Entrevistas

Tiago Santos, diretor de Produção do FAM

Foto Daniel Guilhamet
Foto Daniel Guilhamet

Tiago Santos, 42 anos, nasceu na família que realiza o FAM. Tinha 18 quando o festival começou, e com exceção da primeira edição, sempre esteve envolvido de alguma forma. Técnico em saneamento ambiental, fotógrafo, fez parte da segunda turma do curso de Cinema na Unisul, é diretor de Produção do festival desde 2009, função a que se dedica o ano todo e o faz realizar coisas como andar em meio aos carros da principal avenida de Florianópolis com um cartaz na mão, divulgando a campanha de financiamento coletivo do festival em 2020.

Em 2005 fundou sua própria produtora, a Muringa Produções Audiovisuais, que desde 2018 coproduz o festival. Produtor executivo e de finalização, é também um dos principais montadores e consultor de montagem em Santa Catarina, com nove longas e 25 curtas no currículo, entre projetos nacionais e internacionais, como a série policial “Mata Selvagem”, dirigida por Iñaki Echeberría e filmada na Tríplice Fronteira, uma coprodução entre Argentina, Brasil e Paraguai, em finalização.

O 25º Florianópolis Audiovisual Mercosul, de 23 a 29 de setembro, tem o patrocínio do Sebrae e é uma realização da Associação Cultural Panvision e Muringa Produções Audiovisuais.

FAM - Como é, desde o início da vida adulta, e até agora, trabalhar no FAM? O que representou para a tua formação estar nesse meio?

Tiago Santos - No primeiro ano do FAM eu fazia o curso técnico em saneamento, e organizei o primeiro seminário de recursos hídricos de Santa Catarina, no IFSC, que era na semana do meio ambiente, por isso não participei da primeira edição. Na segunda participei como fotógrafo still e foram dois anos nessa função. Era engraçado porque a fotografia era em película, tinha que revelar rápido para enviar ao jornal. Terminava uma palestra, corria para revelar no centro da cidade enquanto almoçava e voltava com as fotos impressas para a imprensa. Depois fui pra parte do making of, por uns três anos. Desde 2009 faço a produção do festival.

No primeiro ano que trabalhei no festival eu não fazia cinema ainda, era fotógrafo, não tinha muito o ambiente, apesar de que meu pai já tinha feito filmes, eu já tinha ido pra set de filmagem, mas o que eu gostava era a parte ambiental. Depois, fazendo still do festival e com a faculdade de cinema, uma coisa ajudou na outra. Crescer dentro de um festival representou fazer contatos, escutar muita gente que já se foi, o Fernando Bini, o Octavio Getino, da Argentina, a relação de amizade antiga do meu pai com o Carlão Reichenbach, o Nelson Pereira dos Santos, vários grandes nomes do cinema brasileiro e latino-americano passaram pelo FAM e eu estava ali, ainda menino, consumindo e discutindo cinema já.

O making of é um desenho que gostei bastante, um informativo institucional com entrevistas, e obviamente conversamos com as principais pessoas que estavam no evento. Uma vez eu estava com as mães do Glauber Rocha e do Rogério Sganzerla, e elas falando dos filhos. Vivi situações assim. Desde 2009 estou à frente da Produção, com a Marilha, minha irmã, na Programação, foi um convite do Celso, porque duas pessoas que estavam na produção há muito tempo, o Sebastião Braga e a Letícia Friedrich, seguiram outros rumos, e nós abraçamos.

Esse ano de 2009 foi um marco também porque foi a mudança para um novo espaço, a UFSC. As lógicas eram diferentes, foi o festival que mais teve filmes, mais de 200 títulos, em vários espaços, ficamos inventando coisas. Fomos aprimorando e sempre aprendendo, depois de 11 anos fazendo isso, as pessoas se surpreendem, como vocês fazem isso tão rápido? Mas é a experiência. O que nos traz sempre um pouco de dor é a questão da falta de incentivo fiscal, principalmente público. Fazemos esse evento dessa forma com esses recursos, imagina se a gente tivesse recursos de verdade. Sinto pena, fico triste pela falta de reconhecimento de município e estado.

Como é realizar em família um festival tão duradouro como o FAM?

A gente trabalha 24 horas. É uma segurança trabalhar com os pais, Celso e Denise, uma felicidade, e acredito que pra eles também, ver os filhos estarem na profissão juntos, mas é complicado mudar de assunto na hora do almoço. Ter os pais como parceiros no trabalho é um orgulho, pela questão do Celso, principalmente, ter montado o festival. Lembro da luta financeira, do primeiro, do segundo, a angústia para poder dar o start. É como agora, não sabemos se vamos ter um estúdio ou não nesta edição, pois não temos recursos.

O que partiu de você no festival? Das tuas ideias o que ficou?

O making of foi sugestão minha no começo, com esse formato, não uma coisa pós-evento, eu gostava muito do imediatismo. A gente grava durante o dia e à noite já está sendo exibido. Fico feliz que isso permaneceu, mas é um trabalho coletivo. Este ano também estamos felizes de ter aberto o modus operandi do festival, que mudou totalmente, a gente joga muitas das discussões, dúvidas e decisões para o grupo, isso tira um peso e temos a participação de um grupo maior.

O WIP (Mostra Work in Progress) foi a Marilha que insistiu em fazer, a parte do Rally Universitário fui eu, e deu certo, a partir do Projeto Santa Cruz 100x100 do Fenavid, na Bolívia, que participo desde 2014. Neste ano, o selo ambiental Ecovision foi um tema que eu trouxe, que ainda não é trabalhado com a devida atenção na América Latina. A Panvision está abrindo novos mercados, novos festivais, como o Fala São Chico, um festival de documentários numa das cidades mais antigas do Brasil. Esse novo festival está sendo super bem recebido na cidade, e também foi sugestão minha.

Que situações foram mais significativas nesses anos todos?

O que sempre marca a gente, não tanto no Brasil, mas lá fora, é que quando falamos que somos do FAM as pessoas se admiram. Eu estava no projeto do Mata Selvagem, na Argentina, falei que era de Florianópolis e o ator contou de uma ação em Florianópolis, um grupo de estudantes de toda a América Latina que faziam um vídeo em tantas horas, e é o nosso Rally. Foram muitas outras situações assim, escutar elogios sempre é bom. A gente levanta a bandeira da receptividade de um festival friendly, o atendimento que damos, no on-line acabamos não conseguindo entregar tanto, no presencial é bem mais. De novo, poderíamos fazer muito mais com recursos dignos, patrocinadores, uma equipe um pouco maior, porque a gente se destroça pra fazer acontecer.

Em que outros projetos você está envolvido agora?

O FAM toma todos os meses do ano, sempre estamos fazendo alguma articulação, mas num período consigo fazer outras coisas, agora estou coproduzindo com a Colômbia e finalizando o “Mata Selvagem”, comecei a captação do documentário “Bien inmueble”, uma coprodução da Muringa, com a Colômbia, que é a majoritária, pra ser filmada em Cuba, estamos indo em setembro pra rodar.

O que você vê como tendências e quais suas reflexões para o futuro do FAM, on-line este ano mais uma vez?

Na minha opinião, não vejo o festival on-line como um festival de fato, é uma playlist de streaming, festival é uma coisa maior do que ver o filme. É conversar com a pessoa, tomar um café, fazer o encontro, trocar cartão, discutir o filme com um desconhecido. O festival é o networking que você não faz no formato virtual, não da mesma forma. Não acredito que possam existir festivais on-line, podem existir curadorias para streamings.

Somos um dos 15 festivais mais antigos do Brasil, é muito importante ressaltar a questão do calendário internacional de festivais, você sabe que em setembro existe o FAM, pouco antes tem San Sebastián, Cannes é no primeiro semestre, outros no segundo. Às vezes nos dizem, por que não deixa um pouco mais pra frente, para tentar captar? Não, é um festival, tem data para acontecer, tem uma responsabilidade para estar na rua, tem o tempo dos filmes circularem. Não vejo a hora da gente voltar ao presencial, não sei o que vai ficar do on-line, sei que outros festivais dizem que uma parte on-line vai permanecer. Espero que o ano que vem a gente possa fazer um lindo festival, que tenhamos recursos, que o governo do Estado enfim lance o PIC, o Programa de Incentivo à Cultura, espero que tenhamos editais para os festivais também, e vamos aglomerar, mas com todos vacinados.

Também fico feliz de ver como o Encontro de Coprodução do Mercosul está crescendo, a procura por ele, pelo WIP. Não gostaria de chamar só de mercado, não é apenas uma coisa de vendas, o Laboratório de Projetos começou já este mês de agosto, existe esse reconhecimento de um filme que passou no LAB e que está este ano na programação do FAM, tendo passado pelo WIP há dois anos, o longa "El Film Justifica Los Medios" e também o “Iwianch, el Diablo Venado”. Um projeto que estará no WIP este ano passou no mercado do ano passado, foi para o mercado de Cali, na Colômbia, e voltou no WIP, o La Danza de los Mirlos, é muito bom ver esse ciclo funcionando. Falava muito que minha felicidade era ver as pessoas chegando ou saindo da sala de cinema. Espero que essa felicidade volte o ano que vem também.



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