Entrevistas

Larfiagem, uma língua para criar um universo

A diretora Gabi Bresola e um dos personagens, nas filmagens
A diretora Gabi Bresola e um dos personagens, nas filmagens

Enquanto engraxavam sapatos e carregavam malas na estação de trem de Herval d'Oeste, crianças e adolescentes “larfiavam na grinfia” pra combinar preços dos trabalhos, brincadeiras e malandragens. A língua própria criada por eles décadas atrás, a Larfiagem, Grinfia ou Hervalês, que ainda é falada na cidade do oeste catarinense, é o tema do documentário Larfiagem, de Gabi Bresola, que estreia em Florianópolis no FAM, nos Curtas Catarinenses, dia 20, às 19h30.


Pergunta - Como foi resgatar essa história tão original?
 
Gabi Bresola - Acho que todo mundo que decide fazer algum trabalho artístico parte de alguma inquietação própria. Meu interesse por resgatar isso foi por, justamente, conviver com essa língua durante minha adolescência e achar incrível, sem saber de onde ela vinha. Dificilmente a gente consegue notar como as histórias que estão bem perto da gente são boas. A ideia de fazer algo com essa história foi depois de ter saído de Herval, quando contei para alguns amigos de Florianópolis, e todos ficavam intrigados, querendo saber mais. A ideia inicial era um livro, mas como meu envolvimento com cinema era maior, optei por um documentário.
 
Pergunta - Que condições havia em Herval d'Oeste que inspiraram a criação da língua?
Gabi - O contexto em que a língua surgiu foi nos arredores da estação. Nos anos 1950, a linha conectava o sul com São Paulo, passageiros e cargas passavam por Herval d'Oeste diariamente. Em cada parada se misturavam os falantes do trem com os colonos que viviam em Herval, em sua maioria italianos e alemães. Assim, a estação era o espaço principal em que as crianças ficavam para carregar malas, engraxar sapatos, reservar lugares para os passageiros, conviver com o movimento de pessoas que a parada do trem provocava. Muitos me contaram que brincavam no campinho de futebol ali perto, tomavam banho no rio, que era tudo perto da estação, corriam quando o trem chegava e reconheciam o maquinista pelo apito do trem.
 
Esse convívio misturava crianças que não tinham condições financeiras com outras em melhor condição. Nesse convívio e nesses pequenos trabalhos que faziam, ganhavam uns trocados. Parte dos meninos ajudava em casa, e os demais compravam gibis e iam ao cinema. Os adultos e fiscais da estação se incomodavam com a presença das crianças, pelo perigo de estarem correndo ao lado do trem e se misturarem aos trabalhadores oficiais. Para driblar os fiscais, a polícia e até os viajantes, as crianças começaram a desenvolver uma língua própria, para não ser entendida por ninguém. Foi mais ou menos por todas essas influências que, de modo orgânico e inocente, essas crianças de 7 a 14 anos criaram a língua, reconhecida por um conceito da sociolinguística como criptoleto.
 
Pergunta - E como foi produzir o filme?

Gabi - Comecei a produção em 2014, foi a primeira vez que pude fazer um trabalho com equipe, em que cada pessoa estava exercendo uma função específica, mais profissional. Já havia trabalhado em equipe, fazendo parte e executando o que a direção propunha. É muito difícil equilibrar muitas pessoas para uma única proposta artística que é sua. Eu me propus a tentar deixar a equipe também aberta para criar comigo. Depois do material gravado, percebi a diferença entre gravar vídeo nas artes visuais (que é minha área de formação) e no cinema. A direção precisa ter pulso firme. Acho que minha inexperiência na direção mudou o rumo do que eu pensava que o filme poderia ser.
 
A edição foi um processo superlegal em que pude contornar algumas insatisfações e ter certeza que o acaso, a escuta e o tempo são elementos muito importantes para se pensar num documentário, que depende muito mais do que os personagens e do que o tema vai propor do que o diretor quer que seja. Produzi o Larfiagem com o Prêmio Catarinense de Cinema, um edital que propicia pagar a produção, isso foi ótimo no sentido de facilitar nossa pesquisa e gravação no interior do estado.
 
Pergunta - Como é estrear no FAM e como vai ser o lançamento do DVD?
 
Gabi - Estrear no FAM é bem especial pra mim. Comecei a trabalhar com cinema em 2011, na Cinemateca Catarinense e com alguns produtores independentes. Uma das primeiras coisas que fiz foi participar no estande do FAM, pela Cinemateca. Passei o meu primeiro festival conversando com muitas pessoas que faziam cinema aqui em Santa Catarina. Desde lá, me aproximei e trabalhei com várias delas. Voltar anos depois com um filme na tela pra mim é ótimo por perceber o que eu tenho feito nos últimos anos e como o FAM esteve presente neles. Mas confesso que, por mais que o filme esteja pronto, ainda dá o mesmo frio na barriga como no primeiro dia de produção do Larfiagem. Parece que nunca acaba, na verdade acho que agora é que começa de verdade, com ele indo pra tela.
 
O DVD será lançado no site no dia 20. No dia 26/06 oficializo a doação de 100 exemplares para apoiadores, escolas e instituições públicas e depois disso estará no site (www.ombuproducao.com/) para quem quiser adquirir.
 
Pergunta - Tem algum outro filme teu, como diretora, em mente? Podia falar um pouco das tuas realizações mais recentes?
 
Gabi - Antes do Larfiagem fiz alguns filmes experimentais na videoarte, em processos muito mais simples com poucas pessoas na equipe. Estou planejando um outro documentário para o segundo semestre, será sobre um radialista do interior, também de Herval d'Oeste. Num formato bem mais simples e mais como um ensaio visual e experimental.
 
Além de filmes, tenho produzido exposições, uma dela e a "Interior" que está em circulação e a Flamboiã, um evento de publicações de artista, ambos trabalhos pela Ombu produção, além de editar e produzir publicações de artista que é minha área de pesquisa e outros trabalhos visuais que envolvem cinema, como a série de cartazes "Cinema novo" pela Miríade edições.
 

Apoio