Entrevistas

O simbólico e questionador Açúcar


O longa Açúcar é o filme convidado da abertura da Mostra de Longas Mercosul. Escrito, dirigido e produzido pelo casal Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, explora temas polêmicos, como as oligarquias ligadas à indústria da cana de açúcar, escravidão e racismo, religião e relações trabalhistas. Os dois falam desses aspectos na entrevista.


Pergunta - Como foi a abordagem dessas questões, especialmente neste momento político do país?


Renata Pinheiro - Pensamos o filme porque parte da minha família possui uma terra onde realmente existiu trabalho escravo na produção de açúcar. Eu passava as férias lá e me incomodava com essa história pesada dali, queria recorrer a esse tema numa obra. É algo que precisa ser revisitado, o tema não se esgotou, se relaciona com a crise atual, inclusive dos combustíveis, com o papel dos engenhos de açúcar e álcool podem representar. A gente escolhe, como diretores, o ponto de vista da casa grande, mas saímos dessa zona de conforto pra mostrar nosso olhar sobre essa sociedade oligárquica. Açúcar foi filmado em 2014, era outra realidade, havia ascensão dos movimentos culturais, sociais, das minorias, e grande incentivo à cultura. Criamos dois finais para o filme, com diferentes possibilidades de quem venceria, os brancos ou os negros. Na montagem, ficou o final que é mais condizente com a realidade brasileira
Sérgio Oliveira - O filme acontece numa região fundadora do Brasil, tanto cultural quanto socialmente, a região da cana de açúcar. Nasceu de um sonho de Renata, de uma mulher num barco à vela no meio de um mar de açúcar. Começamos a fazer o filme a partir disso, uma imagem forte que retrata a história do Brasil colonizado pela escravidão e o seu contexto. Filmamos com recursos próprios e ganhamos um concurso do Canal Curta, que adquiriu o filme, e um pequeno recurso do Fundo Setorial do Audiovisual para finalizar a obra.


FAM 2018 - Como o filme tem sido recebido? Qual a trajetória dele?


Sérgio - Iniciamos a carreira no Festival do Rio, depois a estreia internacional foi em Rotterdam este ano, um grande feito pra gente, além da exibição na Janela do Cinema de Recife. Ganhamos também o prêmio da crítica no Festin Lisboa, o festival da língua portuguesa de cinema.
Renata - Todas as sessões tiveram salas cheias e debates depois. Tivemos uma surpresa depois de Rotterdam, num desses debates havia uma artista e ativista negra americana, Ellen Gallagher, que convidou o filme para participar de uma exposição dela em Los Angeles. Açúcar foi o título da exposição e o filme foi a peça principal, e isso aconteceu durante o mês do orgulho negro. Ela entendeu o filme como um grande questionamento da sociedade, do privilégio branco diante dos negros e descendentes de ascender socialmente, que se repete em vários países. É um tema bastante polêmico no Brasil e não existe só uma leitura do filme. Foi um grande presente e uma afirmação de que o nosso discurso está num bom caminho.


FAM 2018 - Podem falar de outros aspectos da produção e também da relação com os atores? Maeve Jenkins já trabalhou com vocês no Amor, Plástico e Barulho, como foi a escolha dela como protagonista?


Sérgio - Nós contamos com a cooperação da equipe, o filme foi bancado por nós, e o nível técnico da equipe era bastante apurado. O filme rodado por uma urgência artística nossa, porque o engenho estava pra cair, o que aconteceu depois, e havia a necessidade de ambientar algo nesse lugar. Aí veio o sonho, que embasou o roteiro.
Renata - Filmamos em 14 dias, com uma equipe mínima, todos hospedados juntos, foi um mergulho nesse universo. Desde o início visualizamos Maeve como protagonista, parecia alguém que vivenciou aquilo. Ela captou toda a alma daquele espaço. Um personagem conflituoso, difícil, de muito silêncio e Maeve em parte segura o longa-metragem com pouquíssimas palavras. Ela tem muito orgulho desse filme, tem participado da carreira em festivais e apontado questões muito interessantes.


FAM 2018 - Vocês já estiveram com seu filme Amor, Plástico e Barulho abrindo o FAM, em 2014. O que esperam da sessão, como é sua relação com o festival?


Renata - Fico feliz de abrir o FAM, espero que o filme inflame o festival, as pessoas saem da sessão com grandes questionamentos e é isso que temos que levar pras telas, é importante pro amadurecimento da nossa sociedade. Espero que a gente possa contribuir para esse debate que o festival indiretamente propõe. A gente precisa dar continuidade aos festivais, formar público crítico, que é a função dos festivais.

 O 22º Florianópolis Audiovisual Mercosul tem o patrocínio do Funcultural, Fundação Catarinense de Cultura, Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esportes, Governo do Estado de Santa Catarina, do Banco Regional do Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE - , Fundo Setorial do Audiovisual - FSA -, Agência Nacional de Cinema - Ancine - , com apoio da Secretaria de Cultura e Arte da Universidade Federal de Santa Catarina e realização Associação Cultural Panvision, Muringa Produções Audiovisuais, Ministério da Cultura e Governo Federal.

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