada que eu frequentei muito, que muita gente do Pará costuma fazer, porque é a estrada para as praias, no verão. Ir para um lugar de relaxamento, de recomeço, do desprendimento. Eu sempre tive vontade de filmar essa estrada que eu conhecia muito bem. Quando comecei a escrever o filme, achei que seria uma boa ideia colocar essas minhas personagens recorrentes femininas nessa aventura da estrada. E eu queria que elas fossem diferentes uma da outra, cada uma tem um perfil distinto. Então foi assim que começou a ideia, colocar três mulheres para falar da vida dentro de um carro.

FAM - Como foi a escolha das atrizes que interpretam as personagens principais, o que tu buscaste em cada uma delas?
Jorane –
Fizemos testes para o elenco e eu queria elas fossem paraenses. Tem uma questão importante para mim que é da nossa fala, que a gente quase não escuta no cinema. E as três vieram desse teste feito aqui em Belém. A Keila Gentil, cantora de quem eu já conhecia o trabalho, eu já admirava, eu já achava que ela podia fazer essa personagem, pois ela tinha um perfil, não que seja a vida dela, mas que parece com ela, de subir num palco e cantar. E a Lorena Lobato, que está fazendo o papel da Eva, é uma atriz mais experiente, que já fez vários filmes, com Suzana Amaral, com Paula Gaetán, e ela vinha fazendo um filme paraense, estava muito sintonizada. E a Ane Oliveira nunca tinha feito trabalho como atriz, e foi uma escolha muito boa, a gente acertou. Os personagens masculinos também são interpretados por atores que saíram do teste. E assim fechamos o elenco só com o pessoal aqui do Pará, foi maravilhoso.

Pergunta - Quanto tempo durou a produção? Que tipo de dificuldade tiveram que enfrentar durante a filmagem?
Jorane –
Filmamos durante quatro semanas, e tivemos uma preparação de oito semanas. O tempo maior foi de finalização, tanto de imagem quanto do som. A gente começou em setembro de 2015 e terminamos em junho de 2016. A finalização foi longa, mas o filme precisava disso. As dificuldades que tiveram foram as de um filme de estrada. Ou seja, você tem que transportar uma equipe, filmar muito em externa, então ficávamos reféns do tempo, se estava ou não chovendo. Todo mundo acha que fazer um road movie é simples, e não é. Foi um processo complicado, tínhamos um recurso muito pequeno, do edital de baixo orçamento do MinC e uma verba da Secretaria de Turismo do Pará, que totalizou R$ 1,35 milhão, o que para um road movie na Amazônia é muito pouco, mas a gente conseguiu fazer. As dificuldades foram essas, lidar com orçamento pequeno, filmar na estrada e ter, também, conciliar todas essas questões de intempéries que se apresentam quando a gente faz um filme com essas características.

FAM - Para este teu primeiro longa, o quanto cada um dos teus trabalhos anteriores em curta-metragem contribuiu em termos de experiência para lidar com as situações que apareciam no set?
Jorane –
Eu já tinha, é claro, experiência de set de filmagem, feito vários filmes, curtas, documentário e ficção. Tinha feito um longa documentário, mas ficção longa não tinha feito ainda.Foi um desafio. A gente sente um pouco de apreensão de como as coisas vão acontecer. Mas, por isso eu acho importante o curta-metragem como formação, não só para você saber como liderar uma equipe e resolver os problemas no set, mas para você lidar com as questões narrativas e técnicas que aparecem em todo filme. Isso me deu uma segurança maior. Mas cada projeto de filme é diferente. É um filme novo, com situações diversas que você tem que lidar. Mas a experiência com os curtas proporciona uma maior segurança na hora de decidir. Aconselho quem for fazer cinema a começar pelos curtas, pois eles são formadores. É a verdadeira escola para cinema.

FAM - O que as três personagens encontram ao final da jornada?
Jorane –
Elas encontram a si mesmas, elas definem melhor quem elas são no final dessa jornada. Não é um final fechado, com decisões, ele é aberto e propõe uma maneira de olhar diferente de cada personagem. Cada uma delas chega no final do filme com uma nova visão de si mesmas. Isso é importante. A gente sempre fala em cinema sobre a jornada do herói, e elas terminam o filme transformadas, sim. Elas não voltam para o lugar inicial. O último plano remete ao primeiro plano do filme, eles são opostos. Um começa e outro termina.

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