Entrevistas

“Abrindo o Armário” estreou no penúltimo dia de FAM

Dario Menezes no 21º FAM
Dario Menezes no 21º FAM

Jornalista, integrante do grupo de teatro e dança brasileiro Dzi Croquettes na década de 70, dono de discoteca e, atualmente, diretor de cinema Dario Menezes estreou o documentário “Abrindo o Armário” no 21º Florianópolis Audiovisual Mercosul, no sábado (24). Dario conta que exerceu o jornalismo, como editor de telejornais e programas de TV, por mais de 20 anos e descobriu que tinha vontade de contar histórias mais longas. O sentimento de fazer fluir algo maior, defender uma ideia, um projeto, o fez migrar de um editor de TV para a função de diretor de documentário. O estreante do FAM é apenas o primeiro projeto, mas tem muitos outros acontecendo.

FAM: Qual era expectativa ao fazer esse filme e como foi ver a estreia no FAM?
Dario Menezes: Eu fico muito feliz e orgulhoso de o filme estrear no FAM que faz ligações e traz realidades que são visíveis para todos, mas que muitas vezes nós ignoramos. Existe um movimento forte de talentos que estão surgindo em diversos lugares e é muito importante ter um festival que dê luz para esse movimento criativo da produção audiovisual do Mercosul. É muito relevante para a cultura e para o setor que o evento esteja acontecendo pela 21ª vez sem interrupção, mostra uma força que deve resistir sempre.

A expectativa é de ajudar o movimento a avançar cada vez mais, até o dia em que se pergunte se vai ter beijo gay na novela e a resposta seja que vai ter beijo. Não interessa se entre um homem e uma mulher ou se entre dois homens ou duas mulheres. Acabar com isso, com o estigma. Porque cada um sabe de si e a dor e o prazer de um não pode prejudicar a segurança e o conceito da sociedade que a gente chama de ‘careta’.

FAM: Como você construiu a ideia do documentário?
Dario Menezes: A ideia de realizar esse documentário nasceu há três anos, quando praticamente uma semana sim outra não havia uma manchete nas primeiras páginas dos jornais, noticiando avanços, vitórias e derrotas do movimento gay. No Brasil e no mundo, políticos e grandes empresários saindo do armário, assumindo-se publicamente sem nenhuma culpa, o sentimento que mais marcou e ainda marca gays e pessoas que têm a sexualidade (ainda) não convencional.
Inicialmente eu pensei em contar essa história através de imagens de arquivos, mas senti que iria sacrificar muito a espontaneidade da emoção dos meus personagens. Eu escolhi personagens que vão dos 20 aos 74 anos e que passaram por algum tipo de experiência que, de alguma forma, me representa. Então, para mim é muito importante exibir este filme, porque estou colocando a minha história, que não é única, é uma síntese que representa a história de cada um ou de várias pessoas que são gays, bissexuais, que fogem dessa normatividade sexual que dita parâmetros muito complicados. Eu tinha vontade de que a minha coragem pudesse fortalecer a coragem de outras pessoas, seja para tornarem-se ainda mais fortes ou para sair do armário, quem ainda estiver nele.

FAM: Além do sentido geral da expressão “Sair do Armário”, intrínseca ao título, qual é a origem da ideia do nome “Abrindo o Armário”?
Dario Menezes: O título é feliz porque transmite a concepção de abrir o armário não apenas para quem está dentro sair, mas para quem está fora poder enxergar quem está lá dentro, passando por uma dor muito grande. Um dos entrevistados do filme ilustra essa situação quando ele se questiona sobre ser gay e o porquê de não ser como os irmãos heterossexuais. Essa incompreensão ainda existe e, mesmo que algumas pessoas não enxerguem isso em um primeiro momento, há muita beleza nessa diversidade. Eu quis, com este título, que as pessoas de fora do armário, que não se enquadram nessa diversidade sexual, possam enxergar a comunidade LGBT com um pouco mais de tolerância e sabedoria, permitindo que a liberdade delas não agrida o seu conforto pessoal.

FAM: Um dos entrevistados do filme disse que na década de 70, na época da Dzi Croquette, a sexualidade aflorava de forma mais orgânica, vinha naturalmente. Atualmente as pessoas estão demandando mais explicações e justificativas sobre a sexualidade umas das outras?
Dario Menezes: Eu acho que o mundo encaretou de uma forma muito radical. O movimento gay começou em junho de 1968 com a ‘Revolta de Stone Wall’, em Nova Iorque. Foi a primeira vez que, no mundo ocidental, um grupo de gays se revoltou contra a violência policial e política. As pessoas foram conquistando sua liberdade no grito e na raça. Era mais fácil. Havia algumas reações, mas era mais natural. Não havia tanta violência, nem se matava tanto os homossexuais. Por outro lado, essa mudança é normal, porque enquanto você está na sombra, você não incomoda, mas quando vem para a luz para dizer “estou aqui, exijo meus direitos e quero ser feliz”, você começa a incomodar e também surgem forças contrárias que tentam abafar isso tudo.

FAM: Como foi fazer esse filme, em uma época tão reacionária no Brasil?
Dario Menezes: A coisa que eu mais ouvi até hoje, a respeito do filme, foi “Parabéns pela coragem, pela forma lúcida com que você mostra o direito das pessoas, mesmo dos grupos mais oprimidos, de periferia, até os grupos de classe média alta se afirmarem”. Ter dado voz a isso tudo é algo que me emociona a cada momento. Eu me emocionei várias vezes ao longo do processo. Eu acho que foi um ato de coragem que eu não sei de onde eu tirei, mas eu fico feliz com o resultado.

FAM: Você faz questão de citar a AIDS no filme. No mundo moderno, como está a relação das pessoas com a doença?
Dario Menezes: A chegada da AIDS no início dos anos 80 é o fator que faz com que tudo seja reprimido de novo. A partir desse momento até a chegada do coquetel antirretroviral, que acontece em 1996, os gays ficaram como responsáveis pela disseminação de uma epidemia que não tinha cura e pagou-se um preço muito alto por essa responsabilidade. A AIDS como diz um dos personagens, fez o mundo brochar, mas o coquetel fez renascer e, aos poucos, acho que isso vai deixando de ser manchete de primeira página, para ser uma notinha lá dentro do jornal ou uma pequena nota dentro do telejornal ou dentro da internet. A doença já não é mais protagonista da nossa história.

O FAM 2017 tem o patrocínio Funcultural/ Fundação Catarinense de Cultura, Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esportes, Governo do Estado de Santa Catarina, da Petrobras e do Governo Federal, com apoio da Secretaria de Cultura e Arte da Universidade Federal de Santa Catarina e realização da Associação Cultural Panvision.

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