Entrevistas

Entrevista: Maritza Ruano, de La Pesca del Atún Blanco


O longa colombiano La Pesca del Atún Blanco, de Maritza Blanco Ruano, tem sua estreia mundial nesta terça na Mostra Longas Ficção do FAM 2020. O drama-thriller é sobre uma adolescente negra, neta de pescador, que acaba emaranhada nas redes do tráfico de cocaína para financiar seu desejo de estudar Medicina, após ter gasto tudo que tinha para salvar a vida de seu irmão pequeno. Este é o primeiro longa de ficção de Maritza como diretora e roteirista. Estudou cinema em Londres e na Colômbia criou a Dessu Productions, que já prestou serviços para mais de 30 séries documentais internacionais. Dirigiu também o curta Viste a Cristina el 7 de Marzo? e documentários.

FAM – Você escreveu, dirigiu e fez o casting do filme, que é baseado em histórias reais. Como se envolveu com o tema?

Maritza Ruano - Conheci esta realidade do Pacífico latino-americano, não só colombiano, porque estávamos fazendo um documentário de um amigo sobre pescadores no norte da Colômbia. Os jovens de lá estavam se dedicando à pesca de cocaína, o peixe não interessava. O que isso trazia era violência, morte da cultura pesqueira, musical e de toda uma tradição. Uma adolescente nos procurou, porque não há nada a fazer lá, não tem trabalho, o estudo é muito limitado, então surgiu a atividade de recolher fardos que o mar trazia. Inicialmente não sabiam do que se tratava, até que surgiram grupos à margem da lei para comprar o conteúdo. Viram que era uma fonte de dinheiro fácil, e a única que tinham na sua região, além da pesca e agricultura.

Quando viram que estávamos investigando, esses grupos paramilitares ameaçaram a moça e sua família. Abandonamos o trabalho, mas isso me deixou furiosa, essas comunidades na rota do tráfico são quase prisioneiras, por seu próprio isolamento geográfico, e por esses grupos, e ainda pela ausência do governo e corrupção.

Eu tinha o coração da história, mas ainda não os personagens nem tanta informação sobre as comunidades afrodescendentes de lá. Viajei fazendo vídeos para uma fundação que tem programas na região, e depois por mais dois anos por todo o Pacífico colombiano, conhecendo locações e a diversidade de pessoas, e também histórias que ajudaram a formar Mariana.

FAM – Como encontrou a protagonista?

Maritza
- Encontrei Eryen Ortiz a partir de uma foto em que ela tocava marimba. Tinha outro casting, mas pelos anos que demoramos isso mudou. É maravilhoso como ela se adaptou às coisas. Ela tem um melhor amigo músico, e no filme ele entrou também. A própria Eryen escolheu quem seria o avô, um senhor pescador que viveu essa história com seu filho e ele desapareceu. Vê-lo atuando é o máximo, um senhor que tinha muito medo de fazer, mas foi o mais valente e deu tudo de si.

FAM – A música e o som são muito poderosos no filme, incluindo o grupo mascarado que faz o contraponto da dramaturgia.

Maritza
- Pensamos muito na música e no som, junto com o músico Santiago Lozano, um artista da música concreta. A parte tradicional teria que ser pura, a própria Eryen compôs e interpretou junto com seu grupo Cantares del Pacífico. É um contraste forte da música concreta e eletrônica com a tradicional e instrumentos como a marimba. O coro tem uma função baseada no conceito do coro grego, unido a uma crença africana forte pra eles que são os ancestrais, que guiam o que fazer ou não. Os mascarados vêm de uma tradição local, que são como espíritos do bosque.

FAM – Pode comentar sobre aspectos da fotografia, que retrata a natureza e os conflitos da personagem e da produção?

Maritza
- Queria uma fotografia incômoda, crua. A realidade incomoda e queríamos fazer sentir isso. Conflitos aparecem em cores escuras, movimentos bruscos, são parte do caos. O projeto tinha muitos anos, a comunidade foi aliada na cidade de Buenaventura e em uma ilha. Realizamos com 100 mil dólares. Tive apoio do serviço nacional de aprendizagem do governo e 50% da minha equipe foi composta de aprendizes desse programa, que foram cabeças de área, com paixão por aprender, uma diversidade muito bonita.

Rodamos em 15 dias, muitas vezes numa tomada única. O desenho de produção e direção foi muito exigente, porque foram planos-sequência, câmera no ombro, atores naturais, não profissionais, e baixo orçamento, aprendi a exercitar a prudência com esse esquema.

FAM – Como vê a estreia no Brasil e no FAM, e ainda on-line?

Maritza
- Estrear no FAM é uma alegria e honra, é um território onde o filme será compartilhado e sentido. Temos no Brasil e Colômbia tradições ancestrais afrodescendentes e situações sociais muito parecidas. Que seja o Brasil a receber inicialmente é maravilhoso. Nós latino-americanos temos que refletir sobre quem vive esta realidade. Sonho em gerar um movimento de apoio para que aquelas comunidades tenham ao menos direito à educação e bem-viver.

Os festivais conseguirem fazer esta edição e nós estarmos vivos depois de tudo que nos aconteceu, é para celebrar. Apoiar estas iniciativas é uma resistência, mas vou sentir falta da presença física, ver que emoções o filme gerou, fará falta para mim, atores e pessoas da comunidade. Uma exibição em tela grande, com som, gostaria de fazer por eles, mas vamos esperar.

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