Entrevistas

Audiovisual com compromisso social


Luis Lomenha é o palestrante sobre produção no Rally Universitário. Carioca, diretor e produtor na Jabuti Filmes, fundador da ONG Cinema Nosso junto com os cineastas Fernando Meirelles e Katia Lund, começou no audiovisual como uma das crianças do elenco de Cidade de Deus. Entre seus principais trabalhos estão os documentários Vida Nova com Favela, Uma Mãe como Eu, Luto como Mãe e a série Minha Rua, exibida no Canal Futura. Também foi produtor de Cidade de Deus: 10 anos depois e Sob Luz e Sombras (2012). Na entrevista fala do que um realizador iniciante precisa focar e dos seus trabalhos ligados a questões sociais e ambientais.

A palestra será na quinta (21), às 9 horas, e está com inscrições abertas pelo link: https://www.sympla.com.br/producao--produccion---rally-universitario-fam2018__293866

FAM - Você veio outras vezes ao FAM e inclusive foi consultor do Rally no ano passado. O que pensa desse tipo de experiência?
Luis Lomenha –
É a minha terceira vez no FAM e também participei da primeira edição do Fenavid Bolívia, fui consultor do projeto 100x100, que inspirou o Rally. É um desafio pra equipe de entender a cooperação mútua e trabalhar com tempo curto. O digital proporciona inúmeras possibilidades de filmar mais tempo do que a película, o que faz o montador sofrer com a quantidade de material. O Rally trabalha bem isso pelo tempo que se tem, existe a necessidade de ser ágil e cuidar de todas essas questões com primor narrativo, no processo técnico, na finalização, porque você vai ser avaliado no final. É um grande exercício de pensar uma estrutura narrativa e começar no audiovisual, e experiência no ano passado foi fantástica.

FAM – Como será palestra sobre produção? O que recomenda a produtores iniciantes?
Lomenha -
A maioria das pessoas que começa no audiovisual almeja dirigir e no Brasil normalmente a gente vai num caminho de abrir uma empresa pra realizar os nossos projetos. Essa na maioria das vezes não é a melhor solução e como todo nosso formato é focado em editais, isso faz a gente pensar que é a melhor alternativa, mas o tempo é gasto mais em questões de produção e administração do que criativas. Essas questões de funcionários, sede, necessidade de lucro, vão te massacrar no começo e se você não corresponder vai ser um mero realizador de projetos.

Com a lei da TV paga e o mercado de séries isso muda um pouco, você vai ter que pensar numa carteira de projetos mais a longo prazo, o que gera um fluxo de trabalho e também financeiro dentro da produtora. A oficina é mais nesse sentido de como produzir com canais, como se organizar internamente. Eu não sou diretor de produção, sou produtor executivo, que é a produção um pouco antes do set de filmagem e depois, que é tão importante quanto. Mas sobretudo essa reflexão do que você busca dentro do audiovisual. Direção é algo que se faz quando se adquire uma maturidade maior na empresa. Vou falar da experiência da nossa produtora, o quanto a gente tem produzido pra TV, trabalhado com marcas pra internet, feito coprodução internacional.

FAM - Você já trabalha com formação de jovens no Cinema Nosso, que serviu para você e os outros fundadores também conquistarem seu espaço no mercado. E como está a ONG atualmente?
Lomenha -
Fundei o Cinema Nosso com o Fernando Meirelles e a Kátia Lund, que já tinham uma estrada. Quando começamos trabalhamos com foco em produção, era um perfil muito diferente de outras ONGs, era um grupo muito grande de jovens, e a gente produzia mais do que dava aula. A formação veio meio que a reboque do que a gente produzia. Em 2003, produzimos uma série exibida no Fantástico e outras produções internacionais, o que gerava receita. O elenco de Cidade de Deus, do qual fiz parte, tinha uma quantidade grande de crianças. A gente estava fazendo Cidade dos Homens, que tinha cinco anos de contrato com a TV Globo e com a O2, o casting era o mesmo de Cidade de Deus, e havia uma necessidade do Fernando de manter essas pessoas por perto. A alternativa foi criar uma oficina de formação para as crianças, que foi o embrião do Cinema Nosso.

Depois isso tomou uma repercussão maior, quase não havia projetos de formação de cinema naquela época no Rio de Janeiro, e a gente trabalhava com película, então isso atraiu profissionais do cinema e muitos parceiros, como Walter Salles, João Moreira Salles, Daniela Thomas, e acabamos trabalhando com essas pessoas. Hoje a formação continua e recebemos alunos do mundo inteiro.

Temos vários exemplos de jovens que estão empreendendo no audiovisual e isso só é possível neste momento depois da lei da TV paga e do Fundo Setorial do Audiovisual. Antes era um mercado limitado, principalmente na publicidade. Hoje tem espaço em TV, games, aplicativos, mesmo com a crise e temos alunos que abriram empresas. Um exemplo é o Jussimar Teixeira, que trabalha com som [Jussimar é um dos consultores da palestra sobre som no Rally]. Ele veio de Taquara (RS) para o Rio, tinha 17 anos, saiu de uma região pobre e hoje tem uma empresa, muitos saíram do país, outros estão na TV.

FAM – E quais são teus projetos atuais?
Lomenha -
Estou finalizando uma série com a Bel Lobo, “Quem mandou me convidar?”, uma série que tem um compromisso social incrível, a gente fez a maior série de makeover do país em número de obras de transformação, construímos uma biblioteca, o banheiro de uma escola, reformamos o restaurante de um quilombo, construímos um skate park numa favela. Só trabalhamos na produtora com conteúdo de relevância socioambiental. Estou começando a pesquisar para outra série sobre pessoas que superaram histórias de violência e reinventaram suas vidas, que vai ser filmada no Brasil, Colômbia e talvez Estados Unidos. Outra é uma série sobre inovação, com brasileiros que inovam com metodologias sociais e ambientais, não necessariamente sobre tecnologia.

O 22º Florianópolis Audiovisual Mercosul tem o patrocínio do Funcultural, Fundação Catarinense de Cultura, Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esportes, Governo do Estado de Santa Catarina, do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE - , Fundo Setorial do Audiovisual - FSA -, Agência Nacional de Cinema - Ancine - , com apoio da Secretaria de Cultura e Arte da Universidade Federal de Santa Catarina e realização Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Ministério da Cultura e Governo Federal.

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