Entrevistas

Curta-metragem de animação tem estreia nacional no FAM 2017

Eduardo Reis (esquerda) e JP. Siliprandi (direita). Foto: Daniel Guilhamet
Eduardo Reis (esquerda) e JP. Siliprandi (direita). Foto: Daniel Guilhamet

Estreou nesta terça-feira no 21º Florianópolis Audiovisual Mercosul a animação Solito, do diretor Eduardo Reis. O curta-metragem, de 4 minutos, retrata uma pessoa em situação de rua que caminha pela cidade com sua única companhia, a Solidão, um monstro fantasmagórico que o segue por todo lugar. O diretor Eduardo Reis e o diretor de fotografia JP. Siliprandi falaram sobre a estreia nacional e contam como foi a recepção do público na Mostra Infanto-Juvenil.

Tratar o tema Solidão com crianças é muito interessante. De onde surgiu a ideia?

Eduardo Reis - No começo de 2015, surgiu uma vontade de fazer animação. Nos formamos no curso de produção audiovisual da PUCRS e tinha chegado a hora de fazer o trabalho de conclusão de curso. Eu reuni a equipe e juntos conversamos com os professores para ver se era possível fazer, porque a PUC nunca tinha trabalhado com animação. Nenhum professor tinha experiência com a área, eu também nunca tinha feito animação na vida. Só desenhava para mim. Fomos atrás, falamos com a coordenação do curso, procuramos consultoria com animadores já consagrados e decidimos encarar o desafio. Eu queria fazer algo simples, principalmente por nunca ter desenhado tanto na vida. Eu queria fazer à mão porque antigamente era feito assim e eu passar aquele trabalho para ver como era. Como tinha que ser algo simples, pensamos muito até chegar nessa contestação que eu já havia usado muito nessa vida que era do morador de rua e do cachorro. Nunca tem um morador de rua sozinho, sempre tem um cachorro do lado. Comecei a fazer uma interpretação lúdica sobre isso. "E se a gente desenhar a solidão acompanhando ele até ele encontrar o cachorro?" Aí começou todo o processo. Foi feito na mão, no papel, na mesa de luz. Tudo improvisado. Com cenário e maquete também. Gastamos R$ 200 com o filme. Foi a compra do papel, da caneta e do material para fazer a maquete.

Como foi o desafio de entrar no mundo da animação? Qual era a tua experiência?

Eduardo Reis - Eu tinha feito um documentário, que não tem nada a ver com animação. Um documentário sobre uma locadora pornô de Porto Alegre, era a maior locadora pornô da América Latina, a Zil Vídeos. Fiz outros trabalhos curtos, mas sempre quis fazer animação por desenhar desde criança. Sempre quis dar vida àqueles desenhos. Eu vi ali a oportunidade de me empenhar, fazer acontecer e ter a certeza se era na animação que eu queria seguir.

Como você vê o mercado de animação no Brasil agora?

Eduardo Reis - Eu vejo um mercado em ascensão. Tem mais campo na animação do que para live action. Vejo isso, porque para tudo você precisa de uma aliança, seja para animar um logo ou um curta-metragem. E tem muita saída. Em Porto Alegre tem estúdios muitos bons. Sempre tem trabalho e quem busque.

Qual era a expectativa para a estreia nacional?

Eduardo Reis - É uma honra muito grande estrear no FAM. Ainda mais sendo do lado de casa e podendo acompanhar o filme.

JP. Siliprandi - Eu particularmente não tinha me dado conta de que o público era só de crianças. Quando eu cheguei e vi o barulho das crianças eu pensei que seria muito legal. É uma Mostra Infanto-Juvenil, claro, mas de outros festivais que fui o público era composto mais por realizadores. Acredito que isso se encaixa muito na pergunta anterior que é da ascensão do mercado, porque teremos sempre crianças. Sempre há crianças querendo ver. O nosso filme é um pouco mais melancólico e conseguimos arrancar gargalhada das crianças.

Eduardo Reis - E é difícil uma criança parar para ver um curta live action, sabe? Parar para prestar atenção naquela gente falando. Desenho, não. É outra coisa. Eu quis fazer um desenho sem diálogos justamente para todo mundo entender. Quando começamos o projeto, estava com medo das pessoas não entenderem o que era o bichão que segue o morador de rua, mas fiquei feliz que entenderam. E toda vez que o cachorro foi exibido aparecia elas reagiram com um “Ahhhhh”.

JP. Siliprandi - Essa reação é um sentimento de pena, mas também de felicidade, porque agora ele não estava mais sozinho. E conseguir tirar isso de uma criança de 8 ou 9 anos, alguns até menos, é fantástico.

Sobre o financiamento das produções audiovisuais…

Eduardo Reis - Vejo muito o pessoal do cinema reclamando da falta de dinheiro, que realmente é um agravante na nossa profissão. Temos que ter dinheiro para fazer qualquer coisa, mas tu consegues fazer sim. Fizemos o Solito na garra, sem dinheiro, sem apoio. Não buscamos apoio de ninguém e fizemos. Nem a PUC deu muito apoio. E deu muito certo.

Como se deu a relação de vocês dois na direção e direção de fotografia?

JP. Siliprandi - Já éramos amigos há um tempo. E quando me convidaram foi porque tinha todo esse cenário da maquete, que eu achei muito interessante desde o começo: fazer animação a partir de fotos tiradas no estúdio. No grupo eles não tinham fotógrafo e eu topei. Foi uma diária no estúdio só. Foi o set mais tranquilo da minha vida.

O FAM 2017 tem o patrocínio Funcultural/ Fundação Catarinense de Cultura, Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esportes, Governo do Estado de Santa Catarina, da Petrobras e do Governo Federal, com apoio da Secretaria de Cultura e Arte da Universidade Federal de Santa Catarina e realização da Associação Cultural Panvision.

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