Entrevistas

Documentário: uma interpretação da realidade

Foto: Marino Mondek
Foto: Marino Mondek

Não é somente no Doc-FAM que a produção documental está presente no 21º Florianópolis Audiovisual Mercosul - FAM 2017. Neste último dia de evento, o documentarista e montador Piu Gomes assume a missão de conduzir a oficina de “Documentários para realizadores”.

O ministrante é montador cinematográfico há 32 anos. Dirigiu e montou "Zé[s]", documentário vencedor como Melhor Documentário do Festival de Brasília 2010, e "Chacal Palavra Filme", documentário premiado no Festafilm Montpellier 2015 e no FAM 2016.

Durante esta entrevista, o Piu Gomes comenta alguns temas atuais no mundo do cinema de não-ficção, como o conceito de dispositivo cinematográfico, e discute sobre a realidade e a autoria na produção documental.

Podes explicar o conceito de dispositivo cinematográfico?
Descobri um texto do Cezar Migliorin onde ele chama de dispositivo o fato do cineasta propor uma ação e essa ação virar um filme. Sem essa ação o filme não existiria. Esta ação é fora do controle do diretor, porque ele propõe, mas não sabe o resultado. No texto, é citado o exemplo do filme do Cao Guimarães, Rua de Mão Dupla, em que o dispositivo do Cao foi tirar uma pessoa de dentro da sua casa e levar outra pessoa para dentro dessa casa. Essa outra pessoa filma a casa desse estranho tentando descobrir quem é o estranho. É um filme que não existe sem a proposição dele e ao mesmo tempo é algo que sai de controle. O Zé[s], por exemplo, que é o meu primeiro filme, não é um filme de dispositivo, mas ele tem um dispositivo.

O quanto o documentário tem de nós e reflete a nossa autoria?
Documentário é subjetivo, sempre. Não existe verdade, existem várias. Por ser uma obra cinematográfica, a questão da autoria tem que existir. Mesmo que você não queira ser autor, você é. Você elege um recorte, escolhe qual tema vai abordar e de que maneira você vai abordá-lo, ou seja, isso não é o real que existe por si só. Não. É alguém contando uma visão da realidade para você.

Qual a tua concepção de documentário?
Uma interpretação da realidade feita por um indivíduo que acha que tem que interferir naquela realidade de alguma maneira.

Quando nos referimos a produção documentário costumamos falar em cinema de não ficção, mas cada vez mais esta linha entre ficção e não-ficção está tênue e até inexistente, não?
Uma obra prima para mim é justamente Jogo de Cena, do Coutinho. Chega um momento em que você não sabe se é uma atriz interpretando uma história, uma atriz contando a própria história, se é uma personagem contando a história de outro personagem, mas, de alguma maneira, tudo aquilo passa como uma realidade. Nada daquilo é falso. A ficção também não deixa de ser realidade. Ela só tematiza as coisas. O documentário e a ficção, o próprio dispositivo, não são os documentários tradicionais que estamos acostumados. O filme em primeira pessoa é uma das das tendências recentes no documentário. É quase um diário, você contando a sua própria história. As coisas se aproximam. Primeira pessoa não significa exatamente primeira pessoa. Guarnieri, por exemplo, partiu da experiência pessoal do diretor, não é que nem Passaporte Húngaro da Sandra Kogut em que ela quer tirar um passaporte e filma esse processo.

A sua experiência em montagem influência no seu papel de diretor?
Claro, sem sombra de dúvida. Quando alguém vem da ilha de edição tem um olhar um pouco mais seguro sobre o que monta. Algum diretor que não tem muita noção de montagem pode filmar muito, porque ele fica inseguro sobre ter ou não o que ele precisa. Quando você vem da montagem você já sabe isso. Em alguns trabalhos de direção que eu fiz para o mercado, que tinha essa pegada documental, tinham personagens que eu desistia, porque não iria ficar o dia inteiro tentando arrancar algo de alguém que eu sabia que não iria me dar. Tentava até o ponto em que percebia que o personagem não servia para explicar determinado conceito. Ele aparecia em algum momento, mas eu precisava de outro personagem para trabalhar o conceito que ele não me deu. Você filma montando.

O FAM 2017 tem o patrocínio Funcultural/ Fundação Catarinense de Cultura, Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esportes, Governo do Estado de Santa Catarina, da Petrobras e do Governo Federal, com apoio da Secretaria de Cultura e Arte da Universidade Federal de Santa Catarina e realização da Associação Cultural Panvision.
 

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