Entrevistas

O cinema brasileiro perdeu contato com a própria cultura

Maurice Capovilla recebe homenagem do 21º FAM
Maurice Capovilla recebe homenagem do 21º FAM

Um dos homenageados do 21º FAM, o ator, produtor, roteirista e diretor Maurice Capovilla conversou com o jornalista argentino Juan Cinelli sobre o atual cenário audiovisual do Brasil e as produções dos profissionais que estão chegando no mercado de trabalho. 

Entrevista especial por Juan Cinelli, jornalista argentino

Juan Cinelli: Como você vê, de que forma a primeira geração do Cinema novo parte para o cinema contemporâneo brasileiro?
Maurice Capovilla: O cinema brasileiro perdeu contato com a própria cultura. Isso é o que representa a globalização, que permite que estreiem mais filmes estrangeiros que brasileiros. Como ocorre no resto do mundo, aqui também domina o cinema norte-americano e a contracapa é que no Brasil se filmam muitos filmes, mas se estreiam poucos. Perde-se muito, muito tempo tratando de encontrar uma possibilidade de exibição.

Juan Cinelli: E qual é a consequência que esse cenário provoca na cultura brasileira?
Maurice Capovilla: Uma degradação da própria identidade: vamos perdendo a língua, nossa linguagem. Mas existe outro problema, que é o da formação de novas gerações. Nós montamos duas grandes escolas fora dos grandes centros capitalistas do Rio de Janeiro e de São Paulo, e também fora de Brasília, mas ambas foram destruídas. Uma funcionou entre 1996 e 1999 no estado do Ceara, no Nordeste, onde se propunha uma formação em cinema que se incluiria a dramaturgia, o desenho e a música como núcleos fundamentais de aprendizagem. A outra funcionou durante quatro anos e meio e produziu 65 filmes, sempre por fora do panorama geral e com pouca divulgação. Nessa escola os alunos deviam passar por todas as áreas da produção, antes de escolher a área especifica do cinema que desejavam se desenvolver.

Juan Cinelli: O trabalho de formar cineastas parece apaixona-lo. Se você tivesse que escolher, qual de seus trabalhos acredita que contribuiu mais com o cinema do seu país, com sua obra como cineasta ou seu trabalho como mestre de cinema? Acredita que algum tenha sido mais importante que o outro?
Maurice Capovilla: As duas coisas são importantes, porque um cineasta deve ter a visão de buscar o novo, a criação. Um artista tem a possibilidade de criar algo novo, algo diferente, fora do que já existe. Creio que o mais importante é estar sempre atrás do desafio de encontrar o novo. E isso é o que tentamos desde as escolas que fundei. A última delas funcionou até 2012. Eu queria que as duas continuassem e servissem para formar mais cineastas, tanto no técnico como no artístico, mas no foi possível.

Juan Cinelli: Não existem políticas do estado para sustentar escolas deste tipo?
Maurice Capovilla: Não, e é cada vez pior. A cultura está cada vez mais desestruturada. Além disso, em geral, a escola de cinema está mal orientada. Nela ensina-se fotografias de um lado, som do outro e escrita de roteiro do outro. Mas trabalhando no cinema, a pessoa deve ter, sobre tudo, uma ideia de equipe, de conjunto.

Juan Cinelli: Então o trabalho do diretor radica em conhecer de que forma funciona cada parte do conjunto.
Maurice Capovilla: E desse conhecimento tem que surgir não apenas um técnico, mas também um artista. Mas agora o sistema produz individualistas que sabem fazer apenas o que lhes tocam e não conhecem nada do trabalho dos outros. O resultado disso é péssimo. Os filmes que fazem atualmente no Brasil estão feitos de maneira exibicionista, copiando sempre modelos alheios e os diretores jovens terminam fazendo filmes sem sentido.

Juan Cinelli: Por que você diz que não tem sentido?
Maurice Capovilla: Porque lhes falta capacidade de produzir com profundidade. Não existe busca, não existe pesquisa e nunca se permitem sair do universo do que já conhecem. Não inventam. Esse é um dos motivos pelos quais, há mais de 10 anos, poucos filmes brasileiros conseguem chegar aos grandes festivais de cinema.

Juan Cinelli: Não há nenhum diretor jovem que tenha te surpreendido?
Maurice Capovilla: Talvez. Mas repare que houve somente um diretor que conseguiu chegar a um grande festival, que é Kleber Mendonça Filho com Aquarius, que passou com muito êxito pelo Cannes o ano passado. Entretanto não se trata de um filme excepcional, não tem nada fora do comum, se não que é apenas um filme que conseguiu impactar a um público grande.

Juan Cinelli: Mas há vários diretores brasileiros que conseguiram triunfar no mundo como Fernando Meirelles, Walter Salles...
Maurice Capovilla: Mas esses não são diretores jovens. Eles são de uma geração que foi jovem nos anos 80. Também Vladmir Carvalho, que é um documentarista fantástico. Eles já são grandes. Eu falo da geração que produziu 160 filmes o ano passado. Filmes que não se exibem e que com sorte terminarão na televisão.

Juan Cinelli: Você mencionou a Birri e eu gostaria de perguntar do seu vínculo com o cinema argentino.
Maurice Capovilla: Não sou um especialista, mas o cinema argentino dá um baile no cinema brasileiro, como se costuma dizer no futebol. O cinema argentino conseguiu resolver o problema de vender seus filmes fora do país. Argentina tem uma visão muito mais nova do cinema do que a que se tem no Brasil e além disso tem um sentido, uma forma de ver o mundo que chama a atenção. Em contrapartida não encontro esse sentido no cinema brasileiro. É impossível comparar o cinema argentino com o nosso, porque o argentino está muito à frente.

Juan Cinelli: E qual você acredita que seria a forma de solucionar estes problemas que vês no cinema brasileiro?
Maurice Capovilla: Depende da própria sociedade. O Brasil está em uma decadência total, em um conflito muito sério e não estou falando somente de cinema. Creio que os cineastas brasileiros devem deixar de olhar o distante para viajar pelo país em busca de temas mais ligados a vida. E é aí onde eu volto a ver uma falta de escolaridade, uma falta de formação.

Juan Cinelli: Não se trata então de uma falta de meios de produção, se não de um defeito artístico.
Maurice Capovilla: Isso mesmo. Produzir se está produzindo muitíssimo. Mais do que o necessário, porém filmes que não tem nada dentro. Coisas que já foram inventadas faz muito tempo, meras cópias.

Juan Cinelli: E como você vê seu próprio futuro como cineasta?
Maurice Capovilla: Qual é meu futuro? Nenhum! (Risos) eu gostaria de poder encontrar um lugar para exibir meu último filme, “Nervos de Aço”, que é um musical, mas parece que os brasileiros já não gostam mais das músicas. Talvez na argentina.

O FAM 2017 tem o patrocínio Funcultural/ Fundação Catarinense de Cultura, Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esportes, Governo do Estado de Santa Catarina, da Petrobras e do Governo Federal, com apoio da Secretaria de Cultura e Arte da Universidade Federal de Santa Catarina e realização da Associação Cultural Panvision.

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