Entrevistas

O espaço do som da música na narrativa cinematográfica

Livio Tragtenberg - Foto: Daniel Guilhamet
Livio Tragtenberg - Foto: Daniel Guilhamet

Um dos mais importantes compositores do cinema brasileiro, o músico paulista Livio Tragtenberg participou na manhã desta sexta-feira no Fórum Audiovisual Mercosul com o painel “Trilha sonora no cinema”. Na palestra que teve mediação do músico e filósofo catarinense Nestor Habcok, Tragtenberg sobre a sua experiência como criador audiovisual, sua trajetória no cinema, as dificuldades, as parcerias com os diretores, mostrou algumas de suas obras e sobre como foi o processo criativo de cada uma delas.

Na entrevista abaixo, Tragtenberg fala sobre trilha sonora criativa e sobre como é o seu processo de criação:

Pergunta – A criação musical para cinema não se resume a uma descrição das cenas. Você defende uma trilha sonora criativa. Como fazer isso na medida em que você precisa também ajudar a contar uma história?
Livio Tragtenberg –
A ideia de trilha criativa implica encontrar uma linha narrativa para a música dentro do filme, das imagens, dos diálogos, do corte, da montagem. É não deixar a trilha sonora sem uma linha narrativa própria. É aquela conta de uma mais um igual a três. Se a música vem só ilustrando, um mais um é igual a um. Se a trilha falar a mesma coisa que a imagem já está falando, que os diálogos estão falando, ela é apenas um objeto decorativo. Ela pode ser muito mais. Ela pode levar o espectador a criar camadas de entendimento e percepção sensorial da cena. O cinema tem um lado sensorial muito forte, pela própria escala de imagem, pelo envolvimento das pessoas na imersão da sala escura. Quando eu falo em trilha sonora criativa, digo daquela que traz mais um ponto de vista para aquela cena, para aquele momento do filme, que acrescenta mais uma linha narrativa, e não apenas reforça o que já existe.

Pergunta – Aí você se refere àquela trilha que induz a emoção do espectador, e não o surpreende?
Tragtenberg –
É o que a gente chama de meteorologia musical, fazer um clima, um suporte quase que ilustrativo. Mas a trilha que prepara o espectador pode ser muito interessante. No cinema de suspense, uma das funções da trilha sonora é, às vezes, preparar o espectador para uma pista falsa. Também criar uma expectativa sobre aquilo que vai vir, a imagem que vai vir. No gênero de suspense, a trilha sonora é essencial como elemento narrativo. Basta ver os filmes do Hitchcock, onde a trilha tem uma força narrativa extrema, como em Os Pássaros e em Psicose. Ela tem uma presença ativa na narrativa, e não só passiva. Não aquele tipo, numa cena emotiva, agora vamos ajudar a fazer o público chorar. Ela pode também ter essa função, não estou aqui colocando um juízo de valor, porque depende muito de cada filme. Mas eu acredito que a trilha sonora no cinema, o som de um modo geral, pode ser muito mais rico muito mais estimulante para a construção da narrativa, do que apenas um a reboque das emoções da imagem e dos diálogos.

Pergunta – Quando você vai compor uma trilha para um filme, como é o seu processo de criação?
Tragtenberg –
A primeira coisa que eu faço, depois de assistir ao filme, se ele estiver pronto, é descobrir qual é o espaço do som. Eu falo som, porque no som eu englobo tudo. Música e som estão juntos para mim. Tento encontrar qual é o espaço do som da música naquela narrativa. Se ele vai ser uma personagem, se vai ser uma narrativa paralela, se vai ser uma narrativa de reforço, se vai ser uma narrativa de suspensão. A partir daí, faço uma decupagem do filme em blocos, para poder ter uma visão geral. O filme é uma experiência que o espectador vai ter uma vez em tempo real, em 70, 80 ou 90 minutos. Tenho que trabalhar, também, essa memória do espectador ao longo do filme. Aí entra um certo mapa que eu faço da trilha sonora. E, junto com o diretor, vou traçando as recorrências, que é uma coisa importante, é o caso de ter um tema. Se o filme é baseado em uma personagem específica, talvez valha a pena fazer um tema para ela, que não necessariamente precisa ser uma música, pode ser até um ruído que a identifique. Se é interessante pela viagem da personagem ou pela viagem do local, ou da época. São camadas que a gente vai construindo, mas sempre com essa visão geral do filme. Se o filme tem 1h50min, eu vejo o filme como uma linha reta em que as recorrências da trilha vão ajudar o espectador a atravessar esse tempo de duração narrativa da forma mais rica possível.

Pergunta – De todas as trilhas que você já compôs, quais são as que lhe dão mais orgulho?
Tragtenberg –
Por mais incrível que pareça, foram as mais fáceis, quase que imediatas. Inclusive as que eu fiz sem ver o filme, que conversei com o diretor por telefone e mandei a música e ele colocou. Eu trabalhei com diretores muito diferentes, com o Júlio Bressane, com o Djalma Batista, a Tata Amaral, o Jean-Claude Bernardet, o Joel Pizzini, a Lucia Murat, e cada um tem uma característica diferente. O que me dá mais orgulho é quando alguém assiste ao filme, e depois fala para mim, “olha, aqui realmente a música me conduziu, me levou junto com a imagem”. Ou seja, ela não só deu suporte, mas colocou a coisa para frente. Essa é uma questão importante no filme. Como ele é feito de muitos cortes e de uma duração razoável, você precisa criar um ritmo também. É dentro daquilo que eu falo, nesse mapa geral que você faz, onde se faz meio que uma linha de tráfego da música, quando ela vai ter um impulso, quando ela vai ser mais reflexiva e quando ela vai ter essas recorrências.

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