Entrevistas

Tema e protagonismo feminino em Mulher do Pai

A diretora e roteirista Cristiane Oliveira
A diretora e roteirista Cristiane Oliveira

Mulher do Pai, primeiro longa da gaúcha Cristiane Oliveira, é o filme convidado da Mostra de Longas Mercosul do FAM na quarta-feira, 21. No dia seguinte, estreia nos cinemas do país. Com uma temática feminina e a maior parte da equipe composta por mulheres, conta a trajetória da adolescente Nalu (Maria Galant), que, após a morte da avó, precisa cuidar de Ruben (Marat Descartes), o pai cego. Os dois vivem um relacionamento distante até a chegada de uma professora uruguaia (a atriz Verónica Perrota). Ao mesmo tempo, a menina vive o dilema entre ser tecelã como a avó ou buscar uma nova vida longe de onde mora, uma comunidade na fronteira do Brasil com o Uruguai.

Cristiane roteirizou, foi assistente de direção e produziu os longas Nove crônicas para um coração aos berros e Uma dose violenta de qualquer coisa, dirigidos por seu marido, Gustavo Galvão. Ela dará uma oficina gratuita de roteiro e direção no FAM também na quarta.

O FAM 2017 tem o patrocínio do Funcultural/ Fundação Catarinense de Cultura, Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esportes, Governo do Estado de Santa Catarina, da Petrobras e do Governo Federal, com apoio da Secretaria de Cultura e Arte da Universidade Federal de Santa Catarina e realização da Associação Cultural Panvision.

Leia a entrevista:

Pergunta - Como roteirista, que histórias te atraem e o que te levou a escrever e dirigir Mulher do Pai? 

Cristiane Oliveira -
A motivação inicial para escrever Mulher do Pai veio de um sentimento pessoal. A perplexidade diante de um sentimento novo, com o qual não sei bem como lidar, é o que me move a escrever. No caso de Mulher do Pai, foi o estranhamento que senti ao aceitar a amizade de meu pai na adolescência. Percebi que ser filho e ser pai são coisas que se aprende, não estão prontas em nós. O interesse em trabalhar sobre uma relação pai-filha se uniu a algo que percebi durante a pesquisa para meu primeiro curta-metragem: a angústia de perder a memória visual.

O curta (Messalina, 2004) tratava de uma personagem cega e me envolvi com deficientes visuais para criar o universo do filme. É comum esquecermos a imagem das coisas e nos inquietamos quando já não lembramos mais do rosto de alguém querido, por exemplo. Mas uma foto, um vídeo ou mesmo poder rever de fato nos faz rememorar e alivia essa falta. Uma pessoa que perde a visão não tem mais esse recurso. Foi aí que me perguntei: e se alguém lhe descrevesse tudo em detalhes, amenizaria essa angústia? A relação que um cego tem com quem descreve o mundo para ele é de uma confiança e proximidade tão grandes quanto uma filha gostaria de ter com um pai. Foi assim que os dois assuntos se conectaram. Como seria uma filha descrever o mundo ao pai cego? A construção dessa intimidade é a base do filme.

Construir a intimidade na tela é como permitir que os personagens tirem suas máscaras para o espectador. Gosto disso. Sempre tive curiosidade em saber como as pessoas são na intimidade, é um mistério que me instiga cada vez mais. A imagem que as pessoas criam de si hoje nas redes sociais é um recurso que faz a intimidade algo ainda mais valioso para mim.

Pergunta - Como foi a escolha dos atores?
Cristiane -
Como a protagonista do filme era a adolescente Nalu, que é interpretada pela Maria Galant, ela foi a primeira a ser escolhida. A partir daí escolhemos os atores que contracenam com ela, porque precisávamos montar uma família, escolher pessoas que trouxessem a credibilidade de que eles poderiam ser parentes ou amigos. Para o personagem do pai eu tinha uma pesquisa de 70 atores na faixa etária pretendida, mas fechamos em 5 nomes que teriam semelhança física com a Maria. Desses, escolhemos 3 para fazer teste de vídeo junto com ela. Marat foi o escolhido ao final não só porque tem uma semelhança física com ela mas também por sua experiência em cinema: quando ele foi fazer o teste de vídeo, ele já era o Ruben. O primeiro contato com Maria foi vendado, fizemos a cena em que o pai toca no rosto da filha pela primeira vez. A energia foi tão forte entre eles que Maria saiu do exercício com os olhos cheios de água, pela carga emocional que ele transmitiu a ela.

Pergunta - Como foi ter tanto reconhecimento já no desenvolvimento do filme e depois, no festival do Rio e em Berlim?
Cristiane -
Ter o projeto selecionado na fase de desenvolvimento para o Prêmio Santander Cultural, para a oficina Produire au Sud (Nantes, França) e para o Talent Project Market, do Festival de Berlim (onde ganhamos o prêmio VFF Talent Highlight) foi muito importante para estabelecer laços com o mercado internacional. Além disso, ter um olhar de fora, em consultorias que recebemos nesses eventos, trouxe questões importantes para que chegássemos na filmagem com um roteiro mais enxuto e lapidado. O reconhecimento em festivais é sempre uma surpresa e uma alegria, pois fazer um filme é um tiro no escuro, nunca sabemos como ele será recebido.

Pergunta - Conte mais sobre os aspectos da produção e da coprodução com o Uruguai.
Cristiane -
O filme foi rodado em quatro semanas mas teve uma preparação longa, buscando desde 2014 uma integração plena com a população da Vila de São Sebastião, que nos acolheu muito bem para as filmagens que ocorreram em maio de 2015. Com mais ou menos 200 habitantes, sem hotel ou farmácia, a receptividade da vila foi determinante, pois nos hospedamos em casas dos locais e mais de 40 homens e mulheres da região trabalharam no filme. Já a coprodução com o Uruguai foi uma relação que começou com minha amizade, desde festivais de curtas no início dos anos 2000, com o produtor e diretor Diego Fernández. Poderíamos apenas contratar três atores uruguaios, como o roteiro pedia, porém a coprodução com sua produtora, a Transparente Filma, nos possibilitou muito mais. Tivemos uma importante equipe uruguaia, que agregou muito ao resultado estético do filme, como Gonzalo Delgado (diretor de arte do filme Whisky) e Raúl Locatelli (técnico de som do filme Luz Silenciosa), entre outros.

Pergunta - Você normalmente realiza oficinas como a do FAM? O que tem observado nas pessoas que querem escrever e realizar seus filmes?
Cristiane -
É a primeira oficina desse tipo que realizarei, mas em conversa com professores de cinema tenho observado que há um interesse grande hoje em produção de séries para TV e Internet. Acho importante que mesmo nessas produções não se perca de vista o cinema como a “linguagem audiovisual” que deu origem a todas as outras. Não como algo determinista, mas como uma base sólida para quem quer ir além.

Pergunta - Quais teus projetos atuais?
Cristiane -
Atualmente preparo outros dois projetos de longa que foram premiados nos editais de desenvolvimento Prodav 05 do FSA  e de projetos Brasil-Itália (Ancine-CSC). O primeiro já ganhou o edital de produção do BNDES, garantindo parte de seu orçamento, o segundo está ainda na fase de pesquisa e roteiro.

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