Entrevistas

Luis Lomenha, fundador da ONG Cinema Nosso, fala sobre projetos com jovens da periferia do Rio

Foto: Marino Mondek
Foto: Marino Mondek

Luis Lomenha, um dos consultores do 1º Rally Universitário Floripa, teve o seu primeiro contato com o cinema em “Cidade de Deus”. A partir dos contatos feitos com filme, o produtor fundou junto com os cineastas Fernando Meirelles e Katia Lund a ONG Cinema Nosso, que prepara jovens da periferia para o mercado audiovisual.

Diretor da Jabuti Filmes, empresa responsável pela produção profissional dos trabalhos da ONG, Lomenha dirigiu a série Minha Rua e Luto como Mãe (2008).Também foi produtor de diversos filmes como Cidade de Deus:10 anos depois (2013) e Sob Luz e Sombras (2012). Neste bate-papo, conversamos sobre a sua história e os seus projetos no cinema.

Como começou o seu contato com o cinema?
Eu comecei com o teatro com uns 16 anos. No teatro, eu fazia tudo. Produzia, dirigia, atuava. Foi assim até começar a fazer cinema. O cinema, na verdade, foi um acaso. A minha vontade era escrever e eu me formei em literatura. Mas acabou que o cinema roubou a cena da literatura na minha vida. Logo depois da experiência de montar um espetáculo no teatro, fui fazer o filme “Cidade de Deus”. Ali acabei me apaixonando pelo audiovisual. A oportunidade que eu tive foi trabalhar como ator em uma participação pequena, mas depois disso fiquei muito próximo dos diretores Fernando Meirelles e Kátia Lund e montamos uma escola juntos. Naquela época, nós formávamos as pessoas para o Cinema, porque não existia o digital. Era em 2001. Hoje, a escola Cinema Nosso tem um certo prestígio na formação audiovisual.

A sede de vocês ficava onde? Pode contar como foi esse começo do Cinema Nosso?
O lugar onde foi preparado o cast da Cidade de Deus era a Fundição Progresso, que acabou sendo a nossa base. Ficamos uns dois anos nesse lugar. Éramos um grupo pequeno e, com a produção do Cidade dos Homens pela O2, muitos de nós acabamos trabalhando na série e fomos para o mesmo lugar que a O2 foi em Botafogo. Quando a série terminou, fomos para o prédio administrativo do grupo Estação de Cinema, que é um grupo de sala de cinema de rua responsável pela organização do Festival do Rio. Foi extremamente importante porque era o principal lugar do cinema independente brasileiro. Tínhamos contato com todos os filmes que chegavam, brasileiros ou estrangeiros. A minha formação vem de assistir muito filme. É algo que me preocupa sobre as novas gerações. Quando paramos para conversar, dar uma aula, e você fala para um deles: “O filme que você está querendo fazer é muito parecido com o filme tal”. E a maioria nunca viu o tal filme, sabe? Isso é muito preocupante, porque o cinema que você produz reflete o seu repertório, os filmes que você assistiu.

Como vocês faziam para chegar nos jovens da periferia, que era o foco do Cinema Nosso?
Cidade de Deus foi um dos filmes mais importantes daquela época, o que gerava uma procura quase que automática dos jovens da periferia que queriam ser atores ou famosos. Só que nunca trabalhamos com formação de atores. Eles vinham buscando uma coisa e encontravam outra. No início foi assim. Depois a escola acabou criando um certo nome. Hoje há uma procura muito grande não só de jovens do Brasil, mas de outros países.

A Jabuti Filmes entra nisso como uma forma de produzir isso tudo?
Quando o Cinema Nosso nasceu não tínhamos a intenção de criar uma escola, salvar os jovens e o mundo. Queríamos salvar as nossas vidas. Era um bando de jovens de periferia, que se reduziu a um grupo de cinco pessoas, e nesse momento queríamos trabalhar. Não tinha uma relação institucional. Nós trabalhávamos nas produtoras e nos encontrávamos no fim de semana para realizar projetos juntos. O que aconteceu foi que começamos a fazer filmes próprios. E surgiu a necessidade de criar uma empresa. No início, eram jovens fazendo filme, depois foi formalizando, crescendo a exigência de qualidade, e passamos a criar uma relação empresarial. A produtora viveu muito tempo de filme institucional e, hoje, temos conseguido manter uma receita razoável através da produção de séries para TV e de algumas co-produções internacionais. Empresas dos EUA e Inglaterra são nossos maiores parceiros comerciais.

Falando em série para TV, queria falar um pouco sobre Minha Rua. É uma das equipes com maior representatividade negra da televisão…
Acredito que é a maior equipe negra de produção de série para televisão. Tiramos uma foto da equipe e éramos quase 90% negros. Fazer isso só é possível porque a produtora acaba investindo parte da receita na formação desses jovens pelo Cinema Nosso. O Rio de Janeiro é uma cidade muito negra. E o cinema não reflete essa realidade, então isso sempre foi uma busca muito grande nossa. “Cidade de Deus” talvez tenha o maior elenco negro do cinema nacional. Isso, de alguma maneira, acabou fazendo com que muitas pessoas seguissem na área depois. Houve uma mobilização muito grande, não só por nossa interferência direta, mas através de organizações do Brasil inteiro, na época da gestão do ministro da Cultura Gilberto Gil, de incentivo a essas ações populares de formação audiovisual, aumentando significativamente o número de negros trabalhando no mercado audiovisual. O Cinema Nosso seguiu com essa orientação e, naturalmente, o Minha Rua é uma equipe formada por negros.

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