Entrevistas

Uma perspectiva mural para contar a história de um rio, cinco estados e 16 milhões de brasileiros

Flávio Zettel, montador do filme
Flávio Zettel, montador do filme

5 Vezes Chico - O velho e a sua gente é um caleidoscópio da vida às margens do Rio São Francisco. O grandioso atravessa cinco estados do Nordeste e Sudeste enquanto influencia 16 milhões de brasileiros diariamente. É de se esperar que todo esse tamanho traga histórias e realidades bem distintas. E justamente dessa heterogeneidade a produtora e idealizadora, Izabella Faya, decidiu pela criação de cinco curtas que se juntassem e contassem a história do Velho Chico.

Nesta entrevista, o montador responsável por juntar essas cinco histórias, Flávio Zettel, conta como foi ligar as obras de Gustavo Spolidoro, Ana Rieper, Camilo Cavalcante, Eduardo Goldenstein e Eduardo Nunes, a produção rápida e a temática política que surgiu em meio às realidades ribeirinhas.

Pergunta: Como foi a escolha dos cinco diretores? Existia um tema definido para cada um deles?
Flávio Zettel: Foi pensado um projeto com cinco olhares distintos, diretores-autores que tivessem uma cinematografia já própria e que fossem criar uma impressão bem própria de cada episódio. Tinha sido imaginado para a nascente uma coisa mais poética, um documentário próximo de ficção e, por isso, se pensou no (Gustavo) Spolidoro, que tem essa pegada. E a mesma coisa aconteceu com os outros curtas.

O que queríamos era mostrar essa perspectiva mural em cima das histórias já pesquisadas para ele. Era dar conta de um rio continental, mas paradoxalmente intimista. A ideia era criar esse mozaico mesmo.

Pergunta: Foi uma decisão consciente não deixar bem definido quem filmou qual parte?

Flávio Zettel: Não, a ideia era deixar bem marcado através das características de cada diretor. Mas não estava nada definido e na montagem as histórias se comungaram e ficaram muito inseparáveis. Uma simples passagem de um filme para o próximo fazia fluir o filme, ao contrário de uma marcação mais pesada. A gente chegou sem querer em uma metáfora do que estamos falando no próprio filme: da fluidez de um rio.

Pergunta: Em um momento em que se fala tanto de preservação ambiental, especialmente após o desastre de Mariana, um filme com essa temática tem um quê de político também?
Flávio Zettel: Ele indiretamente tratou disso. Como ele é uma declaração de amor a esse rio e da importância dele na vida dessas pessoas que sobrevivem ali, muitas vezes a duras penas, indiretamente o filme é político também. Ele trata das dificuldades das pessoas, que precisam que o rio esteja bem para que elas vivam e sobrevivam em suas margens. Mas ele não teve essa pegada inicial de falar de transposição, poluição etc. Isso aconteceu naturalmente no depoimento das pessoas, que lidam diariamente com isso. O Cícero, por exemplo, fala muito da transposição e como isso afetou a pesca de piranhas, que é do que ele vive. O filme acabou sendo político também, não teve como fugir.

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Por Júlia Ayres Vieira, jornalista.