Entrevistas

Artigas, em busca da Pátria Grande

Elaine Tavares com a equipe
Elaine Tavares com a equipe

O documentário Artigas, um caminho (2017, 32 min), da jornalista e educadora do Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC, Elaine Tavares, estreia no FAM na Mostra-DOC FAM. Produzido de forma independente, retrata uma viagem intimista, com uma equipe pequena, que refaz o trajeto de 500 quilômetros no Uruguai percorrido por José Artigas e por 16 mil pessoas que o seguiam, em 1811, no que ficou conhecido como Êxodo Oriental ou Redota. O episódio construiu o caminho da independência uruguaia.

O FAM 2017 tem o patrocínio Funcultural/ Fundação Catarinense de Cultura, Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esportes, Governo do Estado de Santa Catarina, da Petrobras e do Governo Federal, com apoio da Secretaria de Cultura e Arte da Universidade Federal de Santa Catarina e realização da Associação Cultural Panvision.

Pergunta - Seu interesse em Artigas e na história da América Latina e nos movimentos de libertação já é de longa data. Pode falar mais sobre isso?

Elaine Tavares - Sou nascida na região que faz fronteira com Argentina e Uruguai. Desde criança ouço falar em Artigas e logo me apaixonei por ele. Toda vida eu escrevi sobre ele, pesquisei e tudo mais. América Latina é minha pátria e eu desde a infância estive ligada aos heróis e heroínas da libertação. Foi a partir da vivência com a Gina Couto, uma uruguaia que trabalhava aqui em Floripa, com o MST, que tive a ideia de percorrer, de carro, o caminho da Redota, que Artigas fez com mais 16 mil pessoas. Era um desejo meu, pessoal, íntimo, de andar pelos caminhos que ele andou, até que em 2015 foi possível. A Gina ia junto, mas ficou doente e não pôde ir. Infelizmente ela morreu antes do filme ficar pronto, mas ele é dedicado a ela. E foi uma daqueles momentos estelares que se tem na vida poucas vezes...

Pergunta - Esta é sua estreia do filme e a primeira vez de uma produção sua em festivais. Como foi realizar o filme?

Elaine - Eu sempre trabalhei com vídeo, desde os 20 anos, como repórter e produtora, em televisão e depois de maneira autônoma. Já fiz vários vídeos e documentários, mas nunca tinha me preocupado em colocar em festivais. Esse eu coloquei por causa da Gina, ela queria que o Artigas e o caminho da Redota pudessem ser conhecidos pelos catarinenses, então a gente decidiu mandar para o FAM. Fazer o vídeo foi tranquilo, pegamos um carro velho e mais três companheiros e fomos seguindo a estrada. Não foi muito fácil achar os pontos do caminho, pois pouca coisa é sinalizada, mas acabou sendo uma descoberta mágica. É um documentário singelo e intimista, mas tem essa coisa importante que é a de contar sobre Artigas, esse homem incrível e sobre a marcha do povo com ele.

Pergunta - Como você viabilizou o documentário?

Elaine - Viabilizamos por nossa conta mesmo. Cada um ficou responsável por seus gastos pessoais e eu e o Rubens Lopes (diretor de fotografia e editor) garantimos a gasolina. Toda a viagem foi assim. A equipe também teve Antonio Martins no som direto e Paulo Renato Venuto, como assistente de câmera. E a pós-produção fizemos em casa, devagar, com os poucos recursos materiais que tínhamos. Tivemos apoio do Iela (Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC), onde trabalho, que emprestou a câmera.

Pergunta - Qual a relação do teu filme e do tema com a nossa situação política atual, no país e na América Latina?

Elaine - Artigas (no Uruguai) e Bolívar foram os únicos dos libertadores que jogaram a sua vida na construção da Pátria Grande, a América unificada, os povos irmanados. Artigas comandou as gentes do Uruguai na saga de libertação, e estava junto com os negros, os índios e as mulheres. Foi o único a implementar uma reforma agrária e tinha por método realizar grandes assembleias populares para que o povo pudesse decidir as coisas. Imagine que ele andou mais de 500 quilômetros com 16 mil pessoas atrás, e tudo foi feito com a participação popular em cada decisão tomada. Isso foi incrível. Como Bolívar, ele também foi traído pelos outros generais que queriam apenas poder e nunca lutaram por libertação de verdade. Hoje, na América Latina, ainda estamos tentando construir o sonho de Artigas e de Bolívar. Por alguns anos conseguimos, com Chávez, Cristina, Mujica, Evo e outros avançar, mas agora estamos de novo regredindo. Artigas segue sendo um exemplo para nós, que sonhamos com a Pátria Grande construída com liberdade, com participação.

No Brasil, vivemos um golpe, o assalto do poder por hordas de ladrões que vendem a pátria por trinta dinheiros. Como Artigas, lutamos contra isso e lutaremos até a vitória. Artigas foi derrotado, os índios que marchavam com ele foram chacinados em emboscadas feitas pelos generais antes amigos, os negros foram perseguidos. Mas aquilo que aquela gente viveu com Artigas ainda ecoa nos caminhos do Uruguai e da pátria grande. Por isso recuperamos essa história, para lembrar e para voltar a caminhar, no rumo da libertação.

 

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