Entrevistas

Legendas, recurso pra desvendar um filme

Cesar Alarcon
Cesar Alarcon

O peruano César Alarcón, jornalista, tradutor e intérprete de inglês e espanhol, desde 2005 é o responsável pelas legendas eletrônicas dos filmes do FAM e de algumas das principais mostras e festivais do Brasil e do exterior. Além de trabalhar com a tradução e a legendagem dos filmes de mais uma edição do FAM, realizou nesta quarta uma oficina especial de tradução audiovisual para legendagem de filmes, para estudantes e profissionais na área, que também treinaram o funcionamento de recursos de acessibilidade.

Pergunta - Como você começou com esse trabalho fundamental pro audiovisual e como foi a oficina?
César Alarcón -
Venho de uma experiência no audiovisual desde 1992, não necessariamente com legenda, e em 2000, quando voltei da Europa, vi que o mercado brasileiro estava precisando desse serviço, havia muitas mostras e festivais e passei a me dedicar a isso. Não tinha ainda uma especialização no assunto, minha formação não é de Letras, e sim de Comunicação Social, com pós-graduação em Cinema, então fui aperfeiçoando a técnica em mostras no Brasil e fora. Sem a legenda como as pessoas vão assistir um filme estrangeiro? O público fica meio perdido. Então meu papel aqui é fazer com que o público participe mais e saiba o mecanismo de como a legenda chega na tela.

Pra se dedicar ao mercado de legendas ou de tradução audiovisual, seja pra legendas ou dublagem, tem que ter sensibilidade, você lida com um público muito amplo, com necessidades variadas, e as pessoas desconhecem como funcionam as legendas, como elas chegam até a tela da TV, do cinema, e não imaginam o quanto isso é complexo. Por isso a necessidade de querer aperfeiçoar essas técnicas, no sentido de passar esse conhecimento que está sempre evoluindo, acompanhando as novas tecnologias.

Pergunta - E como funciona a legenda eletrônica?

Alarcón - A legenda eletrônica alivia em termos orçamentários os festivais, e também é um serviço mais prático, que não demanda tanto tempo de traduzir, marcar o filme, ao contrário do processo mais demorado que resulta na legenda queimada que vemos no cinema. Em festivais normalmente não há tempo hábil pra isso, são muitos filmes pra traduzir, às vezes de um dia pro outro. A legenda eletrônica não tem muito contato com o filme, é projetada separadamente numa tela anexa embaixo. O que é bom pra alguns diretores que não querem seu filme “poluído”, com interferências.

É um trabalho artesanal, feito ao vivo, a legenda é projetada em tempo real, o timming tem que ser certinho, numa sincronização quase que perfeita, com base no áudio de um idioma que às vezes você não fala, como japonês ou árabe, tem que ter uma sensibilidade grande pra que as legendas em português casem certinho. Às vezes acontece um delay, pequenos atrasos, mas o expectador não percebe. É gostoso, porque quem trabalha com isso tem um contato direto com a sala de cinema, com todo o equipamento. Antes disso tem um tradutor, que virou noite, há todo um trabalho por trás da legenda eletrônica que fica muitas vezes esquecido e não valorizado. O tradutor acaba se envolvendo com a história e antes de mais nada tem que se colocar no lugar do expectador, pensar como ele vai reagir, às vezes o filme não é tão bom e a legenda é boa, dá um upgrade no filme.

Fale mais da tua relação com o FAM e outros festivais de cinema.
Alarcón - Tenho uma parceria com o FAM desde 2005. O tradutor audiovisual sempre fica meio escondido na sala de cinema, muitas das legendas que estão na tela foram geradas por mim, uma tradução feita ao vivo, inclusive. É um trabalho gostoso de se fazer, pra quem lida com audiovisual é muito gratificante encontrar o público, estar dentro daquele ambiente, literalmente, ver que o público está curtindo o filme, as legendas vêm pra ajudar a fazer com que o filme fique melhor ainda.

No FAM traduzo quase todos os curtas e longas, até 350 filmes em eventos maiores, num prazo recorde, de uma, duas semanas. É corrido, mas é gostoso, tem que gostar de cinema, tem que ler, ter que ter uma cultura geral pra estar sempre antenado com o que está se passando no mundo. Legenda é cultura.

E você lida com um universo de histórias e linguagens diferentes com tradução.
Alarcón - São muitas temáticas, muitas histórias, diretores diferentes, propostas diferentes, já traduzi de tudo nessa vida. E o trabalho não é limitado, o tradutor tem que ter uma visão aberta pra traduzir todo tipo de linguagem, se despir de pudores pra traduzir todo tipo de cena, saber que o que ele tá fazendo tem como propósito chegar ao expectador de forma que ele não se questione, apenas curta o filme com as legendas para poder entender. Legenda é cultura, o tradutor tem que ter consciência que esse produto vai para um público que tem como único propósito curtir o filme.

Pergunta - E quanto aos recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência?

Alarcón - Essa questão é muito presente no Brasil, temos diferentes recursos para pessoas com deficiência auditiva ou visual. Este encontro foi de 4 horas, pouco tempo pra um universo muito grande de informações, mas serve para que o público saia daqui com uma outra visão e como um convite para buscar se especializar, para saber mais desse mercado no Brasil. À medida que os canais de televisão tendem a crescer, as emissoras, os programas, as legislações se ampliam. Hoje é lei que uma parte da programação seja legendada, dublada com legenda acessível, tudo isso cria uma necessidade grande, as legendas vieram pra ficar.

O FAM 2017 tem o patrocínio Funcultural/ Fundação Catarinense de Cultura, Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esportes, Governo do Estado de Santa Catarina, da Petrobras e do Governo Federal, com apoio da Secretaria de Cultura e Arte da Universidade Federal de Santa Catarina e realização da Associação Cultural Panvision.
 

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