Entrevistas

A revolução tecnológica e a realização audiovisual

Foto: Daniel Guilhamet
Foto: Daniel Guilhamet

Como será a distribuição no setor audiovisual daqui em 2030? Quais as mudanças trazidas pelas plataformas de vídeo sob demanda? Há um crise no setor cultural brasileiro? O cineasta e professor da Universidade Federal de São Carlos, João Carlos Massarolo, palestrando do 21º Florianópolis Audiovisual Mercosul responde a estas e outras questões com base nas suas pesquisas em narrativa transmídia. Confira:

Atualmente, os realizadores culturais reclamam de uma crise no setor no Brasil. Você, no entanto, fala de uma abundância de produções nas plataformas de vídeo sob demanda. Parece um paradoxo, não?
Existe uma crise no setor muito específica: a da produção cultural que demanda um investimento estatal. Esse modelo, principalmente com a atual situação do governo brasileiro, pode estar em crise. Por outro lado, nunca houve uma época como essa quando se trata de possibilidades e abertura na produção audiovisual para você inscrever um projeto e ser aceito nas televisões, plataformas de vídeo sob demanda, redes sociais e etc. Com a lei da TV a cabo tivemos um boom gigantesco. As antigas produtoras de cinema acabaram abrindo departamentos para atender as demandas da televisão. Se você tem um projeto de seriado e tiver qualidade, eles vão comprar. Se você é uma produtora audiovisual com projeto inovador há procura. É no entretenimento que este campo está se ampliando e que as oportunidades estão surgindo, mas nós não sabemos pensar o entretenimento. Parece que temos uma visão negativa sobre ele, mas ele é educativo e não podemos ter preconceitos. Quem atua nesse campo tem muitas opções de trabalho, mas tem que aprender algo que vai além do processo criativo. Tem que ter uma dinâmica que altera, inclusive, a formação dos jovens hoje. Lamento muito que as escolas de cinema do Brasil ensinem muito uma produção autoral. Você sendo autor do seu projeto. Até aí tudo bem, mas quando se coloca a ideia de autoria como sendo algo distante e diferente do comercial, do autor sendo aquele que não está na sala comercial, você afasta o jovem do mundo. Ser autor dentro dessa concepção não cabe no entretenimento. A única definição que eu tenho de autoria é uma pessoa entretida, alguém que se diverte no processo criativo. Isso contribui para que os jovens se sintam em crise, muito mais do que a falta de demanda.

É possível que os próprios centros de formação não tenham visto essas mudanças acontecendo?
Viram, mas a ideologia não quer olhar o presente. A ideologia é um discurso que serve como defesa diante daquilo que está mudando. Nós vemos as mudanças, mas temos medo de encarar. No caso do audiovisual brasileiro, por algum mecanismo e talvez por um excesso de centralização no comando dos debates, essa discussão está parada porque há um receio de que se começarmos a conversar a minha segurança estaria em perigo. Vai que, de repente, você é um interlocutor com ideias muito inovadoras e tenha uma importância grande para o que faz sentido hoje? As decisões do cinema brasileiro são tomadas por uma classe cinematográfica isolada do processo da revolução. Ela precisa se abrir e buscar os parceiros e o futuro do audiovisual, que são as empresas de tecnologia.

Então essa revolução foi causada pela tecnologia?
Sim, a convergência tecnológica trouxe na parte de produção essa infraestrutura digital, que é de uma complexidade absurda. No plano econômico, as empresas de tecnologia perceberam que você o audiovisual tem todo o dinheiro do marketing e da propaganda da televisão, por exemplo. Para o Google e o Facebook é muito mais interessante invadir o campo do audiovisual para se tornarem a nova plataforma, porque é ali que está o dinheiro. O futuro são as startups audiovisuais, que é a junção dos modelos de negócios das startups com o audiovisual. Você vai começar a ter jovens pensando em plataformas e conteúdos dentro das redes, quer dizer, vão começar a fazer uso dessa infraestrutura digital. A mudança que não estamos enxergando é esse caminhar do audiovisual em direção a esse campo com estrutura digital e tecnológica. As empresas de tecnologias são hoje produtoras de audiovisual e a maneira de nós, produtores de conteúdo, garantirmos o nosso espaço é começando a pensar como as startups funcionam e incorporar esse modelo de negócio. Precisamos começar a produzir dentro desse campo. Não podemos viver isolados desse processo. Não há outro caminho. É no audiovisual que o empreendedorismo e a inovação encontram o seu momento de economia criativa.

A partir dessa visão, como você vê o audiovisual daqui 10 anos?
Até 2030 essas plataformas de distribuição de conteúdo sob demanda vão se consolidar. Quando este novo modelo de produção estiver consolidado, vamos poder visualizar o futuro. É como a chegada da televisão, enquanto não socializou no país inteiro, ainda não sabíamos o que viria depois. Eu brinco que essas plataformas são como aquelas inteligências artificiais, vamos viver ao redor delas. Vamos viver de conteúdo. Vamos interagir dentro desse ambiente e construir o mundo que queremos e ficaremos cercados por ele, inclusive com momentos holográficos onde esse mundo se materializa. Não vamos ter o conteúdo dessa forma linear que estamos acostumados. Se você acessar a uma novela na Globo Play hoje, vai poder acompanhar a trajetória de uma personagem. Se for mais longe, poderá acompanhar a personagem pelo cabelo que o ator/atriz está usando ou pela roupa. A Globo se interessa mais por esses detalhes do que pela audiência da TV aberta. Esses detalhes tem uma influência muito grande. O que vamos viver daqui a pouco será assim. Você escolhe o personagem, vive o filme como você quiser e ignora o resto.

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