Entrevistas

Um Guarnieri para todas as gerações

Francisco Guarnieri
Francisco Guarnieri

Francisco Guarnieri apresenta quinta-feira, 22, no FAM 2017 – 21º Florianópolis Audiovisual Mercosul, na Mostra DOC-FAM, o documentário sobre seu avô, o ator, diretor, dramaturgo e poeta Gianfrancesco Guarnieri, autor do clássico Eles não usam black-tie. Mais do que um refletir sobre a trajetória de uma das mais importantes personalidades da cultura brasileira da segunda metade do século 20, o filme de 72min ressignifica o Guarnieri (1934-2006) enquanto filho, pai e avô e a relação entre família e atuação política no país.

Chico morou em Florianópolis dos 14 aos 21 anos e, de certa forma, o documentário teve sua origem na Ilha, em suas conversas com a atriz Dália Palma, que trabalhou com Gianfrancesco no Teatro de Arena (encabeçou o elenco de O diário de Anne Frank), nos anos 1960, e que ao se aposentar veio também morar na cidade.

Na entrevista abaixo, na carona com o colega Paulo Clóvis Schmitz, do jornal Notícias do Dia, o cineasta e ex-aluno do curso de História da Udesc fala sobre o documentário Guarnieri e sobre o avô como ator político do país:

Pergunta – Entre os vários Guarnieris possíveis para o documentário, porque escolheste essa questão da família?
Francisco Guarnieri -
Quando o projeto ganhou o edital histórias que ficam, que foi o que financiou o filme. Na primeira conversa com os consultores, eles falaram que o projeto era legal, mas para uma série de 20 capítulos. Então, até para o começo da pesquisa foi importante achar o recorte do filme. E aí olhando para o material, pensando nessa linha de corte, sobre o que é bom e o que não é, ficou inviável, porque é muita coisa boa. Eu decidi deixar o recorte bem enxuto do filme, só tem duas entrevistas, com meu pai (Paulo) e o meu tio (Flávio Guarnieri, falecido em abril de 2016), falando sobre paternidade e engajamento. Então esse recorte foi importante para saber selecionar, entre tudo o que tinha de material, desde cenas de novela, entrevistas e filmes. O filme é muito sobre essa continuidade histórica do meu avô, do meu pai, para mim, e de como eu vejo essas relações familiares e políticas. A hora em que eu achei que devia fazer esse filme mesmo foi quando eu vi que através desse micro, eu conseguiria falar do macro. O que estava representado nele, no meu pai e no meu tio, até chegar à minha geração, estava falando também sobre o que aconteceu na nossa sociedade. A geração do meu avô, que viveu a época que antecedeu o Golpe de 1964, a geração do meu pai, que cresceu, que formou seu caráter, como ser-humano, sob a ditadura militar, e a minha geração, que está tentando entender as coisas que estão acontecendo no país.

Pergunta - Como conseguiste encaixar a dramaturgia do teu avô nessa relação?
Guarnieri -
A minha proposta sempre foi, até antes de haver esse recorte, eu iria construir o meu avô através das imagens públicas, de novela, tevê, de entrevistas. Como ele existe a partir disso, então a dramaturgia entrou naturalmente. Sem dar preferência se a entrevista dele era de natureza documental ou ele como ator, como dramaturgo. Ela entrou naturalmente nessa evocação da figura dele através da obra.

Pergunta - E de que forma entra a atuação política dele?
Guarnieri -
Isso é muito importante na gênese da ideia. Da oposição que eu fazia, adolescente, entre o meu avô, absolutamente engajado, e eu às vezes até cobrava do meu pai e do meu tio porque eles não eram como ele. O projeto nasceu também sobre como entender isso como um contexto social também. Como cada geração e se formou e sobre como uma produziu uma arte totalmente engajada e a outra não. Então a política é muito importante. Inclusive uase tudo que tem de arquivo do Guarnieri no filme tem um teor político. Até porque ele era um cara que falava muito pouco em entrevista pública de si ou de coisas pessoais. Ele sempre dava um jeito de levar para um discurso que ele achava importante, que ele achava relevante no momento. Esse engajamento é muito forte, o filme é muito sobre isso, sobre essa opção de dedicar a uma causa, sobre ter isso em primeiro lugar, fazer uma arte que está querendo dizer algo.

Pergunta - O Gianfrancesco é uma personalidade mais conhecida pela geração que viveu os anos de 1960 a 1990. Como é apresentar essa figura da política e da cultura brasileira à nova geração?
Guarnieri -
Não é o objetivo primordial, mas houve um momento em que eu me preocupei, e acho que o começo do filme ele até levanta essa questão do Guarnieri, até para as pessoas entenderem o que está sendo falado. Quem é essa pessoa, o que ela fez. Então acho que ele tem essa preocupação também de ser capaz de comunicar sobre o Guarnieri para qualquer pessoa , mesmo quem não tenha a menor ideia de quem ele seja. E essa coisa toda bateu muito com a obra dele, porque o Guarnieri sempre foi muito preocupado com essa ideia de paternidade na obra, uma paternidade não necessariamente de fato, mas geracional, de passar o bastão. E sempre muito do jovem. Acho que isso tem muito a ver com ele. Tentei um pouco nessas coisas ser fiel ao retratado.

O FAM 2017 tem o patrocínio Funcultural/ Fundação Catarinense de Cultura, Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esportes, Governo do Estado de Santa Catarina, da Petrobras e do Governo Federal, com apoio da Secretaria de Cultura e Arte da Universidade Federal de Santa Catarina e realização da Associação Cultural Panvision.

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