Entrevistas

Retrato de cães e homens esquecidos

Luciano Cáceres e Pablo Pinto em Corralón
Luciano Cáceres e Pablo Pinto em Corralón

Corralón, filme do argentino Eduardo Pinto, será exibido na quinta-feira, dia 22, na Mostra Longas Mercosul do FAM 2017. Filmado em Moreno, subúrbio de Buenos Aires onde nasceu o diretor, conta a história de dois grandes amigos, Juan e Ismael, interpretados por Luciano Cáceres e Pablo Pinto, respectivamente, que trabalham em um galpão de material de construção. Enquanto entregam cimento, areia e tijolos em casas de ricos e pobres da região, eles compartilham das asperezas do trabalho, de sonhos não realizados e do álcool.

Um dia, topam com um cliente diferente, que os trata com humilhação, desencadeando uma série de acontecimentos que tornaram Corralón uma das grandes surpresas do cinema argentino em 2017. Segundo Eduardo Pinto, realizador também de Caño Dorado (2009) e Buen Día, Día (2010), o filme é uma metáfora da sociedade atual: “Corralón é o perímetro que cerca cada homem”, diz.

O FAM 2017 tem o patrocínio Funcultural/ Fundação Catarinense de Cultura, Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esportes, Governo do Estado de Santa Catarina, da Petrobras e do Governo Federal, com apoio da Secretaria de Cultura e Arte da Universidade Federal de Santa Catariana e realização da Associação Cultural Panvision.  

Abaixo, uma entrevista com o diretor Eduardo Pinto:

Pergunta – Do que trata Corralón? Como surgiu a ideia para o filme?
Eduardo Pinto –
Corralón fala da amizade entre os protagonistas e da discriminação e divisão da sociedade argentina. Corralón mostra a famosa fenda entre as classes sociais e como a loucura pode aparecer em seres sãos e normais, uma loucura ingênua e violenta a sua vez, uma loucura sem limites. Uma loucura que tenta judicializar e reeducar os insensíveis, da forma equivocada, é verdade. De um lado tudo, do outro nada. Se há dois lados, há conflito. A ideia nasce a partir de imagens que fui vendo em Buenos Aires. Casas tapadas, fechadas com tijolos para que ninguém possa entrar. Sempre pensei: o que existe do outro lado? A ideia de estarem presos, em currais, como animais, sempre me deu voltas na cabeça. A sociedade capitalista necessita que estajamos encurralados. Que não saiamos jamais desses limites impostos pelo sistema. O filme rompe esses limites. Os personagens rompem esses limites.

Pergunta – Você filmou em Moreno, sua cidade natal. Já tinha isso em mente quando iniciou a produção?
Pinto –
Para mim foi muito importante voltar a filmar em minha cidade natal, de alguma forma foi voltar à liberdade absoluta. Meu primeiro curta, eu filmei em Moreno, não sabia usar a câmera, não sabia focar, mas pude fazer um filme livre e verdadeiro, e agora depois de muitos anos regressei para filmar com essa mesma liberdade. Improvisamos cenas incríveis com Luciano Cáceres e Pablo Pinto, como se se tratasse de um jogo. Voltar a filmar em minha cidade foi recuperar a liberdade da ignorância, do desconhecido. Filmar em Moreno deu uma identidade muito forte e verdadeira ao filme.

Pergunta – Há uma clara opção estética no filme na escolha do preto e branco e a música marcante em torno dos personagens Juan e Ismael. Poderia comentar o por quê dessa escolha?
Pinto –
A história roçava tons de atuação muito perigosos, o preto e branco me ajudaria a controlar esses tons. O preto e branco me interessava para retratar o inverno. Os céus nublados, os cinzas e negros profundos. Poucos brancos. É uma história escura. A música em meus filmes cumpre um papel fundamental. Amo a música e a que faz Axel Krygier. Seu trabalho é incrível. A música sai da alma dos personagens, sai como um latido profundo e horroroso. É a voz de Juan. Juan fala muito pouco, a música o acompanha. No início do filme, a música vira para comédia a caminhada de Ismael, nos relaxa, depois nos estremece até a própria escuridão. Música e fotografia compõem uma frente muito poderosa em Corralón.

Pergunta – Até que ponto o filme serve como uma metáfora da sociedade argentina atual?
Pinto –
O filme é uma metáfora do que está passando na sociedade argentina e latino-americana. Sociedades individualistas, egoístas, nas quais o que não tem não é. A sociedade capitalista é uma sociedade insensível. Esses personagens reagem. A ideia de que os animais possuem mais sensibilidade que os homens me parece interessante. Um retrocesso importante. Em Buenos Aires, as pessoas sofrem pelos cães abandonados nas ruas, mas junto com esses cães há homens esquecidos, que ninguém os vê. Só veem os cães.
 

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