Entrevistas

Anauê, a história contra o racismo e a intolerância

Zeca Pires com a equipe (sentado, ao centro)
Zeca Pires com a equipe (sentado, ao centro)

O cineasta catarinense Zeca Pires lança seu 11º filme na abertura do FAM 2017, na terça-feira, dia 20. Resultado de um longo período de maturação e pesquisa, o documentário Anauê revisita os temas polêmicos do integralismo e o nazismo durante a 2ª Guerra Mundial em Santa Catarina. Traz materiais inéditos e entrevistas com pesquisadores e personagens dessa história que guarda relações com o momento político do Brasil e do mundo. Na entrevista, Zeca fala desse processo.

O FAM 2017 tem o patrocínio Funcultural/ Fundação Catarinense de Cultura, Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esportes, Governo do Estado de Santa Catarina, da Petrobras e do Governo Federal, com apoio da Secretaria de Cultura e Arte da Universidade Federal de Santa Catarina e realização da Associação Cultural Panvision.

Pergunta - Como surgiu o projeto e por que quis revisitar esses temas?

Zeca Pires - A ideia é da década de 90 e a registrei na Biblioteca Nacional em 1999. Gosto de temas históricos, mas pra mim todo filme, nas condições que a gente faz cinema aqui, quando é preciso correr atrás da produção, tem que ser algo que me toque, senão não tenho como viabilizar. Tive contato pela primeira vez com o tema foi quando fui assistente da professora Neide Almeida Fiori, da UFSC, junto com meu parceiro Norberto Depizzolatti. Ela pesquisava a nacionalização do ensino e o documentário é dedicado a ela. Nós éramos responsáveis pela pesquisa iconográfica.

O que me deixava instigado é que essa história era pouco contada, não estava nas histórias oficiais, havia pouca documentação. Minha mãe era professora e na época da nacionalização foi transferida para dar aula em Timbó. Era proibido falar a língua alemã e só tinha aluno alemão, ela então aprendeu a falar pra se comunicar com eles. Os alunos ficavam perplexos, tinham medo que ela fosse presa se falasse. Gravei um depoimento com ela sobre isso, em 2005, e está no filme.

Em 96 fiz mestrado sobre os pioneiros a registrar cinematograficamente Santa Catarina, José Julianelli e Alfredo Baumgarten. Baumgarten é filho do dono do jornal Blumenau Zeitung, publicado em alemão, e foi vereador integralista. Foi preso duas vezes, uma por escuta de rádio em alemão, que não podia, era ouvido normalmente nos porões. Nesse período do mestrado senti dificuldade das pessoas, principalmente as mais velhas, falarem sobre isso, era um tema proibido, algumas sofreram, viram os pais sofrerem. As ruas, os municípios tiveram que mudar de nome na nacionalização, e trocar por palavras indígenas, como foi o caso de Ibirama. As crianças tinham que ser escondidas pra não falarem alemão, fica um trauma, a Kátia Klock fala sobre isso no filme Sem Palavras. E anauê é uma palavra tupi, um cumprimento integralista, e a primeira vez que ouvi falar liguei com a saudação nazista e pensei que esse seria o título do filme.

Pergunta - E como foi passar da ideia pra produção?

Zeca - Montei o projeto, mas nunca consegui viabilizar, em parte porque é difícil viabilizar um filme e esse tema parecia mais difícil ainda. Inscrevi o projeto em alguns eventos de festivais e fui selecionado em dois, fui a única pessoa fora do eixo Rio-SP, um deles em 1999 no Festival do Rio, com o roteirista Carlos Gregório, Eduardo Coutinho, mestre do documentário no Brasil e João Emanuel Carneiro, e também no Brasil Documenta no Instituto Moreira Salles. Coutinho me deu sugestões, disse que era um tema instigante, que é bom quando a gente tem um tema que nos interessa e que tem muita coisa a descobrir que não está na história oficial.

Na minha tese, soube da existência de um filme de Baumgartem com o registro do Congresso Integralista em 1935 em Blumenau, a maior reunião política do Sul do Brasil, o integralismo teve mais adeptos nessas regiões de colonização alemã. Mais tarde, um policial me trouxe um vídeo, e era o filme desse congresso, em 35 mm, consegui telecinar e uso trechos dele em Anauê. Esse filme foi um achado e me estimulou mais. Mas deixei um pouco de lado e em 2014 eu e a Maria Emília inscrevemos e ganhamos o Edital Catarinense de Cinema, com um orçamento superbaixo, R$ 120 mil, mas que permitiu realizar o filme com uma equipe bem reduzida, mesclando pessoas com mais experiência e que estão despontando. A finalização, por exemplo, é Giba Assis Brasil junto com Jonatas Rubert. Giba montou quase todos os meus filmes, é um dos melhores montadores do Brasil.

Pergunta - A curadoria dos personagens foi feita de que forma?

Zeca - Já tinha umas pessoas traçadas, como Sueli Petry, do arquivo público de Blumenau, o Luís Felipe Falcão, professor da Udesc e doutor em História Social, a Marlene de Fáveri, que fez uma pesquisa sobre a mulher na Segunda Guerra, e que deu uma contribuição muito significativa pro filme, o René Gertz, um dos maiores especialistas em integralismo. Sylvio Back, uma das únicas pessoas que falou desse tema e que tem um papel de questionar a história oficial, me cedeu imagens do Aleluia Gretchen, de 1974.

Consegui com Valmir Lemos, pesquisador e ex-comandante da Polícia Militar, uma entrevista com Lara Ribas, que foi delegado e autor do livro O punhal nazista no coração do Brasil, então é um material inédito ou em parte inédito. Uso também trechos de um discurso de Getúlio Vargas em Blumenau, que veio para a cidade junto com Nereu Ramos. Entro em três momentos em primeira pessoa, com um ator falando por mim, o Édio Nunes. Gringo Starr faz a voz de Getúlio e Roberto Lacerda do Nereu Ramos. É um filme denso, discuto um pouco as oligarquias, os Ramos em Lages e os Konder Bornhausen, que têm ascendência alemã e grande influência no Vale.

Pergunta - Como é lançar o filme na atual situação política brasileira e em que há a ascensão de movimentos de extrema direita aqui e no mundo?

Zeca - Não discuto tanto os dias atuais mas chego neles. Filmei de helicóptero a casa em Pomerode que tem uma suástica na piscina. Falei por telefone com o proprietário, mas ele não teve interesse em falar. A ideia é mais tarde ter um site com o material na íntegra, mesmo as entrevistas que não entraram. Essa é função do filme, proporcionar reflexão sobre esse período e estimular outros trabalhos. O filme não esgota nada, este é um assunto delicado que procurei tratar com cuidado. Quando não discute e se passa por cima da história, deixamos de entender por que certas reações no mundo contemporâneo acontecem e isso aumenta o racismo, a intolerância. Quero que o filme seja um degrau pra quem quer entrar no tema levar mais adiante.

Rever mais profundamente esse tema, completar esse trabalho pra mim é uma satisfação, um marco. E ser convidado pra estrear no FAM, um festival que acompanho desde o início, é uma honra grande e uma responsabilidade, e sendo aqui na universidade, onde eu sempre trabalhei, é muito gratificante.

 

 

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